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Sylvio do Amaral Schreiner
Sylvio do Amaral Schreiner
06/12/2019 - 14:23
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Sou uma mulher independente financeiramente e bem resolvida. Pelo menos eu acho. Só que na sexualidade não sou nada resolvida. Tenho 31 anos e nunca consegui ter um orgasmo até hoje. Nem sei se é possível eu ter orgasmos. Quando vou para a cama com um homem é mais para agradá-lo e fazer com que ele se interesse por mim do que por eu querer mesmo. É mais para ter o homem aos meus pés, sob meu controle. Eu queria gostar de sexo, mas não consigo. Quando um homem me abraça eu me sinto presa e enrijecida. Nunca sofri nenhum trauma, então não sei explicar de onde isso vem. A única coisa que eu penso é que como sou uma pessoa dedicada a espiritualidade pode ser que minhas meditações vêm tirando minha sexualidade. Isso é possível?

É grande o número de pessoas que são bem resolvidas intelectualmente e profissionalmente, mas não o são em sua sexualidade. A sexualidade está muito ligada à vida emocional. O que nos permite pensar que uma pessoa sem estar bem com sua sexualidade é porque não está bem emocionalmente e com seu lado mais pessoal e geralmente oculto. Nesses momentos de nada adianta ter uma vida intelectual desenvolvida porque não haverá uma "pessoa” de verdade para usufruir da vida. Precisamos sempre nos voltar ao nosso lado emocional uma hora ou outra.

Há vezes que o sexo, para as mulheres, é encarado como se fosse um trunfo que elas pudessem usar para conquistar os homens e agradá-los. Usa-se do sexo para conseguir a atenção de um homem e não como mais uma parte importante da vida psíquica para se ter uma vida plena. Quando o sexo é vivido desta maneira ele se torna uma arma e não mais um direito. A sexualidade fica, então, desconhecida e subutilizada.

Pixabay
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Também não sei explicar de onde vem esse seu bloqueio com o sexo, pois para isso necessita-se de mais informações. Agora, o que podemos pensar é que sexo é entrega emocional em grau profundo e que essa entrega nunca é fácil e não vem de graça, mas é conquistada. Entregar-se à própria sexualidade implica em abandonar os amores da infância e tornar-se adulto. Isso é difícil porque se por um lado desejamos crescer e nos entregar às novidades, por outro lidar com o medo do desconhecido traz angústias e ansiedades que não são fáceis de serem toleradas.

Daí, para não ter que suportar o que lhe é despertado quando alguém te abraça e te toca você fica enrijecida e congelada e perde uma parte importante da vida.

Não é a meditação nem o yoga que te priva da sexualidade, mas provavelmente o seu próprio medo. Que tal procurar por uma análise? Um lugar onde você possa ir criando uma pessoa adulta que não mais precise abdicar da sexualidade adulta? Sei que dá medo, afinal, crescer é sempre aterrorizador, mas chega uma hora que mais aterrorizador é ficar numa posição onde a vida não pode ser vivida plenamente. Chega um momento que não basta crescer apenas intelectualmente, mas através das próprias experiências de vida.
29/11/2019 - 10:14
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Encontro-me no início dos meus sessentas anos. Sempre fui dedicado intensamente ao meu trabalho e hoje percebo e admito que pouco dei atenção à minha família. Minha mulher, ou melhor, ex-mulher separou-se de mim e vive hoje com outra pessoa. Meus filhos, que pouco contato tive com eles na infância e adolescência não me procuram com frequência e sei que não se sentem tão confortável comigo. Enfim, percebo que agora que não mais trabalho, pois fui demitido por já ter atingido idade avançada e fui substituído por profissionais mais jovens, que nada tenho de verdade. Está certo que construí um bom patrimônio que me permite ter uma vida sem carências, mas fora isso não tenho nada absolutamente. Hoje me sinto solitário. Não sei o que fazer do meu tempo, não sei para que direção devo seguir. Acho que me desperdicei por todo esse tempo, sem nunca ter aproveitado as coisas que estavam ao meu alcance.

O balanço que você faz da sua vida lhe permite ver coisas que antes não lhe era possível. Provavelmente antes você usava de intensas defesas para não ter que entrar em contato com o que de fato sentia. Sua vida, pelo que entendo, tomou rumos que mais estavam ligados ao trabalho, ao acumular bens e ter o que muitos consideram sucesso. No entanto, o custo de ter se dedicado tão somente ao lado mais racional e intelectual da vida foi alto e hoje você paga o preço.

