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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
05/05/2016 - 13:37
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"Os jesuítas tentaram unir Deus e o mundo, e só ganharam o desprezo de ambos" – Blaise Pascal (1623-1662).

"Quem pensa que sabe, não sabe
Quem sabe que não sabe, esse sim sabe" – Provérbio popular.


Ao estender o raciocínio, digo que: quem tem certeza de que não sabe, absolutamente, nada... Esse (a) sim sabe, muito mais, ainda, do que todo o mundo.

E, em se tratando da humanidade, tudo vive mudando e se transformando. Os (as) "otimistas de carteirinha" costumam gabar-se – exibir-se – dizendo que isso é "para melhor", que é "evolução e/ou modernização"... Só que tudo acaba. Exatamente da forma que começou, permanecendo sempre a mesma coisa. E a lei inexorável (porque pensamos que ela age contra nós seres humanos), simples, real, fatídica (porque, outra vez, achamos que se volta contra a gente) e fatalista do Universo, do Cosmos ou do Vazio infinito ainda traz mais complicações – insolúveis – com o desgaste natural do tempo (velhice), morte etc.

Quanto às misteriosas realidades que escapavam aos nossos sentidos: as forças, os planetas, as moléculas, as ondas, não eram senão o imenso vazio cavado por nossa ignorância e que escondíamos com palavras. Nunca a natureza nos mostraria seus segredos; ela não tinha segredos; nós é que inventávamos perguntas e fabricávamos respostas a seguir. (de BEAUVOIR, 1995, p. 317).

"O ser humano é, no fundo, um animal selvagem e temível. Nós o conhecemos somente domado e preso por aquilo a que chamamos civilização" – Arthur Schopenhauer.
"[...] Quando o bispo (da cidade de Münster, no século XVI) reconquistou a cidade, foi o profeta encerrado numa gaiola de ferro suspensa a uma das torres da catedral. Renunciei a interrogar-me acerca de tão extravagante destino. Mas pensei com inquietação: ‘Pode-se vencer a fome, pode-se vencer a peste; poder-se-á vencer os homens?’ – Todos os homens são mortais, Simone de Beauvoir, editora Nova Fronteira, p. 210."

"– Ah, mas a Ciência avança e as tecnologias produzem maravilhas!!!..."
[...] É o que se costuma anunciar por aí.
Tsk, tsk, tsk, huuummm... Será mesmo?...
"– Claro que sim, quantos remédios, vacinas e produtos modernos!!!..."
[...] É o que também, e comumente, se faz crer por aí.
Sim, e também, claro e obviamente se torna necessário, cada vez mais, encontrar recentíssimas soluções – caras e dispendiosas (novas vacinas, remédios etc.) – para combater tantos problemas psicossomáticos, doenças e vírus "novos"...

"[...] O que é muito difícil de compreendermos é o princípio dual, de tal forma estamos modelados por uma filosofia geral da unidade: tudo que vem contra ela é tido como inaceitável . Tenta-se controlar, não o que existe, mas o que, em nome desse pressuposto, não deveria existir. De minha parte, acho muito mais fascinante colocar no princípio uma dualidade irreversível, inconciliável. Opomos o bem e o mal em termos dialéticos de modo a que uma moral se torne possível, isto é, que possamos optar por um ou por outro. [...] De qualquer forma, eu considero a dualidade como a verdadeira fonte de toda energia [...] O essencial é seu antagonismo e a impossibilidade em que nos vemos de criar um mundo da ordem e ao mesmo tempo prestar contas de seu contexto total de incerteza. Isto não podemos, e isto é o mal." (BAUDRILLARD, Senhas, Rio de Janeiro: DIFEL, 2007, pp. 76 e 77).

O semioticista, sociólogo e pensador francês Jean Baudrillard (1929-2007) está certo. Criamos a mania incorrigível de associar tudo o que existe e acontece no mundo dos homens, na Natureza e no Universo ao dualismo: Bem e Mal. Que tolice infantil. O escritor ítalo-cubano Ítalo Calvino (1923-1985) chega a se divertir com isso. Em O Visconde Cortado ao Meio, na história, o populacho medievo (sujeito às maldades constantes e inacreditáveis do protagonista senhor feudal) reflete e se anima a constatar que ainda bem que só há dois princípios antagônicos. Já imaginou se houvesse mais?! O próprio Calvino vai além, em O Barão nas Árvores (São Paulo: Companhia das Letras, p. 120), ao anunciar: "[...] Depois bastou o advento de gerações desatinadas, com imprevidente avidez, gente sem amizade por nada, nem por si mesma, e tudo então mudou...".

