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19/06/2017 14:57

A Psicologia dos Deuses

A PSICOLOGIA DOS DEUSES
"Mortos estão todos os deuses; agora queremos que o além do homem viva!" – Nietzsche em Assim Falou Zaratustra

Há muito que o filósofo Friedrich Nietzsche proclamou que Deus está morto. E muitos dados mitológicos corroboram sua fala.


I - A HISTÓRIA CONTADA EM MITOS

Já do século XIII, chega a nós através da mitologia nórdica, também chamada de mitologia viking ou escandinava, o portentoso Ragnarök, que em português significa o destino dos deuses. Ragnarök é um evento importante no cânone nórdico sendo objeto de estudos acadêmicos e teóricos.

Nesse evento os deuses que viviam na terra, enfrentam o fim de tudo e um a um os deuses caem diante do gigante Surt que já existia antes dos deuses e que carrega uma espada flamejante.

Surt que vivia onde a terra terminava, onde a névoa se transformava em luz, abandona seu posto espalhando o fogo pelo mundo em meio à batalha dos deuses contra os gigantes do gelo exterminando a todos e a tudo.

Contudo, o fogo de Surt não alcança a Árvore do Mundo, Yggdrasil, e dois mortais se escondem em segurança no interior de seu tronco. A mulher se chama Vida e o homem se chama Desejo de Viver.

Enquanto isso os celtas também mantem seus deuses cujo conhecimento e sabedoria lhes são transmitidos através dos druidas.

Os celtas não deixaram nada por escrito, ironicamente, porém, sabemos de seus deuses através de seus conquistadores, os romanos.

Vejamos um pouco da lenda de Merlin, o druida mais famoso da história céltica.
Ao perceber que o mundo está em transformação e que o Cristianismo está ganhando poder, Merlin, engendra um plano onde conta com o rei Arthur para que esse possa fazer viver no reino as duas coisas, o paganismo e o cristianismo.

Contudo, isso não acontece. E Fincayra, a terra que simboliza e carrega em si a sabedoria agora chamada pagã é separada do reino e escondida pelas brumas, um lugar entre o céu e a terra, bem como o druida Merlin que se retira completamente do mundo se deixando perpetrar numa rocha... Um dia, quem sabe, alguém, ou um povo, possa trazê-lo de volta da rocha assim como aconteceu com a espada Excalibur que, originalmente, foi retirada de uma pedra.

Na sequência, posto que a cultura forte da Grécia influenciasse a de Roma, os deuses de Roma e da Grécia antiga foram os mesmos, mudando apenas os nomes e ali ocorre um mito importante da ascensão dos deuses em que deixam a terra e se vão todos para o Olimpo, deixando para trás apenas o deus Dioniso, nascido da coxa de Zeus o deus dos deuses.
Dioniso, desde o início, não aceita viver na Polis preferindo ficar em meio ao povo nas ruas e na Terra.

O mito conta que após Ariadne oferecer o seu fio de ouro para Teseu descer ao labirinto, matar o Minotauro que assombrava o reino de seu pai e depois voltar por ele para não se perder como tantos outros que haviam tentado o grande feito, Teseu a abandonou na praia para se casar com sua irmã por quem se apaixonara.

Sentindo-se traída e abandonada, Ariadne chora na praia e é ali que Dioniso surge diante dela e diz: "Ariadne, eu sou o seu labirinto!".
Os deuses já estão todos no céu, Ariadne possui o fio de ouro que pode ir e voltar com segurança dos labirintos.

Dioniso que prefere permanecer na terra diz agora ser o seu labirinto e nesse instante Zeus se apieda de Ariadne e lhe concede a ambrosia, o alimento dos deuses, tornando-a também uma deusa e elevando-a aos céus do Olimpo.

Bem, se os deuses querem voltar a terra sua chance é utilizar o fio de Ariadne através do Dioniso-Labirinto, que é o deus Baco para os romanos, o deus do vinho, o deus das orgias, o deus das intensidades. Lembrando que as intensidades só podem ser vividas por aqueles que possuem um corpo, uma pele, ou seja, pelos humanos.

A sizígia, que significa união, que Dioniso faz é com o povo. Os demais deuses fazem suas sizígias com outros deuses. Nenhum outro deus representa o povo tanto quanto o deus Dioniso.
E temos que novamente aqui que os deuses desaparecem da terra.

