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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
01/06/2008 - 11:44
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"As qualidades que deves ter são essas: ser desavergonhado e arrogante, insultar a todos igualmente, sem ter respeito por reis ou particulares; e assim todos te admirarão e te considerarão corajoso." (Diógenes em trecho da obra: Vidas à Venda ou Leilão dos Filósofos de Luciano de Samôsata, ou Samósata.)

O supracitado descaramento não deve ser visto como um conselho mal-intencionado, muito ao revés, o nosso genial sábio-maltrapilho ensina que o homem tem sempre a sua disposição o que é suficiente e necessário para viver. Não precisa ter pudor de usufruir as coisas que a Natureza lhe oferta, nem se encher de vergonha de praticar abertamente todos os atos fisiológicos, afinal de contas tudo o que é convencionado e determinado pelas sociedades não é natural, é desmerecedor de atenção, é supérfluo. Se Diógenes tem vontade de expelir um pum (estrondoso ou recatado), ele segue firme em seu propósito; se Diógenes sente fome, sobe nas árvores para apanhar seus frutos, ignorando marcas ou limites de propriedade; se Diógenes está cansado, enrodilha-se feito um tatuzinho em seu manto e adormece ali mesmo. Considera-se o homem mais livre e feliz da face da Terra, de tal maneira que escarnece do maior filósofo macedônio de todos os tempos: "Aristóteles pede permissão para tomar o seu café da manhã, almoçar e jantar, Diógenes come quando a vontade chega".

Proclama que a felicidade vem de dentro do indivíduo e não de fora. Ao observar uma criança beber na cavidade das mãos decide livrar-se de sua caneca, argumentando: "Um menino deu-me lição de simplicidade". Em seguida, depara-se com outro ente infantil que saboreia lentilhas no côncavo de um pedaço de pão (ignorando a utilidade de prato e talheres), Diógenes, igualmente, sente-se tentado a abandonar a sua bacia.

Alimenta-se daquilo que encontra. Solicita uma pequena casa, não atendem o seu pedido, resolve então residir dentro de um barril. Liberdade é a sua busca incansável em todos os níveis, é o seu modo de vida, e a Natureza representa e abriga tudo o que é bom e digno. Pela primeira vez na História Universal, ele emprega o termo "cidadão do Mundo", declarando-se um ser independente e cosmopolita. Curiosamente, ele poupa do sarcasmo a importância da criação de cidades e/ou sociedades organizadas apesar de ridicularizar profundamente as regras e convenções sociais.

Certa feita, indagaram-no a respeito da idade ideal em que alguém deveria casar-se, a resposta só podia ser curta, grossa e sincera: "Quando se é jovem, ainda não, quando se é velho, não mais". Fantástico, deita por terra qualquer contra-argumento hipócrita!

Como é de conhecimento geral, Alexandre "Magno" (356-323 a.C.) – considerado o maior gênio militar da Antigüidade – havia sido educado pelo eminente Aristóteles (384-322 a.C.). O implacável general estima em demasia o seu preceptor-filósofo, afirmando: "Amo-o tanto ou mais que o meu próprio pai (Filipe II, rei da Macedônia), porque este me deu a vida, aquele me ensinou a arte de viver". Em sua estada na cidade-estado grega de Corinto, Alexandre ordena que o conduzam até o estouvado filósofo-mendigo. O todo-poderoso macedônio - altivo e generoso - encontra Diógenes escarrapachado no chão "pegando um bronze" ao redor de sua residência fixa, uma enorme pipa. O monarca detém-se ante o nosso incorruptível herói, fazendo-lhe sombra, e anuncia: "Sou Alexandre III, Senhor do Mundo, peça o que quiser e atenderei o seu rogo". O esfarrapado volta-se para o onipotente "salvador", aponta o Sol e responde: "Ponha-te de lado; não me tires o que não me podes dar". Desnecessário dizer que os puxa-sacos da comitiva ficam indignados e pretendem reagir à insolência com a espada. Alexandre breca-os, comentando: "Este é o maior vitorioso de todos os homens, pois venceu a si mesmo, não precisa de absolutamente nada".

Alexandre sabe reconhecer e admirar um espírito elevado. Seus lacaios bajuladores continuam a zombar do genial esmolambado até o momento em que se volta para eles e silencia de modo decisivo a turbamulta, exclamando imperiosamente: "Se não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes!".

Aproximamo-nos do fim das infinitas observações que gostaria de tecer sobre Diógenes e o seu único e maravilhoso meio de vida. Convém falar de seu esbarrão com o bambambã da Filosofia mundial Platão (429-347 a.C.). Perambulando pelas ruas de Atenas, Diógenes assiste o renomadíssimo filósofo definindo o ser humano tal qual "um bípede implume". Rápido como um raio, corre para o mercado mais próximo, consegue um frangote, depena-o, cata o pobre e humilhado bicho pelo pescoço, conduz o desgraçado até Platão, e afirma: "Honorável Senhor, eis o seu homem!". Reza a lenda que, talvez, tenha sido esta a única vez que alguém conseguira desnortear, "vis-à-vis", o famosíssimo pensador.

