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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
15/09/2010 - 10:03
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Os gregos criam as Eurínies (as) ou as Eumênides, que os romanos transformam nas três Fúrias (Tisífone, Megera e Alecto) e, há milênios, as sobras da humanidade vêm incumbindo-se, diga-se de passagem, com inexorável maestria: de espalhar o ódio, a cólera e o furor (ruim) por todos os cantos do nosso manjado admirável mundo novo



Fúria, o "Aurélião" (dicionário) define-a como: ira, agitação violenta ou entusiasmo; Ambrose Gwinett Bierce (pensador e jornalista americano, 1842 – 1914) como: ódio ou "o sentimento reservado para ocasião de superioridade de alguém", isto é, da vantagem de alguém sobre outros pobres mortais.

Os antigos gregos – que pensam muito e têm resposta para quase tudo – costumam arremessar o furor (ou a raiva) contra as pessoas sob a forma da própria divindade alegórica Fúria ou através de um convite às Harpias (seres alados monstruosos, sempre famintos, com: corpo de abutre, rosto de senhoras pouco sociáveis, garras medonhas e um péssimo humor) ou às Eurínies. Tem-se um exemplo clássico na loucura que atinge o maior herói semideus de todos os tempos: Hércules (ou Alcides, ou ainda Héracles em grego), quando Juno (Hera) ordena à deidade Fúria e à Demência que o castiguem, insuflando-lhe um desejo incontrolável de matar a flechadas alguns de seus filhos.

Gottfried Wilhelm Leibniz (filósofo alemão, 1646 – 1716) - em sua obra Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, Livro II, capítulo XIX - enuncia que o entusiasmo do homem está ligado ao seu espírito de dominação no subconsciente. Os gregos, pra variar, já diziam que ficar entusiasmado seria o mesmo que possuir um deus ou uma divindade "dentro de si" e que o êxtase, que pudesse segui-lo, seria um estado de euforia ou embriaguez que, literalmente, significava "sair de si", para fora. Muito interessante essa coexistência de dois sentimentos humanos tão íntimos e ambivalentes, podendo tornar-se opostos ao mesmo tempo.

A fúria (benéfica, não a destrutiva) é uma questão de vida ou morte no universo do mais denso e impetuoso gênero musical que se tem notícia: o Heavy Metal. Faz-se vital a perpetuação de uma imagem de puro dinamismo para aqueles veteranos grupos desejosos de manter a sua clientela de fãs ou para as bandas principiantes ansiosas de construir o seu próprio público. O visual é essencial, mas a performance em concertos "fechados" ou festivais ao ar livre é determinante, mesmo que as músicas (composições) atuais sejam infinitamente inferiores aos grandes clássicos já produzidos.

Por motivo de consciência pessoal, não vou listar os grupos que perderam a vontade ou o tesão de tocar e, por conseguinte, também a sua criatividade. Ocorre que a maioria dos músicos perdeu o entusiasmo e a empática interação com as plateias, estes artistas não se expressam mais com a natural alegria necessária. Posso apenas citar alguns grupos do Heavy Metal (como também do Hard Rock), que continuam a encantar pela "agressiva" postura em palco e pelo som "furioso" que ainda produzem, tais quais: o AC/DC, o Slayer, o Exodus, o Metallica, o WASP e o Judas Priest, e, outros que retornaram à ativa, carregando a mesma paixão de outrora, como: o Raven, o Foreigner, o Krokus e o Accept.

A vida sem ira, emoção e vontade, simplesmente, não se manifesta em toda a sua plenitude, pois se extingue o interesse na criação. E fúria e entusiasmo são elementos indispensáveis na constituição do Heavy Metal. É por isso que não se consegue amordaçar o Rock Pesado, nunca, ele é livre, independente; por isso ele vive a conquistar posições de destaque em vendas - a despeito da discriminação ainda sofrida por boa parte da crítica e da mídia nacional e do exterior -; e por isso, eternamente, ele cresce e adquire reformada robustez, granjeando o amor (simpatia) das novas gerações e prostra toda a teoria que o censura como causador de todos os problemas da juventude, e também da minha meia-idade.