Na mitologia cristã, Jesus Cristo, filho de Deus, desce a Terra para salvar os homens ensinando-lhes sobre o amor e a bondade. Morre na cruz cumprindo sua missão de tirar os pecados do mundo através de seu próprio sacrifício e depois de três dias se faz ressuscitado retornando aos céus cristão onde está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso aguardando o Juízo Final onde os humanos serão julgados, e o mal e o bem separados, presumindo que o bem irá herdar o reino de Deus e o mal será aniquilado para sempre no fogo do Inferno.

II - O LUGAR INTERMEDIÁRIO

Assim temos que em cada um dos mitos aqui resumidamente apresentados, encontramos algo particularmente em comum: há sempre a chance de um recomeço para os seres humanos. Um tempo que se foi, um tempo que se acabou, todavia, sempre se estabelece a possibilidade de um novo começo. Um novo modo de existência para os humanos e para os deuses.

No Ragnarök, os deuses passam para outro plano, não mais vivem na Terra, vivem então em Valhala para onde vão os guerreiros após sua morte, um lugar intermediário entre o céu e a Terra, um lugar sagrado e histórico.

Nesse mito um homem e uma mulher se salvam, ela se chama Vida e ele se chama Vontade de Viver.

No mito celta de Merlin, ele que representa a sabedoria dos druidas, a voz dos deuses, se encontra petrificado numa rocha. Por sua vez, a rocha representa o Self, o registro do inconsciente e da consciência de toda a humanidade. De modo que, o acesso a tal sabedoria está disponível para quem tem olhos para ver e para quem tem ouvidos para escutar.

Os deuses célticos foram morar nas brumas, em Fincayra, um lugar intermediário entre o céu e a Terra, um lugar tanto sagrado quanto histórico.

Já no mito de Dioniso, vemos que os deuses vivem no Olimpo, apenas Dioniso permanece na Terra e ele se torna o labirinto para o fio de Ariadne que foi elevada a condição de deusa por Zeus, morando também ela, no Olimpo, um lugar intermediário entre o céu e a Terra, um lugar que reúne em si mesmo o sagrado e o histórico.

No mito cristão de Jesus, que representa o amor universal e a benevolência, Ele está esperando os humanos ao lado do Pai no céu cristão, o Paraiso, um lugar intermediário, ao mesmo tempo sagrado e histórico.

III - O RESGATE PSICOLÓGICO – uma leitura

O lugar intermediário em termos psicológicos é aquele que não está consciente e nem totalmente inconsciente, como nos ensina Freud. Ele está na pré-consciência.

Os conteúdos do pré-consciente surgem com relativa facilidade posto que o grau de censura maior esteja entre o inconsciente e a consciência. Sendo aqui a censura mais rasa, os conteúdos podem surgir com maior facilidade.

Usualmente isso se dá através de histórias, de lendas, de mitos, de sonhos, de contos de fadas, de delírios, de fantasias e das artes em geral.

É assim que acontece porque a linguagem simbólica é a primeira linguagem que conquistamos tanto ontogenética quanto filogeneticamente.

Na evolução de nosso pensamento a nossa primeira conquista passou pelo pensamento através de imagens, esse chamado de pensamento primário, em que utilizávamos a imagem para expressar aquilo que víamos e entendíamos, daí que as primeiras civilizações não sabendo explicar pela razão ainda não conquistada aquilo que viam, deram ao raio a imagem de um deus, ao rio, as arvores, ao sol, a lua, as tempestades e assim por diante.

Nós criamos os deuses logo nas primeiras civilizações ainda sobre o comando de nosso pensamento primário.

Os processos primários são o modo de funcionamento do sistema inconsciente e os processos secundários referem-se ao sistema consciente e ao pré-consciente.

Em 1915, no texto O Inconsciente, quando Freud traz concepções mais refinadas em relação às características dos diferentes sistemas, afirma que os processos psíquicos do inconsciente apresentam características especiais, diferentes do sistema consciente.

Essas características especiais a que se refere estão estritamente relacionadas aos instintos e as suas pulsões.

O pensamento do indivíduo se dá de modo não racional, o que significa que se faz de maneira primária, ou seja, por ideias ainda imbricadas na imagem e não por ideias já raciocinadas e, portanto, livre das pulsões e de seu conteúdo simbólico.

É exatamente devido a esses processos primários que o Dr. Carl Gustav Jung incluiu como um instinto humano a espiritualidade tal e qual a outros instintos básicos como o da procriação e o da sobrevivência.

