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Sylvio do Amaral Schreiner
Sylvio do Amaral Schreiner
20/05/2019 - 09:04
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Imagine-se numa jornada de trem que levará algum tempo para acabar. Você carrega consigo uma mala com seus pertences. Entretanto, você comprou passagem apenas para você e não para a sua mala, e como você é bastante responsável, não quer por a mala no chão, pois teme perdê-la. Então você a carrega em cima de sua cabeça. Assim você segue viagem, com a mala tornando-se cada vez mais pesada. Obviamente esta viagem seria extremamente desconfortável e nada prazerosa - uma imagem muito similar à forma como muitas pessoas vivem.
Carregamos pesos que não precisaríamos e angústias que seriam melhor serem postas de lado. Nos apegamos aos nossos medos desmedidos, ansiedades intoleráveis e sofrimentos desnecessários como alguém que carrega uma mala pesada que estorva. A maior parte do nosso sofrimento é apego que construímos ao longo da vida sem nem perceber que poderíamos viver diferentemente. Quando nos apegamos ao que nos pesa achamos, erroneamente, que estamos sendo cuidadosos e conscienciosos com nossos problemas, mas ocorre justamente o contrário.
É fácil falar sobre não carregar os problemas, mas como se faz isso? O erro está em pensar em se livrar deles. Não temos como nos livrar dos nossos fardos e adversidades, que sempre serão como malas que nos pertencem. Contudo, o que podemos fazer é mudar nossa relação com este peso, transformar a forma como carregamos nossas malas/problemas. A ansiedade que sentimos, por exemplo, não pode ser jogada fora, mas podemos olhar para ela e tratá-la de maneira diferente e mais eficiente, de modo que não nos pese.
Com uma mala podemos pô-la ao nosso lado para que, assim, não precisemos carregá-la toda hora. Estando próxima ela poderá ser devidamente cuidada, sem sobrecarregar sua cabeça e ombros. Com os nossos problemas também funciona assim. Onde os colocamos? Que lugar damos a eles na jornada de nossa vida? Uma das grandes belezas e utilidades da psicanálise é nos fazer viver uma nova forma de colocar os problemas para que não nos pesem demasiadamente.
A psicanálise não faz sumir os problemas, mas traz outras perspectivas para aquilo tudo que se tornou um fardo e nos adoece a ponto de não aproveitarmos mais a vida.
17/05/2019 - 10:30
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Acabei brigando com meu namorado e nos separamos. Na semana seguinte eu já tinha arrumado outro cara muito melhor. Mais bonito, mais rico. Nunca fiquei sozinha desde que comecei a namorar, há 10 anos, e mesmo assim quando troco um cara pelo outro eu me sinto só e parece que isto vem aumentando cada vez mais. Não sei explicar o que me acontece. Estou cada vez mais bonita e com homens interessados em mim, mas cada vez mais me sinto mais sozinha. O que será que me falta?

Provavelmente você acredita que se tiver um belo homem a tiracolo nada mais lhe faltará. Os homens, para você, parecem que são sentidos como acessórios que são trocados ao dispor do momento. Ao "objetificar" o homem você torna um relacionamento impossível de acontecer e, por conseguinte, o sentimento de vazio persiste e cresce.

Este ciclo que vem se repetindo se repetirá indefinidamente enquanto você não mudar a posição que atualmente você ocupa. A posição atual te impede de viver um namoro verdadeiro porque torna tudo superficial e faz do outro um objeto que pode ser trocado a qualquer instante. Seus namoros são burocráticos e parecem servir muito mais para você se afirmar carregando um belo espécime do que viver a dimensão afetiva.

Sem elementos afetivos um namoro torna-se sem sentido e também se esvazia, porque promete aquilo que nunca será dado. No caso a promessa é sobre a experiência do amor que nunca se realiza.

O fato de que depois da briga com o namorado você já o trocou por outro mostra que não há um registro interno de um namoro. Não houve tempo para lutos, separações, mal estar e lágrimas. A fila anda e o show não pode parar. É assim que você parece viver.

Apesar de parecer que você está forte nessa atitude de não ligar para nada, é justamente o oposto e serve apenas para esconder a dor que você não se permite conhecer.

Enquanto negar a sua dor e tentar camufla-la com namorados se sentirá cada vez mais vazia e só. O que você, hoje, necessita não é de um namoro, mas de um relacionamento, e este pode começar com a psicoterapia. Está na hora de conhecer o que você faz a si mesma e ver se vale a pena.
13/05/2019 - 09:37
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Uma antiga história conta sobre um discípulo que foi até o mestre e disse que ia parar com seus estudos porque quando voltava para casa seus irmãos e irmãs nunca o deixavam em paz e, por isso, não havia condições para se concentrar e se aprimorar. O mestre escutou atentamente e depois de pensar um pouco decidiu levar o discípulo para fora, onde havia um sol forte. "Olhe para cima", disse. "O que vê?" "O sol, mestre." "Pois bem, agora coloque sua mão acima da cabeça e tente tampar o sol." O discípulo assim fez. "Consegue ver o sol agora?" "Não mais, mestre." "Sua mão perto do sol é insignificante, mas mesmo assim ela pode impedi-lo de ver o sol. A mediocridade é nociva ao progresso. Não culpe os outros pela sua incompetência."

