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Economia
24/05/2010 -- 08h24

Doces tradicionais resistem ao tempo

Arapongas chegou a ter mais de 30 empresas de guloseimas entre as décadas de 1980 e 1990

Gisele Mendonça - Equipe Folha
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Gina Marcondes - Equipe Folha
Manoel de Ornellas e Anna Maria Tozatto comandam uma fábrica de pipoca doce: produto artesanal tem clientela cativa
Gina Marcondes - Equipe Folha
Francisco de Oliveira, que vende doces para bares: ‘O doce tradicional nunca vai morrer’

Uma simples e ‘‘fantástica’’ fábrica de pipoca doce, onde o milho canjicão explode a cada quinze minutos dentro dos canhões assim como era há 30 anos. A poucos metros dali, uma grande empresa de 40 anos faz questão de manter em sua produção guloseimas como maria-mole, pé de moleque, suspiro cor-de-rosa e por aí afora. Os dois empreendimentos mostram que a tradição dos doces que marcaram a infância de muita gente mantém-se viva em Arapongas.

O segmento já teve maior importância econômica na cidade - que chegou a contar com mais de 30 empresas de guloseimas entre as décadas de 1980 e 1990. Hoje, as grandes voltaram-se para balas e biscoitos, e algumas pequenas ainda resistem na produção praticamente caseira de doces tradicionais. Entre estas está a Pipocas Brasinha, chefiada pelo casal Manoel Augusto de Ornellas e Anna Maria Tozatto com a ajuda dos filhos Mariana, 23 anos, e Henrique, 21.

Sem funcionários, os quatro tocam a fábrica exatamente como tudo começou. ‘‘O negócio é pré-histórico’’, avisa Ornellas, antes de levar a equipe de reportagem para o barracão de 300 metros quadrados que fica na frente da casa da família em um bairro de Arapongas. Sobre um mezanino improvisado, Henrique recomenda: ‘‘Tape os ouvidos que vai explodir’’.

Ele opera dois canhões - nome dado para as máquinas de estourar pipoca -, onde são colocados os grãos de milho canjicão (específico para este tipo de pipoca) que, literalmente, explodem depois de uns 15 minutos de pressão sobre o fogo. Ao contrário da pipoca de panela, o estampido é um só - e muito alto. Tanto que Henrique só trabalha com protetor de ouvido.

Dali, as pipocas descem por uma espécie de funil gigante. São peneiradas, selecionadas e vão para a drajadeira - máquina que lembra uma betoneira -, onde são torradas e açucaradas. O processo dura umas três horas. Depois, são embaladas e seguem para o comércio. O produto chega a estabelecimentos comerciais num raio de 150 quilômetros de Arapongas. Ornellas vai pessoalmente atender aos pedidos dos clientes - todos considerados cativos. ‘‘Hoje tenho um produto de excelente qualidade com preço acima da média e valorizado por clientes de 20 anos’’, orgulha-se.

Mas nem sempre foi assim. Em 1981, a família entrou no ramo por necessidade e, sem experiência, nos primeiros anos fez uma pipoca de qualidade inferior, com o menor preço do mercado. ‘‘A pipoca era tão horrorosa que nunca vendíamos a segunda vez no mesmo lugar’’, relembra Ornellas. Quando surgiu no mercado a pipoca torrada e açucarada, a família pegou como referência a melhor marca da praça e tentou fazer igual. O resultado ficou acima do esperado. O mérito é de Anna Maria, que demorou dois anos para aprimorar a receita. Foi o pulo do gato do negócio - e o que o mantém até hoje.

‘‘Se ela (Anna Maria) não estiver aqui torrando e caramelizando não tem mais pipoca’’, defende Ornellas. ‘‘É só colocar a quantidade certa de açúcar, não tem segredo’’, descomplica Anna Maria. O fato é que a pipoca ganhou fama e melhorou muito a vida da família. Entre as décadas de 1980 e 1990, a fábrica chegou a produzir 700 fardos de 50 saquinhos de 15 gramas por dia. O Dia de São Cosme e São Damião (27 de setembro, dia em que algumas pessoas mantêm a tradição de presentear crianças com doces) já foi uma data importante para alavancar as vendas, mas hoje o melhor momento é o clima frio.