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03/01/2010 - 21:32
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Desde as primícias da História da Humanidade, ou seja, do início da contagem regressiva para o Fim do Mundo - ou do Infortúnio da Natureza e Planeta Terra acelerado pela ação do homem -, o homo bobbus erectus (também conhecido como: de "quattrus") sapiens sapiens (Sabichão mesmo?!...) vem procurando responder às perguntas básicas: O que é a razão? A consciência? Quem sou? De onde venho? Para onde vou?... A esta última questão a resposta é óbvia: pro buraco! Ou, se preferirem: pro espaço!
A Filosofia - talvez a primeira ciência constituída – e seus seguidores mais bem-dispostos (os filósofos) vêm buscando pôr um pouco de ordem e organização no processo de estudar a variedade infinita de ideias e assuntos que dizem respeito à vida humana.
Missão impossível, haja vista as atividades normais da maioria esmagadora do "bicho (Que me perdoem todos os outros metazoários... Sem ofensa!) homem" limitadas a: passar o vizinho pra trás, mentir o tempo todo, disfarçar solidariedade, fingir bondade, gabar-se de qualquer "vantagem", maldizer até destruir os sonhos alheios, apressar a morte do testamenteiro (a) agonizante para rapinar o que estiver ao alcance (bem rapidinho) antes da chegada de outros (as) abutres (Agora que me perdoem as aves falconiformes da família dos vulturídeos!), etc., etc., etc. Uma autêntica feira macabra de vaidades!... Uma verdadeira e canibalesca festa ou gaudério de gentes, temperada com todos os quitutes e requintes de maldade idiossincrática humanal! Não à toa e absoluta razão, o sapientíssimo jornalista (avis raríssima no ramo, infelizmente) e paremiógrafo norte-americano Henry Louis Mencken (1880 -1956) assestava: "Na história humana não há registro de um filósofo feliz: só existem nos contos da carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídio; outros mandaram seus filhos porta afora e surraram suas mulheres. Não admira. Se você quiser descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos – o filósofo e o chimpanzé - sofrem como o diabo, mas nenhum dos dois consegue ganhar.".
Nem pode. Como alguém pode se sentir feliz ou satisfeito: assistindo aos noticiários, que apenas mostram violência, impunidade e injustiça das mais variadas matizes e tamanhos; ou vendo programas de "entretenimento", que tão-somente tratam de ridicularizar pessoas comuns (Do "povo"!) frente às câmeras, assim como de expor publicamente a vida – Por via de regra, pra lá de fútil, desgraciosa e superficial! - das celebridades e/ou "olimpianos" (as) universais... Impossível.
Contudo, Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) , um tremendo filósofo, cara "batuta" (gente boa) e cidadão romano (nascido em Córdoba, Espanha), pretendia encontrar uma fórmula para enfrentar os problemas da vida e da mortalidade. Bom, não era pra menos, tinha de ser otimista mesmo; afinal ele teve de encarar Calígula, Claúdio e Nero sucessivamente! Contrariando Mencken, afirmava: "O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os Deuses.". Inclino-me mais a dar ouvidos ao pensador estadunidense, mas Sêneca é merecedor de todo respeito e atenção.
A Humanidade sempre forneceu "finíssima" matéria-prima para os gênios da pena (hoje das tintas e das teclas de computador), tais quais: Homero (através da transmissão oral, supõe-se que era cego), Miguel de Cervantes, Molière, Jonathan Swift, Shakespeare, Voltaire, Balzac, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Paulo Francis e tantos outros "espíritos" iluminados. Recorro ao insubstituível Voltaire, quando dizia que nunca os filósofos seriam donos de igrejas ou seitas religiosas porque não escrevem para o povo e porque não são seus entusiastas. A salvação para toda essa porqueira (de novo peço desculpa, agora, aos mamíferos da ordem dos artiodáctilos, não ruminantes, ou aos suínos) mundial e globalizante pode vir através da Música. Passei por essa situação, na década de oitenta; eu e milhões e milhões e milhões de outros garotos. Atualmente, somos senhores. Na época, era o nosso Velho Testamento: o Rock and Roll e o Hard Rock dos anos 70 e o nosso Novo Testamento: o contagiante Heavy Metal "oitentista"!
Muito bem diz Ben McCrow (vocalista do grupo The Rotted): "(...) Heavy Metal é um modo de viver, de pensar, de recusar todo o lixo que a sociedade mainstream tenta nos empurrar goela abaixo.".
A professora e escritora Rachael Sotos (do Departamento de Ciências Humanas, The New School, New York, NY) também dá o seu recado: "O Rock and Roll sempre foi uma música de liberdade, tratando da expressão da liberdade nas mais variadas formas: desejo sexual, não-conformismo e rebeldia".
Não raro questionam-me a respeito da antinomia (contradição) que poderia existir entre duas grandes paixões minhas: a Literatura Clássica e o Hard Rock/Heavy Metal. Fácil, "molim-molim" de responder. Em primeiro lugar, sofro afirmando que, se alguém, ainda, no século XXI - era da comunicação fácil e irrestrita – nunca chegou a conhecer direito ou a conversar com um fã de Heavy Metal é... Um alienado ou uma alienada. Em segundo e último, os maiores autores de todos os tempos, assim como os verdadeiros amantes do Rock Pesado hoje, faziam correr em suas veias a sublime, combativa e majestosa seiva do não-conformismo, eterno e poderoso antídoto contra o servilismo mental e perceptivo (relativo aos sentidos) sempre tão em moda.
Encerro essa segunda viagem pelo onírico universo infinito do Heavy Metal, da Grande Literatura e da Filosofia com as palavras mortuárias do imortal escritor irlandês, autor de Viagens de Gulliver :

