Falando de Literatura - Isabel Furini
22/07/2014 - 23:13
  RSS  
O MONSTRO

Vivendo em paraísos temporários e em infernos permanentes.
Na escuridão sem ter certeza do tempo que se encontra nela.
Permita-me falar sem dizer nada! Falar em pensamentos, elucubrar, elucubrar, elucubrar...
Seria o silêncio a resposta perfeita?
Se eu-você soubesse traduzir as agonias?

Dialeto pouco falado nos dias de hoje, de ontem, do passado anterior, navegando para trás como o mito do pássaro africano woofle woofle, que sempre voa para o passado.
Porém, sentimentos são um luxo que não tenho prazer de descartá-los, mesmo nestes tempos, nestas condições!

E como todos sabem, não há interesse algum do mundo nas prisões pessoais,
não é moeda de troca, sem nenhum valor para desperdiçar seu precioso tempo.
Não há nenhum curso acadêmico especializado em estudar as dores pessoais,
as verdadeiras dores, não essas que psiquiatras dizem que estudam.

Além da quinta camada da mente humana, as profundezas, a escuridão, a densidade de oprimir até mesmo o aço.
Para isso, talvez existam calmantes farmacêuticos, fitoterápicos, comédias e leitura básica.
Porém ainda não foi desenvolvido, depois de tantos avanços da inteligência humana, sequer um curativo, assopro de mãe, palavra de curandeiro, pedreiro para reconstruir ruínas internas que há muito estão desgastadas.

Tomo um gole, acendo um cigarro antes de partir de cabeça baixa com o peso do mundo, de ter consciência, de não poder se ajudar e não ajudar ninguém. E todo dia coloco um elefante maior em minhas costas. Eles cantam com vozes agudas algo insuportável. Caminhando pela escura e fria cidade mental, vendo os miseráveis, os mendigos, as prostitutas, os cães do caminho. Crianças que esmolam, que habitam está minha periferia mental.

Faço das ilusões que tanto são criticadas nos livros que andei lendo uma única válvula de escape, a esperança de disfarçar com minha imaginação ou não sei se é mentir para mim mesmo.
Seria a mentira uma aliada da imaginação? Ah, isso fica para depois!

O cansaço tomou conta, e no refugio dos meus lençóis não consigo molhá-los com lágrimas.
Talvez tenha ficado insensível e sem sentimentos depois de tantas atrocidades, que absorvi de forma barata nos programas de TV, jornais, novelas, filmes importados e piadas sem graça sobre aquilo que não domino ou sobre o meu corpo, que já não é tão belo ou nunca foi adequado.

Talvez já tenha me tornando o Monstro. Elucubrar sobre o Monstro e sobre os amaldiçoados que vivem em lugares escuros, úmidos e mal cheirosos. E eles lá procuram se esconder, se proteger da luz. Lá eles não podem ser vistos. Talvez se encontrar um, ele te devore, mais por medo de você do que por ser terrível de fato. Lugar dos rejeitados, excluídos e acusados. E com o passar do tempo, se tornam horripilantes, se tornam lares, casinhas bem bonitas e elegantes.

- Quando a jovem moça loira vier, não vai me reconhecer. Talvez fuja ou grite, e talvez assim possa protegê-la de mim mesmo.

O monstro se esconde nas profundezas para proteger os que ama dele mesmo.
Elucubrações.
Rafão Miranda é escritor e poeta.



Arte digital de Carlos Zemel.
Arte digital de Carlos Zemel.
21/07/2014 - 14:54
  RSS  
OSSOS DO OFÍCIO, o novo livro de crônicas organizado pelo escritor e editor Anthony Leahy será lançado em 29 de julho/2014, a partir das 19 horas, no Palacete dos Leões, Av. João Gualberto, 530, Alto da Glória.



Participam do livro "Ossos do Ofício" os escritores: Anthony Leahy – Helio Puglielli - Neyd Montingelli - Arriete Rangel de Abreu - Jocelino Freitas - Luciana do Rocio Mallon - Franco Rovedo - Ubiratan Lustosa - Rui Cavalin Pinto - Acione Pra – Marilena Wolf De Mello Braga.