Adão e Eva, obra de Tintoretto, de 1550
Adão e Eva, obra de Tintoretto, de 1550


Mudou então para muito muito pior e para continuar sempre a mesma coisa.
A respeito, por que não dar uma chancezinha para a Esperança ?! No filme coreano Swords on the Moon (em português: Guerreiros da Noite), os dois protagonistas – ex-combatentes aliados e grandes amigos – duelam com espadas, mas, em um intervalo de paz, confrontam-se filosoficamente. Segue o interessante diálogo:

"– Acha que pode mudar o mundo sozinho? É inútil. Desista."
"– Inútil? Talvez. Não posso mudar o mundo sozinho. Nós vivemos e morremos. É apenas uma repetição. Nada muda. Nada. Mas esperamos por um mundo melhor. Lembra-se? O povo espera uma nação pacífica. Um mundo de esperança que o nosso professor nos ensinou. Agora não tenho um mundo para o qual regressar. Isto é tudo o que posso fazer".

Retornando à história de Adão e Eva, esta tem tudo a ver com a questão do Bem. O casalzinho adâmico – que não é o primeiro a ser aclamado o ancestral da humanidade –, também, é responsável pelo motivo do Mal que se encontra geralmente correspondido aos pecados (tanto aos sete capitais quanto as suas variantes), ao inconformismo/rebeldia e à desobediência.

Em se tratando do mal, a primeira coisa com a qual nos defrontamos é que, de um ponto de vista humano, sua conceituação depende sempre do ângulo onde está o observador. – SANFORD (1929-2005), analista junguiano e padre episcopal norte-americano.

O dualismo Bem e Mal, tão fascinante e instigante. Incentor de polêmicas e consequentes atos de intolerância e violência gratuita em todos os rincões do Planeta. Já no século III e IV, por exemplo, Orígenes e Pelágio – homens teólogos de inestimável ascetismo e erudição – são sacrificados devido aos seus envolvimentos aprofundados (e sinceros) com o tema.

Orígenes, coitado, compromete a sua vida particular e social acreditando no Bem de uma maneira ampla, completa e não preconceituosa! Pronuncia que a misericórdia é algo divino e que o próprio Satanás deverá ser perdoado por Deus durante o Juízo Final. É o que se chama tecnicamente de Apocatástase, que significa "restituição à condição original" em grego. O grande teólogo alexandrino complica substancialmente a sua situação ao pressupor que Adão e Eva – livre e espontaneamente sucumbindo em sua fé – juntam-se à revolta celestial dos Anjos Caídos e a seu chefe Lúcifer por orgulho. Conclui que a fonte de todos os pecados não está na licenciosidade entre mulheres terrenas e anjos proscritos, mas na soberbia do Diabo que tenciona ser Deus. Não é, à toa, que Orígenes é raivosamente combatido enquanto vivo e, após a sua morte, é condenado por heresia em 543 e 553 no segundo Concílio de Constantinopla (STANFORD, 1996, pp. 85-86).

Pobre Pelágio! Chega a Roma por volta de 380 d.C. Para a sua infelicidade, crê que a vontade humana é completamente solta e independente, capaz de fazer o Bem e o Mal. O pecado de Adão é considerado de ordem puramente "pessoal" e não tem qualquer efeito sobre o resto da humanidade. Sendo assim, nascemos todos sem pecado. Suas ideias levam-no a ir de encontro a certas práticas, como a necessidade de batismo de crianças pequenas.

[...] Em 417, uma conferência de bispos africanos persuadiu o Papa Inocêncio I a excomungá-lo [...] O Imperador Honório, com apoio papal, exilou Pelágio de Roma, em 418, por causa de sua insistência em ensinamentos heréticos; e no XVI Concílio de Cartago, 214 bispos africanos condenaram sua doutrina [...] Um Concílio de Antioquia expulsou-o da Palestina no ano seguinte. (Dicionário da Idade Média, 1990, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 293).

Portanto, hoje, o Pelagianismo é conhecido como a doutrina do heresiarca inglês Pelágio, a qual nega o pecado original e a corrupção da natureza humana. E, a propósito, o escritor espanhol Miguel de Cervantes (via seu herói universal Dom Quixote) aponta vantagens para quem sabe dominar e assim fazer bom uso de seus naturais sentimentos: "[...] sei muito bem não haver no mundo feitiços que possam mover e forçar as vontades, como cuidam alguns palermas; o alvedrio da pessoa é livre, e não há erva nem encanto que o obrigue" (CERVANTES, 1981, p. 123).

Em suma, a realidade é que todos os indivíduos possuem a capacidade de decidir a execução de suas ações conforme as suas convicções particulares, livremente. Se as pessoas escolhem o caminho "certo" ou "errado", aí, já são outros quinhentos! O "perigo"– enfrentador de qualquer espécie de tirania e manipulação – reside na sabedoria e na consciência de cada um; não é por acaso que o famoso fruto proibido, a que se refere o Livro do Gênesis, não é o fruto da concupiscência... É o do conhecimento.