"Aqui jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral (Saint Patrick em Dublin, Irlanda), onde colérica indignação não poderá jamais dilacerar seu coração. Segue passante, e imita, se puderes, este que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade".
07/06/2009 - 17:12
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Idiota. "Substantivo. Membro de uma vasta e poderosa tribo cuja influência nos assuntos humanos tem sido sempre dominante e controladora. A atividade do (a) idiota não se limita a nenhum campo especial de pensamento ou ação, mas ‘impregna e controla o todo’. Sempre tem a última palavra; sua decisão é inapelável. Estabelece modas de opinião e gosto, dita as regras da linguagem e circunscreve os limites da conduta." - Ambrose Gwinett Bierce (1842-1914)


O fulano (ou fulana), acima mencionado, classifica as pessoas em todas as áreas humanas conhecidas, tendo uma queda especial no campo da Música. Canso-me de ouvir baboseiras, lelequices, estupidezes e papalvices da ordem de: "Essa música de louco, esse Rock Pauleira!"; "Nossa, esse som é coisa do Diabo!";... Nocivas e infantis maledicências pronunciadas por papalvos dislógicos (01) [autênticos simulacros mal-acabados de panteístas (02) e/ou panenteístas (03) de araque] que, infelizmente, influenciam no discernimento de boa parte da população.

"(...) Quando o diabo Música, o demônio que agita um feixe cintilante de trinados e de harpejos, se apossou do pobre mudo, então lhe voltou a felicidade, esqueceu tudo, e o seu coração que se dilatava fez-se expandir o rosto.(04)". Victor-Marie Hugo (um dos maiores escritores de todos os tempos, 1802-1885) transcreve estas palavras de forma magnífica, demonstrando como a Música pode aliviar a dor de qualquer ser humano, até mesmo do totalmente disforme (e discriminado) personagem Quasímodo. Hugo aproveita, destarte, para sugerir a Música como um excelente substituto de dispendioso tratamento médico-psicológico, acalmando o ouvinte.

O célebre escritor francês, também, critica o hábito de atribuir à Música – eu acrescentaria: a certos estilos musicais – uma feição negativa ou demoníaca pelas reações físicas e emocionais que pudesse provocar nas pessoas. É uma questão que já vem sendo discutida por filósofos contemporâneos e clássicos (como: Aristóteles, Platão, Schopenhauer, etc.) ab initio (05) e continuará ad multos annos (06)!

