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Sylvio do Amaral Schreiner
Sylvio do Amaral Schreiner
08/07/2019 - 09:46
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Um dia andando pelo calçadão no centro de Londrina havia um grupo de religiosos gritando a plenos pulmões "Arrependei-vos, pois o Reino de Deus está próximo e o dia do Juízo está chegando e Jesus virá para julgar todos os pecados". Muitos dentre eles estavam fora de si e entregues a um frenesi que não era preciso ser profissional algum para entender que se tratava de loucura. A loucura pode se vestir de várias maneiras e uma delas é de religioso ortodoxo, que não entende o que fala e interpreta tudo da maneira que lhe convém.

A frase que repetiam de forma tresloucada, no entanto, até que é interessante, mas apenas se pudermos interpretar e não tomá-la literalmente. Não sou teólogo, sou só um psicoterapeuta curioso que gosta de pensar sobre o que vê e experimenta. Penso que "O reino de Deus está próximo" é algo verdadeiro, pois cada vez mais nos encaminhamos para a morte, essa desconhecida geradora de tantas angústias. Chamamos a morte, o que não conhecemos, de Reino de Deus, afinal ninguém voltou de lá para nos contar e ela está cada dia mais próxima em nossas vidas. Nesse sentido o reino de deus está realmente chegando.

O arrependimento deve ser compreendido não como algo moral, para nos trazer peso e sentimento de culpa, mas como um lembrete de que estamos passando rápido por essa vida e que devemos vivê-la bem. Perdemos frequentemente muito tempo com coisas que não nos acrescentam nada e deixamos com isso de viver de maneira mais verdadeira. Devemos nos arrepender do quanto de vida que já desperdiçamos para tirar vantagem do tempo que ainda nos resta viver para fazer um bom proveito. Nesse caso a exortação para o arrependimento serve para nos alertar que não temos a vida inteira e que nosso tempo é contado.

Sobre os pecados podemos pensar no termo original da palavra que, em latim, significa errar o alvo. Assim, os pecados são todas as nossas ações e maneira de ser que, na verdade, não nos possibilitam acertar nosso alvo, que é viver bem. Qual o melhor objetivo nesta vida que não viver bem? Quando nossas atitudes nos aprisionam erramos feio o alvo e não atingimos nossas potencialidades. Devemos sempre avaliar os nossos "pecados" para não desperdiçarmos energias valiosas com coisas que não nos ajudam a desenvolver. Neste caso avaliar os pecados é apenas uma questão de ajuste de mira e correção de rota.

Vendo por esta perspectiva a frase pode ser levada conosco para criar sabedoria e não perdermos tempo. Na verdade, estamos passando por essa vida e não somos donos dela. Nosso tempo é limitado e devemos começar, o quanto antes, a aprender como viver cada vez melhor e com mais dignidade. Quanto aos religiosos do Calçadão fico com a impressão de que ao invés de seguirem o que pregam estão fazendo justamente o oposto: perdendo tempo e não aprendendo a viver a vida que têm.
05/07/2019 - 07:33
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Foto: Pixabay

Sou gay, mas não sou assumido. Sempre fui criado para pensar que gays são pessoas pervertidas e doentes. Algo quase como uma sem vergonhice. Pelo menos meus pais sempre pensaram assim. Meu pai sempre tirou sarro de gays e dizia que preferia um filho morto a um filho gay. Por fora concordava com ele, porque não sabia como argumentar com ele, mas por dentro eu morria. Minha mãe tirava sarro, veladamente, de quem era homossexual. Com toda essa criação sempre fiquei com medo de me assumir. Resultado: saio com homens às escondidas. Nunca assumi um relacionamento e perdi um cara que eu amava porque nunca me deixei aproximar dele. Só vi que o amava quando o perdi. Eu fui cruel com ele. Eu desmerecia o carinho que ele tinha por mim, o cuidado dele e eu saía com outros. Quando ele me pôs na parede para saber o que eu queria eu desdenhei e disse que ele era gay e que eu não, que eu só estava me divertindo e que eu não queria ficar com ele porque eu não era boiola. Ele chorou e foi embora. Depois disso me senti mal, saí com dezenas de outros, mas ninguém como ele. Agora estou péssimo.

Com certeza está péssimo, mas não apenas pelo fim do que vocês dois viviam, mas com o que você está fazendo consigo próprio. E isso já é uma história de anos. Você está vivendo pessimamente toda a sua vida sexual e afetiva. Arrisco até dizer que é como se você estivesse se "matando" e com isso obedecendo ao discurso dos seus pais. Afinal, segundo seu pai, é melhor filho morto do que filho homossexual, não é verdade?

