Não posso evitar me surpreender com as mentiras que as pessoas contam, eu sei, algumas são inofensivas. Mas eu fui educada para dizer a verdade e fico irritada quando escuto exageros, suposições ou mentiras descaradas.
Não é estranho escutar que um poeta “é o melhor do mundo”, isso para os amigos, logicamente. Não é raro ouvir comentário como “esse romancista é o melhor do Brasil”! Muitas vezes, o pobre romancista teve que arcar com os custos do próprio livro, porque nenhuma editora achou o livro bom o suficiente para editá-lo. Mas, há poucos dias, uma mentirola me irritou. O poeta é bom, tem amigos e é uma pessoa muito simpática, mas o elogio é exagerado, e só teria sentido nos lançamentos do Padre Marcelo ou de um livro de outro famoso. A entusiasta amiga dizia: “Muita gente no lançamento do livro de poesia, eu quase não consigo autógrafo”, e qualquer pessoa sensata “quase” não conseguiria parar de rir.
Lamentavelmente, essas mentirolas só são bem recebidas por amigos e pessoas desinformadas. Editores, poetas e pessoas que trabalham com livros sabem que poesia não tem leitores suficientes para o difícil mercado livreiro. Por isso, poucas editoras “bancam” livros de poesia.
Vejamos um exemplo: o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Cláudia Quintana Arantes, vendeu mais de 700.000 livros. Raramente um poeta consegue 10% do público dessa autora. Podemos dizer que, quando se consegue 10% do público dessa autora, um poeta se sente consagrado no mundo das letras.
Já escutei mentiras das mais diversas. Uma autora contou, em uma reunião, que enviou um livro para uma editora de São Paulo. Segundo ela, a dona da editora gostou tanto que imediatamente pegou um avião para Curitiba para pedir que ela assinasse o contrato. Mas ela se recusou a assinar, pois não estava de acordo com algumas cláusulas.
Nos filmes, os editores correm atrás dos autores. Bem… mas no mundo real é provável que alguns editores corram para conseguir autores como Paulo Coelho, Chico Buarque, Ana Cláudia Quintana Arantes e outros. Mas um autor ainda não conhecido pelo grande público em geral recebe ligação de um funcionário da área de edição. O editor tem muito trabalho e, às vezes, não tem tempo de falar com os novos autores.
Eu já tive livros publicados em São Paulo e sou honesta: nunca um editor veio até Curitiba para me solicitar que assinasse um contrato. Isso seria maravilhoso, um presente de Natal! Mas as coisas são diferentes. As editoras contam com equipes de profissionais, e um funcionário da área de direito autoral envia o contrato. O autor assina e encaminha para a editora. Simples e prático. Não é tão emocionante quanto nos filmes, mas funciona.
No lançamento de uma coletânea, escutei outro elogio exagerado. A idosa aproximou-se da autora quase desconhecida e exclamou: “Você já é famosa!”. Famosa? Sim, alguns acham que um autor vende 50 livros e já é famoso. Lamentavelmente, não é tão fácil.
Uma professora que ministra curso de línguas disse para uma amiga que fez 50.000 exemplares e vendeu quase tudo. Ela não deve saber o que significa vender 50.000 exemplares de um só título. Esse é sonho de qualquer escritor e também dos editores. Deu a casualidade que eu conheço a editora que publicou o livro. Falando com o gerente da editora, ele me disse que fazem 500 exemplares, no máximo 1.000 exemplares, de cada título. Eu penso que a professora deve ter errado na colocação de zeros… de 500 para 50.000, e isso é uma grande diferença!
Um dos comentários mais coerentes foi d
e uma
artista plástica e professora. Ela disse que em qualquer arte as pessoas entram entusiasmadas, mas rapidamente abandonam. As que permanecem, seja pintando, escrevendo poemas, cantando, já mostram que são pessoas que escolheram a arte. Mas sair do anonimato é muito difícil. Dificílimo! É isso mesmo.
Há alguns anos escutei uma palestra de Luiz Emediato. Nessa época, ele era dono da editora Nova Geração e ria de uma novela de televisão que apresentava a protagonista como escritora, entregando algumas páginas de seu novo livro para o editor e dizendo: “Hoje você trabalhou demais, vamos tomar um drink e relaxar.” O editor confessou, rindo, que isso nunca aconteceu com ele.
E voltemos ao começo: livros de poesia são adquiridos por familiares, por amigos e por algumas pessoas que gostam de poesia. Movimentam um pequeno mercado e seria muito estranho, uma exceção digna de ser divulgada pela imprensa, que um poeta tenha “tanta gente no lançamento a ponto de que alguém quase ficar sem seu autógrafo”. O poeta pode ser excelente, mas as pessoas compram mais romances e livros de autoajuda, especialmente
best
sellers
. Minha pergunta permanece: por que as pessoas mentem quando falam de lançamentos de livros?
Isabel Furini