Ora, ora, ora se não fosse a ganância ilimitada do homem (e da mulher), o nosso querido planeta Terra continuaria por muito tempo ainda saudável, com seu ar puro, matas exuberantes e verdes e águas límpidas. Mas não, dá-lhe poluição! Para quê? Como bem diz meu pai: "O homem acha que está a destruir a Natureza, na verdade, é ela que vai arruiná-lo, vingando-se ciclopicamente".
14/05/2008 - 12:43
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"Balanço festivamente a cauda para quem me dá alguma coisa, uivo contra quem não me dá nada, mordo os inescrupulosos"

Todas as cidades do Mundo, hoje, têm inveja de Sínope (Sinope ou Sinop) na costa turca do Mar Negro, porque é o local de nascimento do filósofo-mendigo grego Diógenes. Este sobre-humano e honorável ser teria existido entre 400 e 325 a.C. ou entre 413 e 323 a.C. Quantas "celebridades" universais poderiam gabar-se de possuir monumentos em sua homenagem erigidos em duas cidades distintas (lugar de nascença e óbito)? Diógenes pode. Sínope e Corinto (Grécia) levantam estátuas suas.

O ateniense Antístenes (445-360 ou 444-365 a.C.) é considerado o fundador da escola filosófica: Cinismo. Nome que se supõe derivar, segundo alguns autores, de um ginásio atlético (e santuário de Héracles, Hércules) chamado Cinosarges (em grego, Kynosarges), no qual Antístenes prega seus ensinamentos. Conforme outros, a derivação vem da palavra Kyon ("O Cão", o apelido de Diógenes); os filósofos que o sucedem receberiam a alcunha de cínicos, do grego kynikos, isto é: "como um cão" – "filósofos cães". Essa cachorrada toda, por sua vez, descende do grandioso Sócrate (470-399 a.C.), mestre de Antístenes.

As más-línguas atestam que o pai de Diógenes, que trabalhava na casa de cunhagem de moedas em Sínope, andava a falsificar dinheiro. Ofício seguido, e confessado, por seu filho. Mudam então para Atenas.

Nosso heróico e contumaz mendigo rapidamente se despoja de tudo para viver de acordo com a sua própria vontade. Despreza a opinião pública. Põe-se a flanar pelas ruas, infernizando todo o mundo. Carrega um manto forrado pela necessidade de usá-lo como cobertor, leva um bornal (saco de pano ou couro) em que enche de alimentos, e se serve de qualquer lugar para qualquer uso (fisiológico ou não: comer, dormir, conversar com as pessoas etc). "Descabelando o palhaço" (masturbando-se) em público, comenta: "Quem me dera pudesse aplacar a fome, esfregando-me o ventre".

Procura Antístenes que não o recebe com simpatia. Muito insiste, provocando a fúria do filósofo que ergue o bastão contra ele; Diógenes oferece-lhe o cocuruto, dizendo: "Podes bater, pois não encontrarás madeira tão dura que possa fazer-me desistir de conseguir que me digas algo, como me parece que deves". Destarte, obtém permissão para acompanhar de perto a sabedoria "antisteniana".

O mestre Antístenes já ensinava o "desdém pelo prazer". Via o apego ao deleite como alguma coisa nefasta que amolenta o físico e o espírito, colocando a liberdade em constante perigo. Diógenes acrescenta a isso o livramento das paixões.

O nosso andrajoso mocinho é um fantástico respondão, talvez, insuperável até agora. Sempre se defendendo de reprimendas e insultos. Certa ocasião, Diógenes era reprovado enquanto comia na praça do mercado, o que o fez desatar a língua: "Também na praça do mercado tive fome. Se comer não é estranho, nem mesmo na praça do mercado é estranho. Não é estranho comer, portanto, também não é estranho comer na praça do mercado".

Jogam-lhe ossos durante as refeições, Diógenes afasta-se e urina sobre eles, procedendo como um cão.

"Pede" esmola de maneira pouco convencional, na verdade, exige-a. Alega que é uma restituição, haja vista que tudo pertence aos Deuses, e estes são amigos dos sábios (como Diógenes). Ora, se os bens dos amigos são comuns, devem ser compartilhados, assim sendo, os sábios devem - como Diógenes, de novo – possuir todas as coisas. Que "figuraça"!

É convidado a entrar numa suntuosa mansão na qual o anfitrião proíbe-lhe de cuspir. Hã, prá quê?! Diógenes desembaraça as mucosidades da garganta no rosto do cidadão, e esclarece: "Desculpe-me, mas não encontro um lugar pior para atirar o meu pigarro".

A "anaídeia" (sem-vergonhismo) diogeniana é uma afronta direta e gritante a todas as regras impostas pelas sociedades. Diógenes sai a perambular pelos caminhos mundanos acompanhado de um cajado e de uma lanterna acesa à luz do dia, procurando um "homem verdadeiro"; alguém autêntico, que viva despreocupadamente livre de todas as convenções, que viva simplesmente em conformidade com a sua natureza genuína e assim seja feliz. O que Antístenes procura demonstrar na teoria, Diógenes escandaliza na prática.

No próximo capítulo, nosso "pit bull-pedinte-filósofo" vai desconcertar Platão, responder a Alexandre Magno...

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Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015).



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