3 O relato do paraíso – A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal.". (Gn 3, 1-5).

Transportando essas milenares reflexões filosóficas para o nosso dia-a-dia e para a nossa mentalidade reinante, só há o que lamentar, MUITO infelizmente. A título de exemplo – e contrastando com o blablablá televiso e pregação midiática de que tudo está cada vez se aprimorando em termos humanísticos –, vemos por toda parte: grades para proteger humanos de outros humanos em casas, condomínios (estes ainda se utilizam de muros e sofisticados aparelhos de choque) e edifícios; grades para isolar gentes da sociedade em prisões, presídios e campos de concentração; grades para proteger árvores, em desenvolvimento, nas calçadas; adesivos, sobre patentes, implorando para que não se urine no chão ou fora do vaso, para que se jogue papel higiênico (usado ou não) no cesto de lixo e para que se dê descarga após o fazimento das necessidades fisiológicas... E para completar a hipocrisia "politicamente correta" se pede para sorrir porque você está sendo filmado (a)!!!

Adão e Eva deu errado... E como!!!... Que se comece de novo... Ou não, para a felicidade da Terra e, quiçá, do Universo todo.
15/05/2014 - 12:49
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O Diabo é possivelmente imortal, mas certamente surgiu em dado momento. - Vilém Flusser


Refrão-título, poderoso e apocalíptico, que ecoa em nossas mentes desde 1983, ano de lançamento do disco (em vinil) intitulado See You in Hell (Reino Unido: Ebony Records) do grupo de heavy metal inglês Grim Reaper. Na verdade, trata-se, em seu todo, de uma letra ingênua e apelatória, bem de acordo com os temas infernais do rock pesado. Todavia, aprecio-a sobremodo por sua qualidade musical e não por uma eventual mensagem que possa transmitir.



Embasbaquem-se senhoras e senhores, trinta e um anos transcorrem-se e o Grim Reaper reaparece, e em Londrina!!! E, vivos ainda, o grupo para tocar e eu para assistir a ele!!! Da formação original subsiste apenas Steve Grimmett, com jeito de "tiozão", mas resguardando sua estentórea voz. O show teve lugar no bar Hush, no domingo (dia 4 de maio) à noite. Munido de muito saudosismo para lá me dirigi. Confesso que foi um dos momentos mais importantes e emocionantes da minha vida.

Abrindo parêntese. O passar dos anos e as experiências com humanos fazem-me perder o encanto e o gosto pela "tietagem", destarte, não pedi autógrafos nem dedicatórias; como antes achava o máximo. Tem razão o escritor siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa quando afirma que as revoluções têm de existir para que tudo mude e continue a ser o mesmo de antes. Esse "tudo" se aplica às pessoas, e a sua maravilhosamente encantadora natureza.

Alf, o Eteimoso, em sua fase headbanger
Alf, o Eteimoso, em sua fase headbanger


Bom, retornemos àquela fantástica ocasião da minha existência. O ambiente encontrava-se tranquilo e respeitoso, o que é praxe em festivais e espetáculos de heavy metal. Estavam presentes headbangers (em português, metaleiros) de todas as gerações: molecada, trintões, quarentões e cinquentões, como eu. Quase todos de cabelo curto e usando camisetas pretas. Por muito pouco mesmo, não fui trajado da minha camiseta havaiana legítima supercolorida. Só para praticar um ato de inconformismo.

A sequência de hard rock/heavy metal shows teve início com a banda maringaense Haze Hamlet, diga-se de passagem, excelente. Depois, em ordem, o Grim Reaper e a holandesa Picture, também veterana (criada em 1979) e, portanto, repleta de "tiozinhos" animados, que ainda sentem prazer de tocar e de constatar que o público está curtindo. O ápice da loucura divina (que é o mesmo princípio do sopro divino, há muito descrito na Bíblia) deu-se na hora da canção-título dessa narrativa. O público ficou ensandecido e se jungiu – em corpo e alma - a Steve. Tenho trinta e sete anos de perambulações por shows e/ou festivais de rock e heavy metal no Brasil e no exterior, mas, jamais havia testemunhado um coro entoado com tamanha força, tamanha raiva. Catarse em sua máxima amplitude!!! Aliás, esta que é a principal função reconfortante do heavy metal. Pareceu-me o grito desesperado - e último - da humanidade que já não crê em si própria.