Marilena Wolf De Mello Braga,  Neyd Montingelli e Franco G. Rovedo participam da coletânea de crônicas.
Marilena Wolf De Mello Braga, Neyd Montingelli e Franco G. Rovedo participam da coletânea de crônicas.


No mesmo evento será lançado o livro de poemas GUARATUBANAS, de Felix Coronel, além de mais um volume de "DIÁLOGOS (IM)PERTINENTES".

No evento Anthony Leahy ministrará uma micro-palestra sobre Mercado Editorial com a participação de Marcos Cordiolli, presidente da Fundação Cultural de Curitiba.


No evento do mês de junho, o artista plástico e curador Carlos Zemek recebeu Certificado de Honra ao Mérito pelo seu excelente trabalho em prol das Artes Plásticas. Na foto, Carlos Zemek com Anthony Leahy e o poeta e cronista Jocelino Freitas.
21/07/2014 - 09:25
  RSS  
A letra "A" do teclado do meu computador está quase apagada... Olho para ela, e penso em quantos trabalhos já fizemos juntas, quantas poesias e temas escrevemos? Difícil escrever sem a letra "A" difícil, mas não impossível.

Assim como é um desafio escrever sem tema, mas em linhas afiadas, linhas nas quais as palavras equilibram-se, cortam ideias, dividem pensamentos, envolvem os leitores em redes transparentes, porém intensas de letras, frases, reticências e interrogações.

Quando penso em afiadas lembro-me das garras da águia que cortam o céu e
buscam sua presa, e ainda das facas guardadas num antigo faqueiro, do diamante que corta e brilha... e da primeira letra das palavras: amor, amizade, ausência, angústia, que suavizam-se com a presença das flores amarílis e amor-perfeito...

Vanice Ferreira é poeta e professora.

20/07/2014 - 16:49
  RSS  
As mãos se avermelharam.
Tinta em excesso na cartolina.
Sangue inocente.
Sofre o oriente.
Paz para a Palestina.

Ivan Anzuategui

Ivan Anzautegui - jornalista e artista, realizou mostra no Centro de Criatividade do Parque São Lourenço, em Curitiba.

20/07/2014 - 09:38
  RSS  
O escritor, psicanalista e educador mineiro Rubem Alves nasceu em 15 de setembro de 1933, e morreu hoje, 19 de julho de 2014. Ele morava na cidade de Campinas, onde mantinha o Instituto Rubem Alves – uma associação aberta, sem fins lucrativos e de interesse publico, fundada pelo escritor e sua família. Seu trabalho educativo foi muito importante e seus livros de crônicas, ensaios e contos, foram traduzidos para outros idiomas: inglês, francês, italiano, espanhol, alemão e romeno.



Rubem Alves teve mais de 160 títulos publicados, também amava a poesia e fazia parte de um grupo que se reunia semanalmente para ler poemas.

Ele dizia que existem escolas que são gaiolas e escolas que são asas. As escolas que são asas não ensinam a voar porque o vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Essa teoria educativa tem relação com o pensamento de Friedrich Froebel, criador dos jardins da infância. Froebel defendeu o verdadeiro sentido de educação, palavra que tem sua etimologia na palavra latina "ducere" tem o sentido de "levar ou conduzir", associado aex ("fora") indica que educar é conduzir e não domesticar. Impor regras é domesticar, o verdadeiro sentido de educar seria permitir a expressão das capacidades da criança.

Um texto publicado no jornal "Folha de São Paulo", Caderno "Sinapse", em 12-10-03 - fls 3, no qual Rubem Alves fala da morte, é comovente e convida à reflexão.

Transcrevemos o último parágrafo: "Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo."