Somente mais tarde, por volta do século primeiro depois de Cristo, é que se inicia a nossa conquista do pensamento secundário, ao qual a razão é introduzida em nossa maneira de pensar e existir.

A partir daí, já não precisamos mais dar uma imagem às coisas para pensar sobre elas, precisamos apenas da reflexão intelectiva e conceitual.

O processo secundário inclui o raciocínio, inclui a crítica racional que acaba esvaziando da ideia a conotação mágica e transcendental que ora tivera no processo primário.

E foi desse modo que os deuses já não tiveram mais lugar aqui na Terra.
Entretanto, foram parar no pré-consciente, instância psíquica na qual fica armazenado o conhecimento e as memórias.

Enquanto vivíamos apenas no pensamento primário, ainda éramos mais instintuais, projetávamos nossas pulsões em forma de imagens e criávamos os deuses, os espíritos bons e os malignos.

Ao adquirirmos o pensamento secundário, passamos a viver de modo mais racional em detrimento do instintual.

Pensemos num pêndulo para explicar essa questão. Quando soltamos um pêndulo ele tende a ir de uma extremidade a outra e com o tempo ele vai se aquietando até chegar ao ponto de seu meio termo.

Parece que assim é com o nosso aprendizado do pensamento. Estávamos nós no extremo de um pensamento, o pensamento primário, e agora chegamos ao seu extremo oposto, o pensamento secundário, o que acabou por originar a doença da razão devido ao extremismo.

Os deuses ainda podem nos guiar nessa senda para encontrarmos a composição entre o pensamento primário e o pensamento secundário, criando assim a razão sensibilizada pelos instintos e a cura da doença da razão.

Tomemos como exemplo os deuses e as deusas gregas. Que fio de Ariadne nos conduza!

SIGNIFICADO DOS DEUSES PARA O PENSAMENTO PRIMÁRIO

Zeus - Era a abóboda celeste de onde partiam os raios e os trovões causando incêndios e
fogos que vinham diretamente dos céus.

Poseidon - Eram as águas do mar que sacudiam a terra e causavam enchentes e maremotos.

Hades - Representava o reino depois da morte. O mundo inferior que podia dominar os
vivos.

Apolo - Representava o Sol. O grande pavor era de que não voltasse a surgir no dia
seguinte.

Hermes - Representante do poder de trapacear e de negociar com todos os deuses e humanos.

Ares - O poder da guerra. Deus condutor de vitórias através do espírito guerreiro.

Hefesto - Representava o deus que morava dentro do vulcão. Suas explosões e sua lava eram
sua ira e também seu material de trabalho, pois ele era também o deus da forja.

Dioniso - Deus do vinho. Representava o deus que surgia juntamente com o êxtase nas
orgias.

SIGNIFICADO DOS DEUSES PARA O PENSAMENTO SECUNDÁRIO

Zeus - Instinto de poder. De liderar, de governar, de ser possuidor.

Poseidon - Os aspectos emocionais instintuais que podem causar rompantes de grandes
extravasamentos.

Hades - Energia psíquica inconsciente e conteúdos autônomos da psique.

Apolo - Consciência. O aspecto racional da psique. Assertividade e ordem.

Hermes - Sagacidade, criatividade, jovialidade, curiosidade. Aspectos instintivos de
sobrevivência, rapidez e agilidade.

Ares - Instinto de sobrevivência que põe a raiva como defesa tanto para construção
quanto para destruição.

Hefesto - Instinto criativo, de engenhosidade e de estratégias inventivas.

Dioniso - O Instinto do prazer. Intensidade e êxtase pela vida.

E assim se sucede com as deusas:

SIGNIFICADO DAS DEUSAS PARA O PENSAMENTO PRIMÁRIO

Ártemis - Deusa da lua e da caça e também do parto.

Atenas - Deusa da inteligência e das artes.

Héstia - Deusa da lareira, da casa e do Templo.

Hera - Deusa do Casamento.

Deméter - Deusa do Cereal, da boa colheita e da fertilidade.

Perséfone -Rainha e guia no inferno.

Afrodite - Deusa do amor e da beleza.

SIGNIFICADO DAS DEUSAS PARA O PENSAMENTO SECUNDÁRIO

Ártemis - Instinto de combatividade. Instinto de proteção, cumplicidade e irmandade entre as
mulheres. Domínio da mente em foco, pensamento direto, assertividade e metas.