O que você necessita é aprender a se separar dos seus pais. Quando digo se separar me refiro a se afastar da ignorância deles. A ignorância é sempre cruel e violenta e hoje você é cruel e violento consigo mesmo porque quer agradar os seus pais e não descobrir sobre quem você é. Obviamente você concordava com as palavras do seu pai, mas não era por falta de argumentos, mas por temer não ser amado por ele. Só que com isso você teve que se desmerecer.

Quando digo se separar quero dizer então dessa ignorância. Não sei se isso levará a um distanciamento concreto com seus pais. Se eles forem capaz de amar, não. Quem ama consegue abrir mão de ideias ignorantes para priorizar o amor. Agora, se seus pais não conseguirem te aceitar é porque eles se colocam indisponíveis para o amor. Aí eles priorizam mais a imagem de um filho do que um filho real. É um risco que você corre de descobrir que seus pais podem estar mais ligados à imagem.

Contudo, seus pais até podem não te aceitar, mas você não. Caso insista em ser ignorante consigo perderá muitas coisas boas e importantes na vida. Em outras palavras, perderá você mesmo. Quando você desmereceu o seu companheiro e o humilhou, na verdade fez isso com você também porque destruiu algo bom e que lhe era importante. Está assustado com seu poder de destruição sobre aquilo que lhe é caro e se continuar assim vai estar mesmo "morrendo", apesar de estar vivo.
01/07/2019 - 09:02
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Foto: Pixabay

Um diretor de empresa poderoso gritou com seu gerente, porque estava com muito ódio naquele momento. O gerente, chegando em casa, gritou com sua esposa, acusando-a de gastar demais com o almoço. A esposa, nervosa, gritou com a empregada, que havia quebrado um prato. A empregada chutou o cachorro no qual tropeçara. O cachorro saiu correndo e mordeu uma senhora que trombou com ele. A senhora foi à farmácia fazer um curativo e gritou com o farmacêutico porque estava doendo. O farmacêutico foi à sua sessão de análise e gritou com o analista porque estava frustrado. E o analista disse: "Estou vendo o quanto você está frustrado, cansado, cheio de raiva. Dá para notar o quanto está intolerável o que está sentindo. É quase como se você quisesse derramar para fora o que sente." Ao escutar isso o sujeito se sentiu compreendido e pôde se acalmar. Percebeu também que não estava bravo com o analista, como havia pensado inicialmente.

Neste instante, quando a sessão de análise aconteceu, o círculo de ódio foi quebrado. Vamos, ao longo do dia, dos meses e dos anos, acumulando raivas e ressentimentos que sem nos darmos conta acabamos pegando como nossos. Nos apropriamos daquilo que não nos pertence e vamos mantendo essa repetição de jogar a batata quente para quem estiver mais perto. Geralmente é assim que as pessoas vivem e agem.

Obviamente, é uma maneira muito empobrecedora. Queremos nos livrar do que sentimos como se isso fosse possível. Não é. Já que não nos livramos daquilo que nos é despertado através das emoções, só podemos mesmo aprender a lidar com elas. Romper os círculos de ódio que existem por aí só se torna viável quando aprendemos a lidar com nossos sentimentos e não apenas jogá-los longe rapidamente.

Numa análise somos convidados a conhecer o que sentimos. Quem se escuta pode decidir de maneira consciente qual medida tomar. Quem pode tolerar os próprios sentimentos cria a condição de escolher o que quer e o que é melhor fazer de fato. Numa análise círculos que há anos se faziam presentes na vida de muitos, podem ser reconhecidos e quebrados. E no lugar deste círculo repetitivo pode surgir uma nova maneira de se relacionar com os outros e com a própria vida.
28/06/2019 - 09:39
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Foto: Pixabay

Seus posts são muito generosos, já te disse isso. Raramente um psicanalista se dispõe a fazer comentários como numa clínica aberta com o intuito de ajudar as pessoas (e ajuda muito). Há situações em que até dentro do consultório me vi como ainda me vejo, sujeita a arranjar recursos para suportar a dor como se não pudesse nunca superá-la... A medicação ser ajustada parece a única atitude a tomar, no mais "não liga, não", "fale nada", "não confronte" e eu vou me entristecendo sem coragem para fazer um café, carregando a vida como um fardo mesmo. Ora, para que psicanalista? Eu me pergunto. Ter essa escuta semanal, ok, ajuda, mas estou adoecendo psicossomaticamente, se existir esta expressão. Desculpe o desabafo, mas não resisti. Um abraço.