19/07/2014 - 14:53
  RSS  
Fotografia: Isabel Furini
Fotografia: Isabel Furini

no soltava alaridos
nem se confundia com os outros anjos
- ele era único
(estranho)
como um pequeno Lúcifer abandonado
entre os escombros daquele casarão antigo.

os operários levaram alguns quadros
mas o anjo
ficou deitado no jardim junto à uma fonte
e a fonte cantava para ele
quando o sol poente o iluminava com seus raios de ouro.

e ninguém sabia
mas conversava com o céu e com a fonte melodiosa
o anjo abandonado.

Poema de Isabel Furini
17/07/2014 - 18:48
  RSS  
Aconteceu na última terça-feira, 15 de julho, na Fundação Mokiti Okada (ao lado do Museu Oscar Niemeyer) a nova exposição "Minhas Cores" da artista plástica, colunista cultural, curadora e professora de arte Katia Velo.

Katia Velo, foi prestigiada com a presença da filha e da colunista Yumi Okamura.
Katia Velo, foi prestigiada com a presença da filha e da colunista Yumi Okamura.

A artista recebeu amigos e admiradores. A exposição conta com quadros esplêndidos, especialmente pelo trabalho das cores - sempre vibrantes.

Contemplando os quadros lembrei de uma frase de um texto de Cecília Meireles cujo título é "Primavera".

Cecília escreveu: "E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor."

Pensei que esse conceito pode também ajudar a definir a pintura de Katia Velo,pois enquanto os quadros monocromáticos dão ideia de outono ou de inverno, os quadros de Katia Velo trazem à primavera. Flores, pássaros, borboletas, arabescos - mundos coloridos ao alcance da mão. A alegria e o poder da cor em cada quadro.

De acordo com a artista, vários artistas a influenciam, alguns deles Matisse (pelo uso das cores), Aldemir Martins (pelo uso das cores puras e primárias), Beatriz Milhazes (pela feminilidade), Frida Kahlo (pelo envolvimento pessoal).

A exposição continua aberta para visitação. Vale a pena conferir.

Katia Velo e Osmar Carboni, diretor da APAP.
Katia Velo e Osmar Carboni, diretor da APAP.
Katia Velo ladeada por Rosemeri Franceschi e Sirlei Espíndola.
Katia Velo ladeada por Rosemeri Franceschi e Sirlei Espíndola.
15/07/2014 - 17:55
  RSS  
Ao ver uma grande cobra
o ébrio, muito assustado,
gritou: Sou recém casado!
Por favor, morda essa sombra.

Trova de Isabel Furini



Quadro Bebados de José Malhoas.
13/07/2014 - 10:24
  RSS  
Em agosto ministrarei mais uma oficina "Como Escrever Livros" no Solar do Rosário, Curitiba, fone (41) 3225-6232.

Nessa oficina estudamos técnicas para escrever contos e romances. Sabemos que ninguém ensina a escrever ficção, mas damos algumas técnicas que podem ser empregadas para aprimorar os próprios trabalhos.

O trabalho do escritor é resultado da inspiração e da transpiração como já foi falado. Ou seja, além de inspiração é preciso trabalhar o texto.

O romance por um ser texto longo exige concentração para não mudar informações sobre personagens e ambientes. Por exemplo, se Maria é tia do Alexandre no primeiro capítulo, não pode aparecer como tia ou avó desse mesmo personagem em outro capítulo, exceto em casos muito especiais e com uma explicação verossímil.

Outro problema grave é escrever frases ambíguas, que podem desnortear o leitor.

Outro elemento que prejudica o texto (e é comum nos iniciantes) é querer esclarecer tudo. Falar demais, tornar o narrador verboso e chato. Temos que pensar que os leitores são pessoas inteligentes. Eles são capazes de ler e entender. O autor não precisa descrever uma cena e depois repetir os detalhes temendo que o leitor não tenha compreendido o texto.

A narratologia moderna passa as informações e deixa o leitor entender e intuir segundo a sua visão. Não tenta impor uma leitura. Essa imposição de um ponto de vista limita a imaginação do leitor.

A polifonia de vozes, os diferentes discursos dos personagens, podem despertar imagens e ideias diferentes nos leitores, mas o autor não precisa indicar o caminho que o leitor deve percorrer. É preciso dar liberdade. Como dizia Jorge Luis Borges "O conto sempre é maior que o contista".