Atenas - Capacidade intelectual e estrategista. Amante da tecnologia, das ciências e das artes.

Héstia - Capacidade para o amor maduro e duradouro. Independência Afetiva.

Hera - Instinto gregário. Comprometimento e estabilidade nas relações e compromissos.

Deméter - Instinto materno que deseja cuidar e manter em segurança a vida que existe.
Instinto de benevolência e magnanimidade para com toda a criação.

Perséfone - Representa a sabedoria instintiva e criativa da vida por reconhecer e conviver com
o reconhecimento instintual sobre a finitude e a efemeridade da própria existência.

Afrodite - Representa o instinto de perceber o amor em toda sua diversidade, bem como o de
potencializar a beleza que há nos seres e na natureza.

IV - SÉCULO XXI–MOMENTO DE TRANSIÇÃO OU DE DESTRUIÇÃO

Esse é o tempo em que vivemos agora e aqui no século XXI. O tempo em que a ciência, através da evidenciação, comprova o que a razão sensibilizada pelos instintos nos instrui: os deuses, todos eles, inclusive os que hoje ainda são venerados e objeto de disputas e guerras, nada mais são do que arquétipos, construções humanas, conteúdo da psique humana que fora projetado numa imagem num tempo em que somente o pensamento primário existia.

Se mantem até os dias atuais devido a obsessão religiosa e a obsessão ideológica, caso contrário, a evidência a partir do método socrático já teria banido de nosso meio essa doença coletiva que aliada a política vigente, vem causando conflitos, dor, misérias e guerras por centenas de anos sem que tenhamos esperança de que se acabe.

Em pleno século XXI estamos assistindo a fundamentalismos que destroem e matam em nome de seu deus partidário.

Se por um lado temos Freud que nos trouxe a sabedoria quanto ao desenvolvimento do pensamento humano, por outro temos Carl Gustav Jung que foi até mais incisivo em suas descobertas e conceitos sobre o mesmo tema. Disse ele:

"Eu pessoalmente, tive a grande vantagem em relação a Freud e Adler, de que a minha formação não veio da psicologia das neuroses e suas unilateralidades. Vim da psiquiatria, bem preparado por Nietzsche, para a psicologia moderna". (JUNG) in A Natureza da Psique

O seu conceito de arquétipo, que significa, em última instancia, o pensamento ou a ideia matriz que vem sendo replicada através dos tempos. Ou seja, de modo simplista, o arquétipo é um tipo antigo, uma forma pensamento que se repete nas civilizações e comportamentos humanos.

Ao cunhar o conceito de arquétipo Jung, demonstra que este é um acontecimento e uma construção humana, pois o arquétipo em si mesmo não tem nenhum conteúdo, no entanto, ele é preenchido por imagens produzidas e compartilhadas pelos seres humanos.

De modo que quando Jung diz "Eu não acredito em Deus, mas sei que ele existe", significa que ele, Jung, não crê em deus, mas sabe que deus é uma construção humana e, portanto, uma matriz de pensamento, um arquétipo.

Trabalhando diretamente com pacientes da Clínica Psiquiátrica Burgholzli em Zurique, rotineiramente Jung se dava conta de que esses pacientes possuíam a clara tendência a devanear e delirar com o arquétipo de deus, inclusive, em sua maioria, o surto psicótico eclodia (e eclode) quando de uma experiência divina.

Essa proximidade entre doenças psíquicas e experiências do divino mantem sua correlação até os dias atuais, basta uma visita a um centro psiquiátrico para perceber que o arquétipo do divino está concretamente presente.

Nas neuroses não é muito diferente disso, o arquétipo do divino se mantem sempre presente também, apenas não ocorre uma dissolução da personalidade, o ego se mantem e em "segredo" ou em segundo plano há a crença de que se é um ser especial e divino, uma semente de um ser espiritual e superior que será descoberto em breve e logo ritualisticamente consagrado.

Enfim, não creio em bruxas, fadas, duendes e nem em unicórnios cor-de-rosa, mas que eles existem e fazem terapias alternativas por aí afora, fazem sim e como acreditam piamente ser superior não há chance de reconhecer que suas terapias causam danos e sequelas psíquicas graves em seus discípulos, quero dizer, em seus "pacientes".

