Evaldo Vilela fez doutorado na Inglaterra, pós-doutorado no Japão, Alemanha e Estados Unidos, ex-reitor da Universidade Federal de Viçosa, ex-presidente do CNPq e da Fapemig
1) O senhor tocou em um ponto bastante importante que é transformar a ciência em tecnologia aplicável ao dia a dia das pessoas. O Brasil patina há muitos anos no Ranking Mundial de Inovação, atualmente está na 52ª posição. O que é preciso fazer para termos mais inovação a partir da ciência?
É uma questão de organização. Muitas vezes se financia uma pesquisa, deixa a cargo do pesquisador fazer uma descoberta, às vezes patentear, registar e lançar no mercado, mas depois quem vai querer? Não se encontra em diversas ocasiões. O que é preciso fazer é produzir uma ciência básica e aplicada para quem precisa dela. É preciso conectar as pontas, criar mecanismos. Um pesquisador publica em inglês o que descobriu. Quem vai se interessar? Tem algum órgão do governo? Tem alguém que vai procurá-lo e dizer: “vamos trabalhar isso aqui”. Quando a empresa chega com uma necessidade, o pesquisador já está em outra. Inclusive, muitas vezes o pesquisador tá com uma descoberta interessante num determinado assunto e precisando de dinheiro para continuar a pesquisa, porém aparece um edital (de pesquisa) para outra coisa. Para não perder o laboratório e tudo o que já foi investido, ele muda para essa outra pesquisa. E as coisas vão assim. Nós temos pesquisadores extremamente talentosos no nosso país que são resilientes e fazem muito com pouco. Porém, o Brasil tem muitos entraves ao progresso da ciência. O sistema de controle é um deles. Eles fazem uma auditoria de um projeto de pesquisa como se estivesse auditando o asfaltamento de uma via pública. Os advogados no Brasil não estudam ciência e tecnologia. Não têm a menor base para entender que em ciência e tecnologia não é possível planejar como se faz na obra de asfaltamento. Outro problema é que os órgãos de fomento têm muito receio da comunidade (acadêmica), que em linhas gerais não quer mudar nada. Quando eu fui presidente do CNPq essa era uma das minhas lutas. Qualquer mudança que se dispõe a fazer, a pessoa se nega porque acha que vai perder. A mudança para acontecer precisa vir com novos aportes em dinheiro e uma nova mentalidade. Não pode simplesmente lançar um edital, de alguém que acha que aquilo é importante, mas ninguém consultou a indústria, os produtores rurais. O resultado vai ser um artigo que só serve para publicar. É um sistema falido. O sistema de fomento à pesquisa no Brasil é um sistema desatualizado, que não considera as transformações pelas quais o mundo vem passando. Em alguns países, como a Bélgica, a inteligência artificial ajuda na tomada de decisões sobre quais pesquisas apoiar baseado em dados do pesquisador, que assume um risco ao pegar dinheiro para a pesquisa. Se ele não entregar resultados concretos, dificilmente obterá novos apoios financeiros. Quem faz isso no Brasil? No Agrogenômica temos uma boa quantidade de recursos que estamos aplicando de forma que seja interessante para o setor produtivo. Estamos começando com soja, milho, mas queremos expandir para outras culturas, como fruticultura temperada, erva-mate, cevada. Tudo isso precisa ser transformado e as mudanças já estão em curso. Você pode, por exemplo, a partir do genoma produzir em laboratório o que você quiser. Não é preciso plantar. É claro que não é tão simples e rápido como pode parecer. É um processo custoso também, mas está evoluindo nesse sentido. Nós não temos tecnologia nenhuma nesse sentido. Estados Unidos, China, Holanda, Bélgica estão na frente, mas a gente precisa ter alguma capacidade de fazer isso. A ciência no Brasil precisa de mais resultado (inovação) porque com resultados ela é mais compreendida, mais necessária.
*Lucas V. de Araujo: PhD em Comunicação e Inovação (USP).
Jornalista Câmara de Mandaguari, Professor UEL, parecerista internacional e mentor de startups.
@professorlucasaraujo (Instagram) @professorlucas1 (Twitter)