O narrador precisa de subtileza, de linguagem poética, precisa encontrar novos caminhos para escrever um conto ou um romance. E esses novos caminhos exigem tempo, experimentação. Por isso, o caminho do escritor é de constante trabalho e aprimoramento. Mas, como já falaram muitos escritores consagrados, escrever é como respirar. E o escritor precisa escrever para continuar vivendo.

A oficina como Escrever e Publicar Livros iniciará na primeira semana de agosto, no Solar do Rosário. A duração é de quatro meses, uma vez na semana, com estudos e exercícios práticos.

Isabel Furini é escritora, poeta e educadora - e-mail: isabelfurini@hotmail.com

11/07/2014 - 09:04
  RSS  
Confissões de Anthony Leahy - editor de livros e escritor

Minha natureza e meu temperamento se misturam e se confundem com a minha escolha profissional. Sou nervoso, brigão, teimoso, inconformado, inconsequente, irresponsável, insatisfeito, inconveniente, imprevisível, incorrigivelmente apaixonado e idealista. Tem que ter uma alta dose de irresponsabilidade e inconsequência para resistir ao canto da sereia do mercado e continuar lutando e acreditando.. Principalmente em uma sociedade que paga fortunas por celulares e acha livro sempre muito caro. Uma sociedade em que os jovens estão escolhendo a sua profissão, não por vocação, mas por ambição e as pessoas valem pelo carro que possuem e não pelo caráter...

Sou movido a paixões e acredito que ser idealista é o que nos torna animais superiores (embora tantos abram mão desta superioridade, em um mundo cada vez mais egoísta e imediatista, onde o que vale é "se dar bem").

OU SEJA, SOU UM EDITOR!



Sei que existem muitos – e cada vez surge mais – "editores", ou melhor, "fazedores de livros", que entendem e enxergam o livro como uma mera mercadoria, tanto fazendo a sua mensagem e proposta. Como escutei de um "editor bem $ucedido": "livro bom é livro que vende, não importa se é uma apologia à prostituição ou se é a biografia de um grande líder". Mas, para mim, ser editor é acreditar que podemos mudar o mundo (ou morrer tentando). É não calar-se diante de injustiças e nunca deixar de acreditar no ser-humano. É não ser um cúmplice omisso e covarde da opressão. É lutar pelo certo, e não somente pelo que dá certo. É ser um defensor incansável do direito ao contraditório e da pluralidade, dando vez e voz a todos.

É pouco profissional dirão alguns (ou até muitos). Meus referenciais são os editores do porte, postura e atitude do: José Olympio, Garnier, Laemmert, Caio Prado Junior, Conselheiro Saraiva, Ênio Silveira ... EDITORES MAIORES DO QUE SUAS EDITORAS, VISTO QUE ELES ERAM A ALMA DA EDITORA! Hoje vivemos momentos de imparcialidade, frieza e descompromisso, onde a maioria absoluta dos autores sequer chegam a conhecer aos seus "editores". SE É ISTO QUE É SER PROFISSIONAL, CONFESSO-ME AMADOR, OU SEJA, FAÇO PORQUE AMO E ACREDITO! Os processos de produção da minha editora são profissionais e representa o que existe de mais moderno em tecnologia de impressão digital, mas meu relacionamento com os autores é, e sempre será, à moda antiga: personalizado!

Anthony Leahy é editor do Instituto Memória.
Contato: editora@institutomemoria.com.br
Alguns dos autores do Instituto Memória
Alguns dos autores do Instituto Memória



< 1 | 2 | 3 | 4 | 5 >
Isabel Furini
 
Isabel Furini, escritora e educadora. Recebeu prêmios em concursos de poesia e de contos. Publicou 15 livros, entre eles: Mensagens das Flores e Ele e outros contos. Também escreve para o público infanto-juvenil. É autora da coleção "Corujinha e os Filósofos" da Editora Bolsa Nacional do Livro de Curitiba.



ARQUIVO
Mês
Ano
PUBLICIDADE