"Em suma, os efeitos emocionais de você ouvir Rock são complexos, e as conseqüências morais generalizadas de experimentar essas emoções ainda não foram plenamente demonstradas." (FUDGE, Robert, Sussurrando coisas em meu cérebro: Metallica, emoção e moralidade apud IRWIN, William, Metallica e a Filosofia (Madras Editora LTDA, São Paulo-SP, 2008, pp.19, 24 e 25).

Tal qual antigamente – na época da caça às bruxas e feiticeiros, quando era praxe (e aceitável) condenar homens e mulheres ao fogo por cumplicidade de sortilégio com bodes ou cabras – criou-se a triste (e covarde) mania de discriminar gente em razão de preferência ou gosto musical. No Brasil, sempre, foi comum enxovalhar alguém que preferisse o Rock (no caso: o Heavy Metal) à MPB, por exemplo. Puro chauvinismo barato e retrógrado, embandeirado (e generalizado) por alguns nacos da imprensa ou como diria Henry L. Mencken (1880-1935): "(...) Por uma chusma de bestas comparáveis aos homens que pensam por nós...".

O Rock é o gênero musical mais popular e mais difundido no Planeta. Há mais de cinqüenta anos vem encantando geração a geração. Os artistas e/ou grupos de Rock detêm as mais significativas marcas universais de vendagem de camisetas, adesivos, LPs, CDs, DVDs, VHs, enfim, de todos os produtos mercadológicos possíveis. O Brasil - malgrado a diferença lingüística (o idioma oficial do Rock é o inglês) e da "Inquisição MPBista" reforçada, recentemente, pela onda Sertaneja – ocupa lugar de destaque entre os principais consumidores de Heavy Metal.

A título de ilustração, aparecem algumas cidades brasileiras (Vão ser sortudos assim na China!!!) e São Paulo que – com muita freqüência, mas pouco se lixando com a crise nacional ou mundial – recebem excepcionalmente bem: o Iron Maiden (em março de 2008); o Ozzy Osbourne (em abril) ; o Queen (em novembro); e o Kiss em abril último (2009). Em todos os estádios e/ou ginásios nos quais esses monstros sagrados do Hard Rock/Heavy Metal internacional se apresentaram, via-se uma harmoniosa conjunção de crianças, adolescentes, adultos, senhoras e senhores. Vinte, trinta ou quarenta mil pessoas, de uma só vez, em cada show! Tantos seres humanos unidos deveriam gerar muita confusão e violência. Claro, tratando-se de gente "normal" talvez, mas não de roqueiros (as). Durante todas as citadas apresentações a Polícia Militar registrou uma única assustadora ocorrência... De uma chave de carro perdida.

NOTAS

(01) Dislogia. Perturbação medicinal do poder de raciocínio por razão de alterações mentais.
(02) Panteísmo. Geralmente associado à idéia de que Deus se identifica com tudo.
(03) Panenteísmo. Quase sinônimo de Panteísmo, confere a idéia de que Deus está em todas as coisas.
(04) HUGO, Victor-Marie. In: O Corcunda de Notre Dame. São Paulo-SP, Edições O Livreiro LTDA, p. 209.
(05) Desde o começo.
(06) Por muitos anos.
05/03/2009 - 00:09
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Um pouco de parêmias espirituosas pra começar.

"A verdade se torna injustiça, referindo-se às profundezas da personalidade de outro." – Mikhail Bakhtin (1895-1975); crítico literário, filósofo e semioticista russo.
"Verdade: engenhosa mistura de desejo e aparência." – Ambrose Gwinett Bierce (1842-1914); militar, correspondente de guerra e escritor norte-americano.