É claro que é preciso dar atenção à carreira e vida financeira. A única coisa, porém, é que isso não é tudo. Hoje você assim percebe, mas anteriormente isso não tinha como acontecer, pois seus olhos estavam fechados para tudo aquilo que te tirasse do que você considerava que era o seu caminho. Não percebeu os sinais de que sua esposa estava cansada dessa vida e nem se deu conta de que perdia momentos importantes nas vidas dos seus filhos. E o trabalho que parecia tudo lhe deu as costas, já que foi substituído. Apesar de tudo parecer escuro há luz no fim do túnel.

A luz está no fato de você tomar consciência dessas coisas e de ter até mesmo me escrito esse email contando da sua vida e da sua dor. Agora, isso tudo não deve ficar apenas por aí, mas deve ser colocado como uma nova oportunidade para se aprender a viver diferentemente. Ao que parece você é um homem que teve muitos desafios na vida, ao menos profissionais, e pode agora então enfrentar esse novos desafios pessoais. É uma chance de se reconstruir de uma nova maneira e que esta lhe seja finalmente favorável. Há vida pela frente e esta não pode ser desperdiçada.

A oportunidade que se lhe apresenta se bem usada pode lhe trazer uma riqueza que você antes nunca soube que poderia existir. Uma nova consciência pode lhe surgir e com ela novas maneiras de lidar com aspectos pessoais que antes foram negligenciados. É claro que houve perdas na sua vida e que é impossível voltar atrás e mudar a história. Entretanto, daqui em diante a história poderá ser outra. Está na hora agora, não de adquirir bens, mas de adquirir sabedoria, já que é só com esta última que a vida pode ser bem vivida e apreciada. Algumas oportunidades a gente não pode deixar passar.
08/11/2019 - 11:30
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Tenho 46 anos e sou muito bem de vida. Nunca casei e sempre tive mulheres a vontade e ao meu dispor. O que acontece é que sempre só saio com mulheres muito mais jovens do que eu e sempre foi assim na minha vida. Quando tinha 17 anos a menina com quem saía tinha 15, quando eu tinha 23 anos a menina tinha 18. Hoje saio com uma menina de 21 anos. Não consigo me relacionar com ninguém mais velha. Não quero parecer superficial e machista, mas até acho algumas mulheres mais velhas interessantes, mas é mais fácil ficar com as meninas mais novas. Estou te escrevendo porque não consigo pensar sobre o que isso seja, apesar de desconfiar da psicologia. Acho que cada um deve cuidar de si mesmo e que a psicologia é uma perda de tempo, afinal ela não tem como resolver o meu problema. Mas acho que preciso te perguntar o que você acha de mim.

Você considera a psicologia uma perda de tempo, mas precisa perguntar e pedir pelas palavras de um psicólogo. O que será que isso quer dizer? Provavelmente que você não desconsidera a psicologia tanto assim, mas que teme se relacionar com alguma pessoa fora do seu controle. Por isso prefere se relacionar com quem você tem algum tipo de domínio.

Relacionar-se com alguém mais jovem que você te dá mais controle sobre o relacionamento. Te dá mais poder e segurança. Aliás, não é bem mulheres mais jovens com quem você se relaciona, não é a idade que realmente é o ponto principal aqui, mas a ingenuidade. O que você procura nas meninas não é a tenra idade, mas o quanto elas são despreparadas nos relacionamentos e por isso mesmo facilmente manipuladas. Você sofre de paixão pelo controle.

Alguém que tenha mais experiência parece te assustar. Você foge de mulheres que estejam num nível de experiência mais elevado, apesar de achar algumas até interessantes, porque com estas você seria muito mais exigido num eventual relacionamento. E mais ainda, você também, com estas mulheres, não teria o controle absoluto. Não que você tenha o controle de fato com as mais jovens, mas é muito mais provável que você assim sinta e quando as mais ingênuas vão aprendendo as coisas é bem capaz do seu relacionamento terminar e você ir atrás de outra menina ingênua. Isso vira uma repetição sem fim e sem resultado algum.

Assim como você ousou se "abrir” com um psicólogo talvez possa aprender a se abrir mais em sua vida e procurar superar os medos que te impedem de viver um relacionamento mais verdadeiro. A grande verdade é que se relacionar não é mesmo fácil e é fonte de inúmeras angústias. O medo de que a gente vá sair machucado é grande e até mesmo real. Por outro lado, se imobilizar pelos medos nos faz perder experiências importantes na vida, que jamais deveríamos abrir mão. Está na hora de você decidir do que quer abrir mão: dos medos que sente ou de uma vida plena que pode viver?