Cabe aqui um alerta: terapias que falam ou que mostram uma imagem de regressão criam falsas lembranças que podem ser fatais para sua saúde psíquica e, usualmente, para com as pessoas ao seu redor.

É devido a esses fatos psíquicos reconhecidos pelo Dr. Carl Gustav Jung, que hoje se inclui junto aos instintos a espiritualidade.

O instinto espiritual pode ser altamente eficaz e saudável desde que utilizado como sensibilidade dada pelos sentidos e atrelada à razão. No entanto, tem sido altamente corrosivo e perverso quando utilizado como sendo algo proveniente de alguma divindade.
E é por isso que Jung alerta:

*"É indispensável que em cada indivíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior, que se dissolva o que existe e se faça uma renovação, sem impô-la ao próximo sob o manto farisaico do amor cristão ou do senso da responsabilidade social – ou o que quer que seja para disfarçar as necessidades pessoais e inconscientes de poder." C.G.Jung"

Outro conceito importante para estabelecer a psicologia dos deuses, é o conceito de complexo autônomo da psique.

"É nos sonhos, nas visões e nas alucinações patológicas e nas ideias delirantes onde mais claramente se destacam os complexos autônomos da psique. Como o eu não tem consciência deles, lhe são estranhos, por isso aparecem primeiramente como forma projetada". (JUNG)

Nestes três tipos de fenômenos há algo em comum: conteúdos psíquicos que possuem sua própria autonomia.

A psique não é uma unidade indivisível, mas um todo divisível e mais ou menos dividido.
"Embora as partes separadas estejam ligadas, entre si, são relativamente independentes, a tal ponto que certas partes jamais aparecem associadas ao eu, ou se lhes associam apenas raramente. A essas partes da psique chamei de complexos autônomos". (JUNG)

O complexo do eu é apenas um dentre vários complexos. Mais tarde, Jung os chamou também de personalidades parciais.

A proposta é se diferenciar do inconsciente, não através da repressão ou negação, mas "colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si". - (Jung em a Natureza da Psique).

Aprender a distinguir o eu da psique coletiva, redireciona a energia antes inaproveitável e patológica, em prol dos sentidos e da manifestação de sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana. A esse processo Jung chamou de individuação). *

Resumidamente Carl Gustav Jung explica:
"Sob o ponto de vista psicológico, os espíritos são, portanto, complexos inconscientes autônomos que aparecem em forma de projeção, porque em geral, não apresentam nenhuma associação direta com o eu". (JUNG)

ESPIRITUALIDADE É INSTINTIVA

Onde quer que se reúna um grupo, logo criarão um ou mais deuses. Essa constatação é plenamente verificável através dos estudos sobre as civilizações.

Embora os animais sejam sencientes, ou seja, possuam a capacidade de sentir sensações e sentimentos, bem como de perceber conscientemente o que lhe acontece e daquilo que o rodeia, não possuem o instinto da razão. Funcionam dentro do princípio e sistema primário no qual os instintos e pulsões formam a base de sua percepção e senciência.

Os seres humanos possuem a mesma base instintual somada ao instinto racional.

A razão não sente e nem percebe. É através dos instintos que ocorre a percepção e os sentimentos como o afeto, o carinho, a raiva, o medo, etc. A razão não possui tal capacidade, ela é responsável por nominar e codificar o que foi sentido pelos instintos. Através da razão é que sabemos identificar o objeto percebido e o sentimento evocado.

A educação que já se inicia no berço e ela se encarrega de castrar todas as pulsões instintuais, sobretudo de extinguir o comportamento relacionado aos instintos.

Comumente o sujeito que passou pelo sistema de educação cultural, não mais se sente capaz de perceber seus sentimentos e percepções instintivas após o tremendo condicionamento a que, sem escolha, se submeteu através da culturalização e domesticação de seus instintos que não deveria ser negado e tão somente reflexionado de maneira racional e consciente para que o próprio indivíduo tivesse a oportunidade de conter seus instintos, característica do criticismo racional que não possui qualquer orientação para ser devidamente exercido posto que o condicionamento dos instintos se faça de modo autoritário e sem raciocínio.

Em última instância, nosso lado animal, nosso lado selvagem, foi castrado a ponto do ego não mais possuir conexão consciente com ele.