Diária e constantemente, tanto nas ruas como por meio das mídias tornamo-nos vítimas testemunhais de um completo desfile gratuito de violência contra a boa educação, contra a solidariedade desinteresseira, enfim, contra o que resta de pessoas boas nesse planeta. O que vale, hoje, é ser "chocante" (Como se ainda, em nosso mundinho humanal, sobrasse alguma "pixonga" para chocar!), "estúpido", "semi-analfabeto funcional", "irado". E assim vai caminhando a coisificação. Há algo que pode ser considerado de valor ou de beleza para semelhantes Homo sapiens sapiens?!...
[...] Não... E dou um exemplo. Em concertos AO VIVO (de qualquer estilo de música), nota-se aquele oceano de braços e mãos estendidas a filmar com celulares, "ai-phodes", "não-phodes" ou com outros "que-se-phodes" quaisquer, durante o tempo todo, enquanto seus ídolos (as) se encontram próximos em carne e osso nos palcos. Que esperteza invejável, não! Em vez de contemplarem-nos a olhos e ouvidos nus, pagam fortunas pelos ingressos e ficam, como escravos da mais parva vaidade, gravando, desajeitadamente, "filmezinhos" que logo brotarão em enxurradas no youtube. Pessoas - não tão inteligentes- ficam em casa e, de graça e com inenarrável conforto, assistem aos mesmos shows em suas supertelas de TV ou computador. É a desditosa constatação de que a grande massa não consegue entender a diferença entre o real e uma imagem (o virtual). Como diria o escritor Ítalo Calvino: "[...] Depois bastou o advento de gerações desatinadas, com imprevidente avidez, gente se amizade por nada, nem por si mesma, e tudo então mudou..." (CALVINO, 1991, p. 120). Mudou para muito muito pior.


Espiritualização, aquela antiga ascese do corpo, mudou-se na Renascença para a figurativização, para a transformação da matéria em imagem. No entanto esta visibilização do invisível meteu-se desde o início do século em uma crise cujos contornos continuam obscuros. Trata-se da tentativa de exonerar o corpo, não pela repressão, mas pela substituição: ao invés do corpo humano, preferem-se as imagens do corpo [...] Assim, uma imagem nunca será apenas uma presença, mas também uma ausência.
- Ditmar Kamper (grifo de Adriano Alves Fiore)


Pintura de Eugène Delacroix representando Dante, Virgílio e Caronte durante a travessia do Rio Estige em A Divina Comédia
Pintura de Eugène Delacroix representando Dante, Virgílio e Caronte durante a travessia do Rio Estige em A Divina Comédia


Óbvia e infelizmente para o futuro da humanidade ainda sã, as catervas não são capazes de experimentar uma sensação de presença. De uma ausência então... Nenhuma chance. Tudo é rápido e facilmente substituído para elas por cataratas de "tranqueiragens". "Homens (mulheres, etc.) pequenos veem grandeza fácil para não se sentirem menores do que são!" (frase contida no filme The Savage de 1952, com Charlton Heston). Quem sabe seja esta a grande explicação para a inacabável manifestação de ignorâncias e cretinices que se vê aqui e no exterior.

Se já falei sobre o inferno sartriano, não faz mal, nunca é demais reprisá-lo. Sua obra teatral Entre quatro paredes narra a história de três pessoas que não se conhecem, mas são obrigadas a viver eternamente juntas. Por fim, um dos personagens, desesperado, suplica: "Abram, abram, vamos! Eu aceito tudo: as botinadas, os ferros, o chumbo quente [...] Quero sofrer para valer..." (ECO, 2007, p. 89). A explicação sartriana é simples: "[...] Fornalhas, grelhas... Ah que piada. Não precisa de nada disso: o inferno são os outros".

Jean-Paul sabe, mui acertadamente, que a convivência é a questão cardeal entre todos os bípedes implumes metidos a racionais. Na peça, ele a chama de "lugar aterrador final", onde se convergem todos os tormentos infernais e que supera todos os castigos e a violência dantescos. É o coletivo do bicho-homem, traduzido em sua forma de relacionar, ou seja, o convívio humano. Eis o verdadeiro - e único – inferno!!! João Gimarães Rosa reforça essa tese. Seu Grande Sertão assim se encerra: "[...] Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O Diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.".

Rejubilai-vos filhos (as) de Adão, Eva, Lilith, Hitler, Idi Amin Dada, etc., o báratro está aqui e agora!!!


P.S. E não adiantam nada apelações com rezarias baratas, apenas procurem fazer o bem para vocês e, se sobrar um tempinho, para os outros também.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA, e lida in totum

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo: Abril Cultural, 1981.

ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Saraiva, 2012.

BAITELLO Jr., Norval. A Era da Iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. São Paulo: Hacker, 2005.

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na idade média e no renascimento – o contexto de François Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. 4. ed. São Paulo/Brasília: Edunb/HUCITEC, 1999.

______. Problemas da poética de Dostoiévski. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.

BAUDRILLARD, Jean. América. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

CALVINO, Ítalo. O Barão nas árvores. 4ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

ECO, Umberto. História da feiura. Trad. Eliana Aguiar. 1ª impressão. Rio de Janeiro: Record, Brasil; Bompiani: Itália, 2007/2008.