Apesar de manter o processo artesanal, a embalagem foi modernizada: a mais vendida é de tamanho parecido com o dos pacotes de salgadinho (200 gramas). Quanto ao futuro do negócio, eles já decidiram: a fábrica será mantida até quando a própria família quiser tocar. Mas os filhos não mostram interesse em continuar a saga dos pais. Mariana e Henrique cursam Direito e pretendem seguir carreira - há outros dois filhos que são casados e moram fora. ‘‘É muito trabalhoso e cansativo (fazer pipoca). Mas se um dia eu passar por alguma necessidade, é para a fábrica que vou recorrer’’, planeja Mariana.

Ornellas e Anna Maria reconhecem que hoje levam o negócio em banho-maria. E não estão preocupados. ‘‘Eu sonhava comprar uma moto (custom, para viajar a lazer) e a pipoca me deu muito mais que isso. Hoje, a fábrica para nós é saúde. Paramos para tomar café da tarde juntos e ganhamos o suficiente para sermos felizes’’, resume o microempresário, sem revelar a renda e a produção.

Guloseimas com tecnologia

Maria-mole, pé de moleque, paçoquinha, creme de amendoim, suspirão cor-de-rosa, canudo com bexiga, doce de banana no copinho... Quem não se lembra de pelo menos uma vez ter experimentado uma dessas guloseimas quando criança? Apesar do crescimento da indústria dos chocolates, chicletes e balas, tais produtos ainda têm espaço no mercado.

''Os doces resistem porque são tradição e a tecnologia os faz cada vez mais gostosos e cremosos. O adulto revive as lembranças de infância e quem é criança atualmente também acaba descobrindo esse prazer'', diz Maria de Fátima Fernandes Cassitas, diretora de Recursos Humanos da Prodasa, em Arapongas. A empresa surgiu há 40 anos com foco nos doces e hoje tem como carro-chefe os biscoitos, além de fabricar balas e macarrão. Apesar de representar apenas 8% de tudo o que a unidade fabrica, as guloseimas ainda devem resistir por muito tempo. ''O fortalecimento da nossa produção de biscoito faz com que possamos manter os doces. Não temos interesse em acabar com eles'', justifica.

As guloseimas são as mesmas de antigamente, porém com qualidade superior. O processo manual quase não existe mais. Grande parte da produção é automatizada e os cuidados com a segurança alimentar são rigorosos. Se antes a bexiga saltava aos olhos no canudo de maria-mole, hoje o brinquedo vem acondicionado em saco plástico separado do doce.

A apresentação também evoluiu. O creme de amendoim (aquele doce que mistura salgado e esfarela na boca), por exemplo, sai da fábrica em embalagem de oito ou de 50 unidades. Outras opções como a maria-mole também seguem a tendência com objetivo de facilitar a venda nos supermercados para quem quer levar menor ou maior quantidade. Com a mesma proposta, surgiu o doce mix, que traz num único pacote pé-de-moleque, paçoca e foundant de leite.

Já o suspirão cor-de-rosa continua firme no mercado, porém, com nova roupagem. A empresa criou a versão bicolor (rosa claro e rosa escuro), que caiu no gosto popular. Enquanto se produz hoje duas mil caixas por dia do bicolor, a versão antiga (de uma cor só) fica com 200 ou 300 caixas por semana. Outra novidade é que a massa do suspiro agora é aerada. ''Com as novas tecnologias empregadas, os doces foram ficando cada vez mais gostosos. No geral, são mais cremosos que antigamente'', repara Maria de Fátima.

Com logística própria, a Prodasa vende os doces no atacado no estados do Sul e do Sudeste. Na unidade em Arapongas, mantém um espaço destinado a atender compradores da região, oferecendo também produtos de outros fabricantes. Muitos são os chamados ''kombeiros'', que enchem o veículo de doce para vender em bares, pequenos mercados e padarias.

Francisco de Oliveira, conhecido como Chico Doceiro, é um deles. Morador de Sertanópolis, ele trabalha há mais 30 anos no setor. ''É claro que as vendas caíram muito com as novidades dos chocolates e chicletes. Mas o doce tradicional nunca vai morrer'', constata. ''A não ser que parem de fazer criança no mundo'', brinca ele, que vende duas kombis cheias por semana
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