"Todas as mentiras juntas não equivalem a uma única verdade.
As raízes da falsidade são arrancadas com a verdade.
A verdade não tem pavor; a mentira e a falsidade não têm coragem.
A verdade é sempre sã."
– Ramon Llull (1232-1315); escritor e filósofo nascido em Palma (ilhas Baleares).
"A verdade é sempre mal recebida, o erro é acolhido de braços abertos. Qualquer um (uma) que invente uma nova imbecilidade obtém salva de palmas e se torna o dono da verdade; para as grandes massas, ele (a) é o ‘beau’ (bom) ideal da humanidade." – Henry Louis Mencken (1880-1956); jornalista, escritor e crítico (sardônico de tudo) norte-americano.

Verdade. Segundo o dicionário é aquilo que está em conformidade com a exatidão ou a realidade. Não é simples?... Antes (ao contrário)... É de lascar! Não sabemos sequer o que é real!!!
"Quid est veritas?", isto é: "O que é a verdade?". Pilatos assim perguntou a Jesus quando este lhe disse que viera para dar testemunho da Verdade. Aqui cabe outra discussão: da acepção da verdade como entidade absoluta e divina (de dimensão teológica ou religiosa), contrastando ao entendimento racional, vinculado a dados concretos de fato. O significado de verdade (e de seus dois valores clássicos: verdadeiro e falso) dá pano para mangas do tamanho da imaginação humana; não tem limite.
Os prístinos gregos – mestres insuperáveis na arte da alegoria - conferem à divindade Verdade a aparência de uma mulher modesta que traz um livro aberto em uma das mãos (Será que daí sucede a expressão: "Ser um livro aberto"?). A Verdade tem a Virtude como filha, esta é representada como outra mulher da mesma forma simples e modesta, vestida de branco e cujo porte impõe respeito; encontra-se sentada sobre uma pedra quadrada (indicando solidez) e apresenta asas abertas, significando que ela se eleva acima do vulgar.
Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) e Baruch ou Benedict de Spinoza (1632-1677) acreditavam que o homem só poderia ser considerado como um ser racional superior aos demais bichos porque dispõe do poder belo e legítimo de agir bem e devidamente, ou seja, dispõe de virtudes morais. Aristóteles (384-322 a.C.), antes do francês e do holandês citados, já ensinava à patuléia boquiaberta que: "A virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem". Baldado esforço aristotélico... O homem não aprendeu, até hoje, a fazer bom uso das virtudes (polidez, amor, fidelidade, boa-fé, justiça, gratidão, etc.).

Bierce e Mencken – duas mentes homéricas – fazem as vezes de pajens ao incomparável pensador alemão Nietzsche acerca da verdade e da sua grudenta (e incômoda) irmãzinha: a mentira.
"O homem que se gaba de só dizer a verdade é, simplesmente, um homem sem nenhum respeito por ela... (...) Para cada pilha (montão) dela, há o túmulo de um ‘bravo dono da verdade’ sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno." (Mencken.)
Deduzo que, por trás de um grande paladino da verdade, acha-se sim: um tremendo mentiroso.



...


Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extramoral,
ensaio de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.