FLUSSER, Vilém. A História do Diabo. São Paulo: Annablume Editora e Comunicação, 2006.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
06/07/2012 - 14:10
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Simplesmente, o envolvimento entre "nós" (o "eu"), o "outro" e o inferno – ou o que esse casamento acarreta - é sobremodo complexo e interessante. Sartre (1905-1980)1 presenteia a nossa eterna tentativa de melhor compreender e/ou buscar um sentido à vida em comum (coletiva) com a emblemática frase conclusiva de sua peça intitulada Entre Quatro Paredes.

[...] Sartre encena um inferno contemporâneo, em sua peça Entre Quatro Paredes: se somos definidos pelos Outros quando estamos vivos, por seu olhar impiedoso que revela a nossa feiúra ou a nossa vergonha, ainda podemos nos iludir com a possibilidade de que esses outros não nos vejam como somos. No inferno sartriano (um quarto de luz sempre acesa e porta fechada, no qual três pessoas que nunca tinham se visto antes terão de conviver eternamente), ao contrário, não se pode escapar do olhar do Outro e vive-se apenas de seu desprezo. Um dos personagens grita: "Abram, abram, vamos! Eu aceito tudo: as botinadas, os ferros, o chumbo quente [...] ‘Mas em vão:’ [...] Fornalhas, grelhas... Ah que piada! Não precisa nada disso: o inferno são os Outros." (SARTRE, Entre Quatro Paredes. In: ECO, História da Feiúra, 2007, p. 89).


O pavor de que outras pessoas ou outras coisas (reais ou não-reais) possam causar-nos algum mal é tão velho quanto o surgimento da convivência humana. Criam-se monstros para assustar as crianças, como o nosso bicho-papão ou o "homem de areia" (sandman) do escritor, contista e crítico de música alemão Ernest Theodor Wilhelm "Amadeus" Hoffmann (1776-1822), o qual "é um homem mau que aparece aos pequenos desobedientes (que não querem ir para a cama) jogando-lhes areia nos olhos até que estes saltem das órbitas; então ele os guarda e leva para a Lua" (ECO, p. 316).

O "medo do outro" é tão arraigado e profundo em todos os homens que suscita o hábito universal da derrisão, do escárnio. Isso significa que há uma necessidade tanto das gentes do povo como das da "elite" de se ridicularizarem mutuamente para assegurar condição social, política ou religiosa. E nada melhor do que se utilizando de ironia, que é "a brincadeira que se esconde atrás do sério e visa alguém" (MINOIS, p. 459 e 517). Muito se apregoa que o ser humano é o único bicho que tem a capacidade de rir... Tenho minhas mais inquietantes dúvidas. Volta e meia vejo sorrisos ou humores estranhamente lúdricos em cães, gatos ou em qualquer espécie de animal que apareça em programas televisivos do National Geographic ou do Animal Planet Channel!
Voltando ao "outro", a essa praga que atormenta a todos os "eus" existentes (E a reciprocidade é verdadeira!), a esse ente sempre próximo de parecença e parentesco confirmadíssimos com o inimigo ou adversário bíblico,2 abrem-se os portões da antropofagia. Portanto, o nosso admirável mundo humano não passa de uma sequência histórica de amontoados de coexistências e devorações. Mas, que não se traduza tal realidade apenas para um discurso pessimista (ou fatalista), afinal, como diz o pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser: "O canibalismo é o próprio mecanismo da evolução, do ‘progresso’" (2011, p. 38 e 107).

Enfim, para Sartre - e para os seres pensantes menos hipócritas que o normal - o coletivo do bicho homem, traduzido em sua forma de relacionar, ou seja, a convivência humana é o verdadeiro (e único) inferno. Um abismo assombroso que danifica a mente das pessoas alterando seus comportamentos, tanto o externo (público) como o ob-reptício (absconso e ardiloso). O tema da coexistência chama à baila a questão do bem e do mal que em posterior momento, aqui, será tratada com mais cuidado. Porém, uma "palhinha" se segue. Desde Heráclito (535-475 a.C.), fala-se em uma disposição tolerável de duas forças antagônicas universais quase tal qual ocorre na música, em que se faz mister o perfeito ajuste ou combinação harmônica final de notas opostas, isto é, graves e agudas. Os primeiros filósofos gregos, no início, importam-se apenas com o problema do universo e as leis que o controlam. "Para eles, portanto, a bondade deve ser encontrada em harmonia com aquelas leis. Mais ainda, estavam tão empolgados por essa ideia, que o próprio mal não os interessava muito" (FROST Jr, p. 88-90). Quando os filósofos mudam o seu foco de interesse para o homem, começam a questionar seriamente o modo de vida e as relações das pessoas o que suscita novas (e profundas) considerações a respeito do bem e do mal.


