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14/03/2010 -- 15h52

OS OLHOS SÃO A JANELA DA ALMA E O ESPELHO DO MUNDO.

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OS OLHOS SÃO A JANELA DA ALMA E O ESPELHO DO MUNDO. (Leonardo da Vinci)


Os meus olhos veem as mesmas imagens que seus olhos veem? As árvores de que tanto gosto, cuja beleza tanto aprecio, comovem-no tanto quanto a mim? Quando tenho a oportunidade de observar a lua (principalmente a lua cheia) por entre os galhos e as folhas de uma frondosíssima árvore, sinto que me aproximo de algo divino. O contraste proporcionado entre a claridade da lua e das nuvens e a escuridade das folhas e dos galhos me deixa embevecido como num transe, em que me parece estar em sintonia com algo transcendente.
Para Fernando Pessoa, por meio de seu heterônimo Alberto Caeiro, o luar através dos altos ramos nada mais é do que o luar através dos altos ramos. Era assim que sua alma, seu espírito, via o luar através dos altos ramos: apenas a existência física de uma imagem. Ele era um poeta existencialista, e o existencialismo, teoria filosófica do início do séc. XX, se caracterizou pela realidade concreta; o que importava a um existencialista era o que se via, como se o que se vê existisse exatamente como se o vê. Não o é, porém. Discordo, portanto, de Fernando Pessoa, apesar de ser leitor contumaz de seus poemas e o julgar um dos melhores poetas de todos os tempos.

VER É PERCEBER COM A ALMA.

Ver não é simplesmente ver; não é simplesmente perceber com os olhos. Ver é perceber com a alma, com o espírito; é deixar-se envolver-se; é deixar-se cativar. Muitos são os que olham e nada veem, pois não se emocionam com o que as imagens representam. Veem fria e racionalmente. Não sabem, talvez, que é possível mudar a maneira de enxergar o que o mundo nos proporciona. Ou sabem, mas não se interessam por isso; estão tão acostumados com a frieza de seu próprio olhar perante as imagens que se lhes apresentam, que se negam a ver a beleza nelas contida.
Pode-se treinar o olhar, pois nunca uma mesma imagem representa a mesma sensação. Cada olhar é um fenômeno diferente do outro, mesmo que se olhe para o mesmo objeto no mesmo lugar, repetidamente. É mais ou menos como a teoria de Heráclito de Éfeso, um filósofo pré-socrático, considerado o pai da dialética, que dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, pois nem a pessoa é a mesma que havia entrado no rio anteriormente, nem o rio é o mesmo de quando ela havia entrado nele. Tanto um quanto o outro se modificaram com o tempo.

NÃO SOMOS O QUE JÁ FOMOS; NÃO SEREMOS MAIS O QUE SOMOS.

Não somos agora o que fôramos outrora e não seremos mais o que agora somos. É imprescindível, portanto, que se eduque o próprio olhar para aprender a ver com mais emoção o que se passa diante dos olhos. É o aprender a ver, não meramente com os olhos ou com o intelecto, mas o aprender a ver com o coração. Educar o olhar inicia-se com a consciência de que não vemos as imagens, mas sim a nós mesmos refletidos nelas.
Eu sou aquela árvore que vejo, sou os ramos e as folhas, sou a lua e as nuvens, sou a claridade e a escuridade. Meus olhos são o espelho do mundo, pois refletem a mim mesmo o que há de concreto no mundo, mas o que é refletido tem o significado que minha alma expuser, que meu espírito decifrar. Sou eu mesmo, portanto, refletido nas imagens que captei, que já não são mais as mesmas; transformaram-se nas imagens que eu criei.

APRENDER A DECIFRAR A PRÓPRIA ALMA.

Para isso ocorrer, porém, tenho de aprender a decifrar minha própria alma; tenho de aprender a me conhecer, a mim e às minhas raízes, aos meus princípios. Tenho de abrir as janelas de minha alma. Tenho de transformar meu olhar em algo substancial, nutritivo, pois ele que proverá minha alma de imagens a serem decodificadas.
Tenho também de transformar minha alma num núcleo formador de benevolência, para que tudo o que seja a ela incorporado por meio do olhar me deleite, me deixe embevecido, satisfeito. Assim me transformarei numa pessoa melhor e poderei ajudar as pessoas com as quais convivo a melhorar também nosso meio. Acredito que quanto mais pessoas houver pensando assim, melhor será a nossa sociedade.
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Quem escreve esta coluna?
Dílson Catarino

Dílson Catarino, 49, professor de Gramática da Língua Portuguesa, Literatura e Redação, desde 1980. Graduado em Letras, graduando em Pedagogia,pós-graduado em Psicopedagogia. Criador e mantenedor, desde 1999, do site Gramática On-line. Autor e compositor.