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Conto ganhador do 33Concurso Nacional de Contos de Araçatuba

26 jan 2022 às 22:17
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O conto "Roland", de Arzírio Cardoso, venceu o 33º Concurso Nacional de Contos de Araçatuba. No total, foram 610 inscrições. Na continuação o conto ganhador

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[Roland]
Hoje matei um homem. Três tiros. Lentos. Frios. Premeditados. Desejados por muitos e muitos anos. O primeiro acertou de raspão o ombro esquerdo. Sua morte não deveria ser rápida demais. Aquela criatura mesquinha e arrogante, antes de ser devorada pela morte e pelos vermes, deveria reconhecer quem era o seu algoz. Reconheceu-me. Não incrédulo como eu presumira, mas ainda assim surpreso. Jamais me julgará impotente e covarde novamente. Segundo tiro. Consegui ser um pouco mais incisivo. Um excitante perfume de sangue espalhou-se pelo ar: o cio atraindo um cão sedento. Atingi-o na barriga. O contraste entre o vermelho melífluo da tinta sanguínea e a alvura reluzente de sua camisa causava-me um inebriante prazer estético: o nascimento de uma obra transcendendo, trespassando seu autor. Mas a criatura manteve-se de pé, forte, apenas as costas levemente arqueadas. A conclusão do projeto não se daria assim, sem duro trabalho. Olhou-me nos olhos, sempre houvera me olhado nos olhos. Creio que sorriu, giocondamente. Sempre o mesmo olhar soberbo. Sempre a imensa amplitude imensurável, a perfeição inatingível. Pacientemente, parecia aguardar o golpe final. Foi na garganta, certeiro, sem réplicas. Três balas. Em cada uma, uma palavra. Uma após outra, numa sucessão geometricamente gradativa de sensações cujo desfecho eu não imaginava ser tão fartamente prazeroso. Na primeira, a palavra “EU”, seca, enfática, que assegurou à vítima o reconhecimento da intenção do ato. Na segunda, “NÃO”, o limiar entre uma certa perplexidade causada pelo primeiro tiro e o agora reconhecimento da inevitabilidade do terceiro. Na última, “EXISTO”, a queda do oponente e o gozo do assassino, que virou as costas e partiu, anônimo, com a sensação dignificante de dever cumprido, silencioso como o silenciador de sua arma. No chão, estendido, enlameado por aquele sangue sujo que lento escorria na direção do ralo do banheiro, fiquei eu, Arzírio Cardoso. E agora você pode entrar, examinar o corpo, ler a história que a dispersão do sangue narra, contemplar a cena da execução e a execução da cena. Depois de escrito o texto, o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do autor.

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Arzírio Cardoso

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