Assim começa a História do Gênero Humano nietzschiana: "Havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da História Universal: mas também foi somente um minuto".
A patetice e o orgulho do homo sapiens sapiens são tão acentuados que ele acredita ser o centro e a medida do Universo. Tamanha soberba não passa de uma: "Nuvem de cegueira pousada em cima dos olhos e sentidos dos homens, enganados a respeito do significado da existência, ao trazer em si, a mais lisonjeira das estimativas de valor sobre o próprio conhecer". Conseqüentemente, tudo o que o homem – e a mulher – faz gira em torno da vaidade.
"O que sabe propriamente o homem sobre si mesmo?!..." Nada, óbvio! Ordena uma carrada de regras e procedimentos com o intuito de criar uma sensação de verdade, isto é, "(...) Uma designação universalmente válida e obrigatória das coisas..." às suas ilusões e imagens de sonho.
Qual hiena amebóide cênica, o indivíduo usa o intelecto apenas para representar, para existir no seio de seus iguais, socialmente e em jericada. Ele necessita de paz (que é tão-somente uma palavra, consoante Bierce: "Em política internacional, um período de trapaças entre dois períodos de guerra") para vegetar em seu mundo humanal regido pela sentença: "Bellum omnium contra omnes" ("Guerra de todos contra todos"), sabiamente, elaborada pelo filósofo, matemático e pensador político inglês Thomas Hobbes (1588-1679), que busca fonte inspiratória em Platão (429-347 a.C.). O filósofo grego já anunciava: "Para todas (as cidades) há uma guerra contínua contra todas as cidades".
A miseranda criatura bípede (pelo menos no tempo em que se encontra de pé) só aceita as verdades que lhe são favoráveis, agradáveis ou que lhe apresente alguma vantagem; nem sequer incomoda-se cair num logro: "Os homens, nisso, não procuram tanto evitar serem enganados, quanto serem prejudicados pelo engano... (...) Diante do conhecimento puro, sem conseqüência, ele (o homem) é indiferente...". Em face das verdades anunciadoras de desgraças inevitáveis, prefere ignorá-las, ou então, demonstrar-lhes aversão.
A raça humana divide tudo em gêneros. Vê a árvore como feminina e o vegetal como masculino. HUMPF, HUMPF, HUMPF... Que descabida petulância!!! "Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos das árvores, cores, neve e flores, não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem...".




"Todo conceito nasce por igualação do não-igual... (...) Desperta então a representação, como se na Natureza além das folhas houvesse algo, que fosse ‘folha’, uma espécie de folha primordial, segundo a qual todas as folhas fossem tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas, pintadas, mas por mãos inábeis, de tal modo que nenhum exemplar tivesse saído correto e fidedigno como cópia fiel da forma primordial...". Na Natureza não existe nenhuma igualdade absoluta, ela tampouco, reconhece formas ou conceitos, por exemplo: um mapacá-de-cametá é diferente de outro mapacá-de-cametá, e assim acontece com tudo aquilo que respira e com tudo aquilo que não tem vida. Nietzsche acusa o bípede implume (ser humano) de construir conceitos no instante em que desconsidera o "individual" e o "efetivo" (coisa que merece confiança, que se manifesta por um efeito real), inventando formas e gêneros para se referir a qualquer objeto: "(...) Não sabemos nada de uma qualidade essencial...". Em suma, o Mundo – sob a tirania dos humanóides – padece com as classificações antropomórficas de seus senhores.
A verdade, portanto, é um batalhão de metáforas, metonímias e antropomorfismos (um somatório de relações humanas); uma mania infeliz de aplicar conceitos e definições ao Mundo e aos seus inquilinos sólidos, líquidos e gasosos.
"As verdades são ilusões..." O que dizer então das "leis da verdade" sempre presentes em todas as sociedades humanas do Planeta?!?!?!?! O que dizer então dos (as) pentelhos (as) anagógicos – impregnados de êxtase divino - que visitam os lares de seus desditosos vizinhos aporrinhando-os com suas orações milagreiras ambulantes e seus exorcismos baratos?!?!?!?! O que dizer então dos encantadores de homens que com sua oratória, ainda, conseguem angariar votos que lhes legitimam poder e fortuna?!?!?!?! Todos se autoproclamando franquiados de Deus na Terra. Ditam leis, desse e de outro Mundo. Impõem regras sociais, demarcando subordinações e limites hierárquicos. Estabelecem castas, fomentando a segregação e o desprezo coletivo. Criam privilégios "inquestionáveis" para si, e, duramente, julgam e condenam todos (os) aqueles (as) – autênticos mártires – que não se rendem aos seus nefastos serviços.
"A verdade não tem importância; verdades indubitáveis, objetivas e eternas não são reconhecíveis; a verdade é sempre subjetiva." (Nietzsche.)
"A verdade é construída, manipulada." (Michel Foucault, historiador e filósofo francês.)
A mentira é um instrumento verbal empregado pelas pessoas: "(...) Para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo...". Sua função: enganar o próximo.
A convivência manadia estabelece o compromisso de mentir (conforme convenções rígidas): "(...) Mentir em rebanho", ou seja, de uma maneira generalizada, em um estilo obrigatório para todos, seguindo hábitos transmitidos de geração a geração. Inconscientemente, o homem vem mentindo desde que se conhece por gente. "(...) E justamente por essa inconsciência, justamente por esse esquecimento, chega ao sentimento da verdade..."