Siga-me no Instagram @psicanalista.sylvioschreiner
01/11/2019 - 10:16
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Sou uma enfermeira particular e cuido de pessoas idosas e geralmente em estado terminal. Sou sozinha, nunca me casei e muitas vezes convivo mais com os idosos com quem trabalho do que com pessoas do meu círculo e idade. Sou religiosa e antigamente acreditava em deus e em sua misericórdia para conosco. Rezava com freqüência, mas ultimamente acho que perdi completamente a fé. Não acredito em mais nada e estou passando a acreditar que os ateus estão certos em afirmar que nada existe. Mas é muito ruim me sentir assim. A minha pergunta é: será que é possível acreditar em algo que possa me deixar feliz? Será que é possível preencher esse vazio que me oprime com alguma coisa, mas que não me faça cair no engano de que deus vai cuidar de mim?

Você tem um trabalho duro: cuidar de idosos em estado terminal. Convive com muitas dores, sofrimentos e sentimentos de dúvida em relação à vida. Provavelmente se encontra contaminada pelo desânimo e pela falta de esperança. Antes havia a ideia de deus para te trazer algum conforto, mas agora isso mudou e faz você se sentir perdida.

Para complicar ainda mais a situação você sofre de solidão. Há poucos vínculos saudáveis e alegres que possam te animar e trazer vitalidade para viver. As suas ligações com as pessoas que necessitam de cuidados são tênues e pesadas. Não favorecem a alegria que tanto te falta, mas te convidam ao estado de luto permanente. Quando o luto persiste além da conta a vida perde o seu melhor.

Só que nem tudo é tempo ruim. Parece que o sentimento de esperança enfraqueceu em você, mas não morreu. Tal como brasa que precisa de um sopro para acender, você precisa de algo para acreditar e poder se encantar e se animar. O que te falta acreditar é saber que a sua vida pode ser fonte de felicidade.

Ninguém vai e ninguém pode tomar conta da sua vida. Essa é uma tarefa que só cabe a você. Afinal, só você pode saber do seu caminho e qual a melhor maneira de trilhá-lo. A vida, certamente, tem muitos sofrimentos, mas pode ser encantadora e surpreendente. Precisa se permitir ver a vida de outro ponto de vista. Não há só uma única perspectiva, mas várias. Encontrar e desenvolver a sua é o melhor caminho que poderá pegar. Em outras palavras, você precisa aprender que a vida traz outras possibilidades que não apenas o luto. Procure ajuda de um analista que saiba te escutar para você aprender a se ouvir e construir internamente algo mais saudável a que se apegar.
25/10/2019 - 09:33
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Ilustração: Pixabay

Não entendo as pessoas. Elas querem a verdade, mas não a suportam. Eu sou uma pessoa direta, franca e falo mesmo o que me vem à cabeça. Não tenho medo de mostrar opinião e que sou geniosa. Só que isso me traz problemas, porque muita gente confunde meu jeito de ser com grosseria. Não suporto isso. Na minha família já tenho fama de má e grossa. Eu não sei ser diferente nem quero. Se eles quiserem me aceitem como sou, mas fico mal quando as pessoas evitam o contato comigo.

A questão não se trata de você não falar "verdades” ou fingir uma hipocrisia. No entanto, fico aqui pensando na maneira que você deve falar. No contato com o outro o conteúdo e a embalagem precisam ser bem feitas senão corre-se mesmo o risco de virar grosseria.

Há muitas maneiras de se dizer as coisas. Há maneiras que inspiram e fazem o outro escutar e refletir. Porém, há também formas de se dizer as mesmas coisas que só geram antipatia e raiva em quem escuta. Que forma será que você vem utilizando? Parece que já sabe a resposta, porque percebe que tem gente que te evita.

E por mais que diga que você é assim e que se quiserem que te aceitem, isso parece-me mais uma defesa, um dar de ombros, do que a verdade. Você se importa sim. Caso contrário não se sentiria mal, nem se preocuparia em escrever este e-mail para mim. Só não quer ver nem admitir que você tem responsabilidade quando os outros te evitam e viram as costas. Reflita sobre a parábola abaixo. Pode-lhe ser útil.

Uma antiga história árabe diz que, um dia, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que acordou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho. "Que desgraça, senhor! Cada dente caído representa a perda de um parente.” - respondeu o adivinho. O rei achou tal interpretação uma insolência. Chamou os guardas e ordenou que açoitassem o adivinho. Depois mandou buscar outro, que disse: "Senhor! Grande felicidade vos está reservada! O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes!” O sultão iluminou-se e mandou recompensar o adivinho.

A mesma coisa pode ser dita de várias formas. Às vezes, é preciso sabedoria para escolher a melhor.
Sylvio do Amaral Schreiner
 
No blog Mundo Vivo o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner convida o leitor a refletir sobre questões que afligem e maravilham as pessoas. Por meio de artigos pertinentes e atuais, podemos discutir sobre tudo e, com isso, enriquecer nossa sabedoria – lembrando que sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Conhecimento é TER, sabedoria é SER. Esperamos que este seja um espaço para a sabedoria vir a morar, se modificar e evoluir.



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