REFERÊNCIAS

ECO, Umberto. História da Feiúra. Rio de Janeiro: Record, 2007.

EDDIE. A famosíssima mascote do grupo inglês de Heavy Metal Iron Maiden, contribuindo com a pintura gritante de Munch. Imagem extraída do LP single The Reincarnation of Benjamin Breeg (2006), com ilustração de Melvyn Grant. Formato JPEG. Disponível em: www.maidonian-city.de. Acesso em: jul. 2012.


FLUSSER, Vilém. Vampyroteuthis infernalis. São Paulo: Annablume, 2001.

FROST JR, S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo: Cultrix, 1961.

GRITO, O. Imagem da obra homônima do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). Formato JPEG. Disponível em: www.wikipedia.org. Acesso em: jul. 2012.

RUSSELL, Jeffrey Burton. O Diabo: as percepções do mal da antiguidade ao cristianismo primitivo. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Dicionário de Filosofia. Dirigido por Robert Audri. São Paulo: Paulus, 2006.

OLIVER, Martyn. História Ilustrada da Filosofia. Barueri: Manole, 1998.
07/12/2011 - 09:49
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O historiador e escritor português Alexandre Herculano (1810-1877), em seu livro O Bobo, deleita-nos com algumas curiosidades sobre o truão, como as que agora se fazem seguir. "[...] E não era lá nenhum grande homem: era um vulto de pouco mais de quatro pés 1 de altura; feio, barrigudo, imundo, e insolente como um vilão. Chamava-se de seu nome Dom Bibas. Oblato 2 do mosteiro de D. Muma, quando chegou à idade, que se diz da razão, por ser das grandes loucuras, achou que não era feito para ele o remanso da vida monástica [...] O leitor que não conhecesse por dentro e por fora, a vida da idade Média, riria da pequice (tolice) com que atribuímos valor político ao bobo [...] O bobo, que habitava nos paços dos reis e barões, desempenhava um terrível ministério. Era ao mesmo tempo juiz e algoz; mas julgando, sem processo, no seu foro íntimo, e pregando, não o corpo, mas o espírito do criminoso no potro 3 imaterial do vilipêndio [...] O bufão tomava ao acaso o temor que infundia o príncipe, o barão ou o ilustre cavaleiro, e tocando-os com a ponta da sua palheta (taco), ou fazendo-os voltear nos tintinábulos (sinetas) do seu adufe (pandeiro), convertia esse temor e respeito numa coisa truanesca e ridícula." (HERCULANO, 1967, pp. 23-26).

O dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) confere ao maninelo ("idiota") da corte papel principal em sua obra Rei Lear. "[...] O Bobo para o Rei Lear: ‘A verdade é uma cadela que se obriga a entrar no canil... Chicote em seu lombo! Mas a cadelinha (hipocrisia), Lady, essa tem licença de ficar à lareira e de incomodar o nariz dos patrões... [...] O Bobo para o conde de Kent: ‘Os senhores e os grandes não querem permitir-me que eu seja inteiramente tolo; se eu tivesse o monopólio da asneira, pretenderiam obter uma parte para si; e as senhoras também. Elas não querem que eu guarde para mim só a tolice e apanham-me as migalhas’ [...] O Bobo para o Rei: ‘Pergunto-me a mim mesmo que parentesco existe entre ti e tuas filhas; elas ameaçam-me com chicotadas se lhes digo a verdade; tu queres mandar açoitar-me se digo mentiras; e mesmo às vezes sou vergastado porque não digo coisa alguma. Preferia ser qualquer outra coisa a ser bobo...’ [...] O Bobo ainda para o Rei: ‘Sabes por que nós temos o nariz no meio da cara? Para ter os olhos abertos de ambos os lados do nariz e assim o homem possa ver o que não puder cheirar.’" (SHAKESPEARE, 1949, pp. 166, 168, 169 e 177).