... Que é uma mentira deslavada.
22/11/2008 - 11:45
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Dando seqüência ao receptáculo de absurdos, tecerei um breve comentário sobre outro fato (Outra Lenda, obviamente!) que teria transcorrido numa cidade muito importante, de um mundo distante e fantástico, envolvendo criaturas de seu "grand monde" (alta sociedade)


Tariii Tarááá, pobre pobre Filosofia!!!... Bando de letrinhas que etimologicamente carrega os termos gregos: filos (amigo) e sofia (sabedoria). Heródoto de Halicarnasso (484 – 425 a.C.) teria, pela primeira vez, utilizado-a sob a forma verbal: "filosofar", querendo dizer: "empregar todas as forças por obter conhecimentos". Um século antes, Pitágoras de Samos já havia se assenhoreado do vocábulo para descrever o seu próprio ofício: "de alguém que vive a estudar e a pregar a sabedoria". Sem dúvida, já naquela época, os sábios-professores procuravam abrir os olhos de seus seguidores e de todas as gentes, atingindo, na verdade, um reduzidíssimo grupo de ouvintes. De lá pra cá a quantidade de néscios ("tongos" e "dârdi-dârdis") vem povoando a Terra em progressão geométrica, deixando aqueles (as) que buscam colocar em prática a arte de viver bem (e de permitir o mesmo para o próximo) - o que trata a Filosofia -, sempre, sufocados numericamente em bastiões isolados. Bom, só para completar esse primeiro parágrafo, admite-se que o primeiro filósofo grego tenha sido Tales de Mileto (por volta de 624 – 546 a.C.), um dos integrantes da controversa lista dos chamados "Sete Sábios da Grécia".

Num tempo em que não havia telescópio, microscópio, nenhuma máquina que pudesse auxiliar o homem em suas pesquisas e descobertas científicas, Tales – apenas com o seu cérebro e capacidade imagética e de observação – prenunciou que todas as coisas advêm da substância original: água. Ora, até nos dias hodiernos a teoria mais aceitável sobre a origem das espécies animais confirma a hipótese talética. É mole?! Querem mais? Existiu um outro "doido" (filósofo, pra variar), trácio de nascimento, que aprendera com o mestre Leucipo (V século antes de Cristo): o Atomismo, e o elaborou e sistematizou; seu nome: Demócrito (c. 460 – 370 a.C.). Os dois presumiram a existência do átomo! Demócrito teve também o vislumbre de declarar com convicção que as coisas vivas (incluindo os seres humanos), no princípio, brotaram da lama. Não sei se posso concordar com esta asseveração, mas tenho a certeza de que a besta humana muito fez para se encontrar atolado nela.

Vamos à atração principal: inegavelmente, a mais uma demonstração da idiossincrática capacidade "evolutiva" humana de superar as suas incríveis imbecilidades precedentes. Relata a tradição oral que numa cidade universalmente poderosa (o que em termos terráqueos poderia se equiparar, por exemplo, a: New York), um importante (e renomadíssimo, e reconhecidíssimo) "artista" organizou uma exposição de um modo "pós-ultramodernista jamais visto", literalmente. Escolheu um lugar chiquérrimo, convidou a fina flor da sociedade e imprensa badalativas, e apresentou as suas fantásticas obras (esculturas, pinturas) invisíveis à venda. Desnecessário dizer que foi um sucesso absoluto. O genial espertalhão (Oh, desculpem-me!): "artista" encheu os bolsos, os seus privilegiados admiradores ficaram felizes com todas as compras que puderam realizar. Que inveja de não fazer parte desse mundo utópico, perdendo a chance de adquirir maravilhosos objetos artísticos de alguém tão superior, e o melhor de tudo: pagando com meus soberanos (libras esterlinas) e/ou cartões de crédito... Invisíveis.
Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015).



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