Com os instintos inconscientes temos dois caminhos a seguir: tornamo-nos apaticamente vulneráveis a qualquer das imposições religiosas e ou ideológicas ou somos "possuídos" pelos instintos. Numa terceira via, ocorrem os dois em conjunto e é esse o momento de sua apropriação para que a Terra e os seus habitantes possam alcançar um novo patamar de existência saudável.

A opção binária é a razão da obediência passiva e desarrazoada frente a qualquer figura de autoridade. No holocausto muitos obedeceram a ordens superiores para matar e ou para torturar, impondo um grande sofrimento ao outro, muito embora pudessem ter solidariedade, não conseguiam parar seu condicionamento em obedecer a uma autoridade mesmo ao prejudicar pessoas.

A distância entre instintos e razão é a base de todas as doenças psíquicas. Dentro do espectro de doenças mentais as mais brandas, e por isso mais proximidade entre razão e instintividade, estão as diversas neuroses e a mais distante, inclusive com a supressão dos afetos que são instintuais, está toda ordem de psicopatia e sociopatia.

De modo que, o indivíduo psicologicamente mais fraco e mais doente é o sociopata e todo o espectro da psicopatia.

Infelizmente, devido a imensa imaturidade e narcisismo, há muitas pessoas desejando serem sociopatas e quiçá psicopata para deixar de "sofrer" e usarem sua inteligência apenas para o poder. No entanto, aquele que deixa de "sofrer" não apenas deixa de sofrer as amarguras, deixa de sofrer também as alegrias e muito mais do que isso, deixa de crescer como pessoa, pois não mais exerce sua potência frente as adversidades, permanecendo narcísico e imaturo, sem completar sua jornada para a maturidade psíquica e emocional.

A ordem desse novo tempo caótico e muitas vezes absurdo em que vivemos tanto economicamente quanto politicamente, requer que mais e mais indivíduos exerçam sua propriedade de razoabilizar, raciocinar de modo sensível, utilizando a razão e os instintos, sobretudo exercendo o seu poder de transformar o mundo dando a si mesmo a oportunidade de novamente fazer parte da Natureza e por amor a ela criar e gerar novos pensamentos e comportamentos de acordo com a realidade de que o planeta Terra é a nossa linda nave espacial e que deveríamos cuidar melhor de nosso lar e de todos que o habitam.

E não temos mais tempo, porque os recursos naturais da Terra estão sendo minados pela ganância própria dos sociopatas e dos psicopatas. Não vejo nenhum deus e nenhum representante de deus atuando de modo efetivo para cuidar e amar o planeta e todas as pessoas e todos os habitantes.

Se as palavras daqueles que são reverenciados como deuses fossem, de fato, exercidas pelos seus milhões e milhões de seguidores, não haveria mais guerra e nem ódio às diferenças.

Para concluir vou citar a frase do físico teórico Michio Kaku:

"A geração de hoje é talvez a mais importante geração de seres humanos a caminhar sobre a Terra. Ao contrário de gerações anteriores, temos em nossas mãos o destino do futuro de nossa espécie, quer nos alcemos a cumprir nossa promessa como uma civilização do tipo I ou desçamos ao abismo do caos, da poluição e da guerra. As decisões que tomarmos reverberarão por todo este século. A nossa solução para guerras globais, proliferação de armas nucleares e lutas sectárias e étnicas definirão ou destruirão os alicerces de uma civilização do tipo I."
― de "Mundos paralelos: Uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do cosmo".

Bibliografia consultada e recomendada:

BOLEN, Jean Shinoda – Os Deuses e o Homem - 2005
BOLEN, Jean Shinoda – As Deusas e a Mulher - 1990
BRANDÃO, Junito de Souza – Mitologia Grega – 1998
O Livro de Ouro da Mitologia - 2002
JUNG, C. G. – A Natureza da Psique - 1999
JUNG, C.G. – O Eu e o Inconsciente - 1984
JUNG, C. G. – Psicogênese das Doenças Mentais – 1980
JUNG, C.G. – Interpretação Psicológica do Dogma da Santíssima Trindade - 1988
NIETZSCHE, Friedrich W.– Assim Falou Zaratustra –Um livro Para Todos e Para Ninguém- 1977
FREUD, Sigmund – A Interpretação dos Sonhos - 2001
FREUD, Sigmund – Mal Estar da Civilização - 1930
*Trecho retirado do texto Da Gênese e dos Fundamentos Psicológicos da Crença nos Espíritos de Lunardon Vaz – 2001
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