O historiador francês Georges Minois, na densa obra História do Riso e do Escárnio, declina interessantíssimos aspectos dos bufões – ou de tudo aquilo que lhes diz respeito - da Antiga Grécia e sua conturbada relação com os meios intelectuais e com a alta sociedade da época. "A bufonaria nas Antestérias, os indivíduos, em cima de carroças, caçoavam e provocavam os passantes; quando a procissão dos mistérios de Elêusis passava a ponte do rio Kéfisos, uma prostituta velada gritava graçolas para cidadãos conhecidos, chamando-os pelo nome [...] O tirano de Siracusa, Agatocles, não desdenhava de ser, ele próprio, o bufão, mas este, em geral, era profissional, e alguns se tornaram famosos, como Eudikos, no século IV a.C., particularmente apreciado por suas imitações de lutadores [...] Existia mesmo em Atenas um clube de bufões, os Sessenta, atestado no século IV a.C.; a reunião era no santuário de Héracles (em latim, Hércules), na Diomeia, nos arredores da cidade. Seus membros pertenciam à alta sociedade, como Calimedon, afetado por estrabismo divergente. A fama de boa companhia desses palhaços amadores era considerável [...] Filipe da Macedônia (pai de Alexandre O Grande) os recompensava com um talento [...] Demócrito de Abdera era conhecido como o filósofo hilário, talvez fosse porque ele zombava da estupidez de seus compatriotas [...] Condenação do riso grosseiro e uso do riso sutil: eis duas das lições de Xenofonte, que dá prioridade à ironia para um objetivo moral e intelectual. Zombar dos vícios e dos erros para atingir a virtude e o conhecimento." (MINOIS, 2003, pp. 55-60).
Minois segue a nos brindar com a postura de Aristóteles acerca da superioridade do sorriso discreto em uso conjugado com uma sutil ironia: "A ironia convém melhor ao homem livre que à bufonaria, já que o homem livre diz a pilhéria para seu próprio prazer, ao passo que o bufão a diz para o prazer do outro".(MINOIS, 2003, p. 60).

O sapientíssimo filósofo macedônio ensina-nos que devemos ser comedidos ao rir, senão podemos vestir a máscara da estupidez mais rasteira: "[...] Aqueles que levam a jocosidade ao excesso são considerados bufões vulgares; são os que procuram provocar o riso a qualquer preço e, na sua ânsia de fazer rir, não se preocupam com a inconveniência do que dizem nem em evitar o mal-estar daqueles que elegem como objetos de seus chistes..." (ARISTÓTELES, 2001, p. 96). Rir é necessário, é humano, é natural, mas, se deve agir com moderação e muito muito zelo para que tal lépido ato não se transforme em um mal terrível ou em uma arma inoportuna causadora de conflitos e discórdias.

O ditado latino: Risus abundat in ore stultorum ("o riso é abundante na boca dos tolos"), alerta para o cuidado que as pessoas precisam tomar em relação ao riso, "afirmando que o homem desprezível e de mau gosto ri em qualquer ocasião" (TOSI, 2000, p. 187). Soltar risadas é salutar, faz bem para o espírito, alivia as tensões e angústias; às vezes, ajuda a suportar até os momentos mais amargos do destino humano. Assim como os bobos da corte, de todas as épocas, todo o ser humano, ainda hoje, não passa de um cruel chocarreiro, ou seja, de um ser "que não resiste à vontade de gracejar, e para provocar o riso não poupa nem a si nem aos outros" (ARISTÓTELES, 2001, p. 97). O gracejo - em seus infinitos graus de malevolência intencional ou não – está extraordinariamente imbuído no caráter do homo sapiens, o que poderia levar à criação de um novo (e sexto) sentido: o da hilaridade ou da vontade de rir. O que se lastima profunda e incompreensivelmente, contudo, é a vontade de magoar que sempre acompanha essa alegria. Todos nós somos, ao mesmo tempo, construtores ("fazedores") e espectadores de grotescos bobos da corte, ou roubando deles a implacável função de acusadores ("apontadores") da estupidez humana, ou também lhes servindo de bigorna - ou de prego, fica a gosto - de suas justiceiras marteladas.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda, 2001.
HERCULANO, Alexandre. O Bôbo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967.
MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Editora Unesp, 2003.
TOSI, Renzo. Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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23/05/2011 - 00:33
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"Morte, não sejas orgulhosa, embora alguns te chamem de poderosa e
temível, pois tal não és. Pois não morrerão, pobre Morte, aqueles a quem deve
derrubar; nem a mim ainda podes matar. Do Sono e Repouso, que em tuas
imagens existem, muito prazer se tira, muito mais de ti há de fluir; e nossos
melhores homens em breve partirão, na tua companhia, descansando os ossos,
libertando as almas! São escravos do destino, do acaso, reis e homens
desesperados; convivem com o veneno, a guerra e a doença; as drogas e
encantamentos podem nos fazer dormir tão bem, melhor que o teu próprio
golpe. Por que então temer? Um curto sono passa e despertamos na eternidade,
a Morte não mais existe: Morte, tu hás de morrer!" (1)


Costuma-se dizer que a morte é o axial motivo do aparecimento das ideias
filosóficas e religiosas mais primitivas. Está aí uma bela – e muitíssimo
interessante – asseveração (afirmação segura). A questão do exício (ou da
morte humana) assombra e fascina os povos da Terra, sem exceção, desde a
Antiguidade. Esse elo fantástico entre os mundos inferior e superior dos mortais
– e o exponencial simbolismo que evoca - rege todo o comportamento e todas
as ações dos homens, determinando os seus destinos.