Viver sem coragem para fazer um café não é viver, mas apenas subsistir. Você equivale a sua vida a uma mera subsistência e assim vai levando. Porém, dentro de você há um grito contido, inibido e a ser dado. Foi este grito que te fez me escrever. Na verdade, você não está me escrevendo, mas está me gritando por ajuda. Você pede que alguém te escute de verdade.

O seu psicanalista, pelo o que você fala, não tem esta capacidade. Ele parece não te escutar. Ficou como uma relação burocrática, vocês cumprem os papeis, mas não é um encontro promotor de vida. Não há confrontos nem falas mais espontâneas. Parece que há um acordo não verbal entre vocês dois. Um acordo de ninguém trazer trabalho a ninguém. Você não fala sobre a angústia que sente, ele não se depara com isso, não se incomoda e nem te devolve esse incômodo com outro significado. No máximo, ajustam a medicação.

Não é à toa que gosta dos meus textos e posts, pois vê que me incomodo e não procuro caminho fácil. Tenho, também, sérias dúvidas sobre o mesmo psicanalista que atende em análise, medicar. Não acredito nisto. Um analista deve estar com seu analisando em outros termos e não deve usar a medicação. Isso pode prejudicar a relação analítica, já que facilmente se encontra na química saídas rápidas e falsas ao invés de se viver as angústias que precisam de palavras. Você deve ter um analista e também um médico que acompanhe sua evolução nos medicamentos.

O grito você já deu, o desabafo já foi feito. Contudo, só desabafar não será proveitoso, pois é preciso também que mude, se transforme. Se o café, no momento, não dá para fazer, será que não dá para encontrar um psicanalista que te escute e que, te escutando, te ajude a escutar e a entender o grito que te sufoca? Se está incomodada só resta mesmo sair dessa posição e procurar outra. Nunca tenha medo do incômodo, mas tenha medo de se acomodar no incômodo.
24/06/2019 - 09:45
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A relação que muitas pessoas desenvolvem com seu próprio corpo é bastante cruel. O corpo virou um espetáculo, um objeto para exposição. Isso é tão intenso que às vezes parece que os corpos foram desabitados e se tornaram peças de exibição.

Não é à toa que a cirurgia plástica encontrou uma vasta oportunidade hoje em dia. Não há problema nenhum em intervenções cirúrgicas e a ciência deve mesmo estar a nosso serviço, mas quando o corpo se desumaniza isto passa a ser um problema.

            Dietas malucas, exercícios exagerados, exposições de corpos na mídia trazem a idéia de que quem não tem um corpo espetaculoso é uma pessoa descuidada e relaxada, um fracassado. Como se sucesso fosse ter um corpo esculpido. Pouca atenção se dá aos atributos da pessoa que vive dentro do corpo.

Aquilo que é interno está oculto e portanto não pode ser visto e nem exibido. Mas não custa lembrar de que somos mais do que apenas corpos.

            Claro que devemos cuidar do corpo - aliás, devemos cuidar muito bem, afinal o nosso corpo é também uma realidade de nossa identidade. A questão preocupa quando o corpo passa a ser a única marca. Nesses casos o corpo deixa de ser um corpo e passa a ser uma vitrine.

Tratar o corpo desta maneira acarreta vários problemas. Um deles, muito grave, é o esvaziamento da sexualidade. Com "corpos objetos" o ato sexual não é mais um encontro, uma descoberta e uma união, mas passa a ser algo vazio onde o que importa apenas é a procura por outros corpos perfeitos. A sexualidade deixa de ser algo emocional para se tornar apenas mecânico.

Esse tipo de relação sexual até oferece um certo prazer momentâneo, porém se percebe vazio e sem significado. O corpo se torna fonte de excitação, mas não de encantamento.

            O ideal de um corpo perfeito é um grande malefício, pois coloca as pessoas numa posição de insatisfação consigo próprias. Anorexia, bulimia, compulsões e uso de substâncias prejudiciais à saúde são coisas cada vez mais encontradas nos consultórios psicanalíticos e médicos.

Reverter essa situação significa humanizar o corpo em vez de esvaziá-lo, ter para com o corpo uma relação saudável onde o que deve ser valorizado é a saúde e o bem estar e não uma imagem idealizada. O nosso bem estar deve ser sempre nossa prioridade.
Sylvio do Amaral Schreiner
 
No blog Mundo Vivo o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner convida o leitor a refletir sobre questões que afligem e maravilham as pessoas. Por meio de artigos pertinentes e atuais, podemos discutir sobre tudo e, com isso, enriquecer nossa sabedoria – lembrando que sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Conhecimento é TER, sabedoria é SER. Esperamos que este seja um espaço para a sabedoria vir a morar, se modificar e evoluir.



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