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LIVROS JUVENIS E A ROMANTIZAÇÃO DO ABUSO

30 ago 2016 às 17:15
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Vez ou outra em minhas leituras, me pego presenciando umas coisas que me enoja, a romantização dos abusos. São livros que falam de amor verdadeiro, mas que em determinados momentos, algumas ações completamente descabidas acontecem. E o pior é que acontecem de forma romantizada.

Os livros são reflexões da realidade. Mas a que ponto essas historias influenciam a realidade? Historia sobre amantes que manipulam seu parceiro, agridem verbalmente e agem de forma não saudável, e exigem parceiras submissas e passivas, até que ponto influenciam a aceitação da violência a neutralização dessa violência na vida de todas as mulheres?

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São livros para mulheres escritas por mulheres. Onde muitas e mutias vezes romantizam ao extremo a violência e o assedio cometido pelos príncipes encantados. São namorados que as amam para sempre, mas que sente ciumes excessivo e age de forma extramente controladora. Controlando roupas que a mocinha irá vestir, com quem sai, com quem conversa e até o que come. Mas é normal né? um preço a pagar por um amor tão verdadeiro e raro de um cara tão bonito e gostoso.

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São homens tidos como exemplo para mulheres se relacionarem, e que estão completamente em desacordo com os princípios éticos e morais de um relacionamento saudável entre dois seres humanos. Eu não consigo entender ainda como alguém, uma mulher que consegue ler um livro cheio de violência contra seu gênero e ainda se apaixona pelo agressor. Mas acontece.


Vivemos em uma sociedade de liberdade de escolha, onde você pode agir como quiser, com consentimento na hora do sexo e de um relacionamento. Ninguém tem o direito de tirar suas mordaças se você não quiser ser livre, não é mesmo?

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Mas algumas coisas não podem passar batido, a humilhação de outro ser humano e o controle excessivo vão contra os princípios da integridade de um ser humano. Não importa se o príncipe gostoso apanhou, foi molestado ou maltratado, ele não tem o direito maltratar ninguém, muito menos de quem o ama. E muitas vezes as mocinhas aceitam como característica de personalidade. Mas parte desse problema, é o esteriótipo de mocinha virgem casta submissa sem vontades próprias que se entrega de corpo e alma ao mocinho, que pode ou não ser um babaca.


Falar de sexo entre num âmbito meio complicado porque tem gente que realmente gosta e sente prazer em todas essas coisas. Homens e mulheres. Então porque os livros que fazem sucesso, ou que chegam até a gente, geralmente mostra a mulher submissa?
Livros são retratos da realidade. Mas o problema é quando deixam de ser retrato da realidade para sustentar, mesmo que se modo não direto, ideais machistas, de submissão, e sexo frágil.
Estupros acontecem. Estupros devem ser retratados. Pedofilia acontece. Pedofilia deve ser retratada. Atos machistas acontecem o tempo todo e precisam sim ser retratados. Mas não romantizados como por ventura sempre são.
Exemplo é Cinquenta Tons e Cinza, um livro que eu considero extremamente problemático. Porém que as coisas que são retratadas nele, parecem normal aos olhos de muitas leitoras.


Tinha tudo para uma boa premissa. O cara foi abusado, e tudo mais. Mas não é explicação para o que ele faz, os atos controladores dele são absurdamente romantizados.
Se não fosse, não existiria centenas de milhares de mulheres dizendo que querem um amor Cinquenta Tons.
Mas dessas centenas de mulheres, a grande maioria não se sente nem um pouco a vontade recebendo palmadas porque… vestiu a roupa "errada", falou o que "não devia" ou se comportou "mal". Mas incrivelmente essa discussão não é levantada durante a leitora de
Cinquenta Tons porque a coisa está romantizada.
Cinquenta tons seria um livro válido se durante a leitura, diante dos comportamentos abusivos do Grey, e eu nem estou entrando no âmbito do sexo exclusivamente. Suscitasse exclamações como: ‘Ele precisa de um tratamento.’, ‘Ana sai daí, esse cara tá louco.’, ‘Amiga você não precisa disso’.


Mas na prática o que se vê, o que realmente se vê é gente achando ruim quando ela não aguenta as palmadas e vai embora no primeiro livro.
A questão é que estupros, comportamentos machistas, podem e devem ser retratados, mas como realmente o são. Quando você romantiza qualquer uma dessas violências você está ajudando a embasar uma cultura machista, de mulheres submissas e sem voz.
Livros fazem parte da formação das pessoas, porque tudo faz parte da formação das pessoas. Existem pessoas que tem senso crítico para perceber que um livro é problemático, mas muitas não possuem. E livros assim, incutem ideias que fora do mundo imaginário da romanização não são nem um pouco legais, saudáveis ou divertidas.

Texto escrito em parceria com Ana Flavia Alvarenga Bittencourt.


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