Na Idade Média, a visão e a maneira de representar a morte ainda está repleta
de alegria e de inquebrantável caráter coletivo - como, por exemplo, nas
chamadas danças macabras (ou danças da morte) - o que é corrente até a
chegada do século XVI, quando o fim da vida (morte) recebe uma nova
roupagem. Os europeus ocidentais, nesses tempos, acham-se muito
familiarizados com o teatro grupal da morte. A função cênica é utilizada como
um meio eficiente de catequização e as encenações de mistérios e passagens
bíblicas ocupam espaços importantes nos banquetes e festas populares.

O filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007) defende a tese de
que a moderna concepção imagética da morte vem a substituir a foice e o
relógio, assim como os Cavaleiros do Apocalipse. É a era "da economia política
da salvação individual", em que a instituição do novo modelo de morte consagra
o poder do Estado e da (s) Igreja (s) – ironicamente - através do Racionalismo,
determinando o "inferno psicológico".

Ao adquirir uma feição humana, a morte adota a discriminação social dos vivos e
a transporta para os mortos e para os morituros (aqueles que vão morrer). As
pessoas devem acumular bens materiais, devem realizar ações coletivas de
obras beneficentes, devem obtusa obediência às normas vigentes e, sobretudo,
devem contribuir econômica e financeiramente para as instituições que
monopolizam a passagem do mundo terrestre ao reino do céu ou ao além.

Enquanto isso, o homem encontra-se só e há de permanecer sofrendo
individualmente, em sua interiorização psicológica. É a economia política da
salvação individual "baudrillardiana" que permanece atual e nunca jamais tão
agressiva, muito bem implantada em um incrível sistema de controle social.
Estabelece-se o agrilhoamento da morte livre – ou particular, que cada um
pudesse escolher - às normas de uma socialização repressiva dos modos de
vida; o que, aliás, não é nenhuma novidade entre as sociedades "humanais". Há
que se exercer total – e inquestionável – domínio sobre as relações mundanas
dos homens, ainda vivos, e estes com os já falecidos, transformando esse
espaço de tempo intermediário (ou seja, o interlúdio entre a vida e a morte
humana) em um lucrativo comércio de bens materiais e do espírito/alma.

No meio de todo esse inter-relacionamento universal, os mercados socioculturais,
econômicos, ideológicos e religiosos, aqueles (as) que não seguem a crença em
um Deus ou em divindades (ou forças, energias) sobrenaturais são tachados de
ateus. A recusa do ateísmo em servir, docilmente, às opiniões constituídas e
generalizadas do senso comum é sempre um incômodo, e para os seus
"praticantes" a morte é uma consequência óbvia da existência animal ou vegetal
que continua e sobrevive indefinidamente, transfigurando-se em outro tipo de
matéria. Esta morte converte-se em algo inacabável. Ao contrário, os tementes a
Deus dizem crer que da vida terrena advém um paraíso, ou um reino celeste ou
um mundo especial... é quando, inevitavelmente, a Morte morre.





1) Versos do poeta inglês John Donne (1572-1631).

2) O Racionalismo, basicamente, transporta a ideia de que os sentidos
são primários com respeito ao conhecimento. Está mais associado ao grupo de
filósofos, do século XVII, como Descartes, Spinoza, Leibniz, Malebranche.
Contudo, tais pensadores não rejeitam totalmente os sentidos, atribuindo-lhes
importância em determinados momentos da vida humana; Spinoza, por
exemplo, "sugere que os sentidos podem ser meios auxiliares para o
conhecimento autêntico, mas são imperfeitos e muito menos valiosos"
(Dicionário de Filosofia de Cambridge, 2006, p. 789).

3) Faz-se mister diferenciar Além ou Mundo do Além de Outro Mundo. O
primeiro refere-se "ao domínio misterioso para onde se encaminham todos os
homens após a morte", aí se encontram as trevas. "Do além, a não ser em
circunstâncias especiais (reencarnação, Teseu, Orfeu, Eneias, Héracles...)
ninguém sai ou volta." O outro mundo constitui-se de luz, aí habitam os deuses
de todos os povos, incluindo os greco-romanos. Pode-se afirmar que seja um
"duplo" do nosso próprio universo terrestre (BRANDÃO, 1997, p. 313).






REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. A Troca Simbólica e a Morte. São Paulo (SP): Edições
Loyola, 1996.

A Troca Simbólica e a Morte – parte 2. Lisboa (Portugal): Edições 70, [19--].
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. 11.ed. Petrópolis (RJ): Editora
Vozes Ltda, v.1, 1997.

Dicionário de Filosofia de Cambridge. Trad. João Paixão Netto; Edwino Aloysius
Royer et al., São Paulo (SP): Paulus, 2006.

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Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015).



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