Quantas vezes na vida não culpamos os outros ou qualquer outra coisa por não termos a vida que queremos? Temos uma ideia errônea e prejudicial de que a vida deve ser como a desejamos, sem que nenhum esforço seja despendido. Muitos acreditam que basta desejar que tudo o mais se realiza e que as condições têm sempre que se apresentar perfeitas.

Já ouvi muitas e muitas pessoas dizerem que não podem isso ou aquilo porque as condições não são perfeitas. Claro que há determinadas condições que trazem alguns impedimentos, no entanto, na grande maioria das vezes as condições, por piores e desagradáveis que sejam, não são proibitivas, nós é que arranjamos qualquer desculpa para impedir algo de acontecer. E o que mais impedimos é de crescermos e nos realizarmos. É um paradoxo. Tudo o que mais queremos é crescer, mas também temos medo disto, a ponto de nos agarrarmos à justificativas medíocres.

A questão que fica é: por que temos tanto medo de progredir na vida?

Uma pessoa quer estudar, mas muitas vezes se desanima precocemente com as dificuldades que surgirão. Outra quer fazer academia para melhorar o condicionamento físico, mas sempre tem uma bela desculpa para não começar ou desistir logo em seguida. Outra quer meditar, mas desiste logo, culpando fatores externos que, no fundo, não a impediriam de se organizar e fazer o que deseja. O desejo até existe, mas junto com ele há também toda uma série de justificativas e desculpas. Por que nos impedimos tanto?

Depende de cada pessoa as razões de suas desculpas, mas podemos pensar que há um medo de ser feliz e de descobrir que nós, e só nós, somos responsáveis pela própria felicidade. Estamos tão habituados a ser infelizes e reclamar da vida que não vislumbramos a possibilidade de viver de outro jeito. A gente se acostuma com tudo na vida, inclusive com aquilo que não nos faz bem. Há milhões de pessoas casadas com a infelicidade ao redor do mundo e que nem se dão conta disso.

Outro fator importante a ser levado em consideração é que quando se vive infeliz e cheio de desculpas por longo tempo, mudar isso pode trazer medo. O medo aqui é do desconhecido. Mesmo que se espere uma vida melhor ela ainda é desconhecida e tudo aquilo que não conhecemos é gerador de angústias e, por isso, muitos preferem ficar com as angústias já conhecidas do que enfrentar angústias inéditas, mas que podem levar a algo novo.

É triste constatar que há tanta gente viciada na infelicidade e com medo de se desfazer dessa situação tão empobrecedora. Quem casa com a infelicidade sempre evitará a felicidade, que é um outro tipo de vida. Que tal começarmos refletindo sobre qual casamento vivenciamos com a vida? Se for um mau relacionamento é porque está na hora de se divorciar. Só assim estaremos livres para viver um relacionamento mais saudável e prazeroso.
10/05/2019 - 07:14
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Estou passando um período no qual eu me sinto muito velha, sem esperança de ter alguém que me ame. Vivo sorrindo o tempo todo (aparências), mas dentro de casa choro muito. Eu fico vendo casais passar de mãos dadas (sou meio adolescente para essas coisas) e me pergunto se alguém seria capaz de me amar, me aceitar? Não é fator sexo. É carência. Me sinto tão só. Impotente.

Você se sente velha, você diz. Não sei sua idade, mas seja ela qual for o amor se faz possível. O amor é democrático, sempre. Não há tempo para o amor. O tempo dele é, invariavelmente, o agora. Há vários tipos de amor: o amor dos pais pelos filhos, o amor entre os amigos, o amor a uma atividade apaixonante, mas você se refere aqui ao amor romântico, que se vive em um casal. Este também é possível e ninguém é tão velho que não possa amar e ser amado. É um engano seu acreditar que o amor pertence só aos jovens e adolescentes. Por alguma razão você se exclui.

Agora, o que será que você exclui? Creio que muito mais do que uma possível relação romântica penso que exclui você mesma. Lendo seu e-mail pude notar que você é bastante crítica consigo própria e usa palavras para se autodepreciar (Me sinto muito velha, sem esperança, choro muito, fico vendo casais passar, me pergunto se alguém seria capaz de me amar, me aceitar, carência, impotente). Uma mensagem tão pequena que você me enviou está repleta de referências negativas. Entendo que seja assim que você se vê. Negativamente.

Antes mesmo de ser possível uma relação romântica com um outro se faz necessário uma relação consigo mesma que seja mais amorosa. Você procura no outro segurança, potência, afirmação, etc. mas são coisas que não podem vir de fora, só podem vir de dentro. É você quem se dá esses elementos mais íntimos. A pergunta então que você deve fazer não é se alguém pode vir a te amar, mas se você pode se amar. Com a pergunta posta de maneira certa muda-se completamente o enfoque com que você poderá pensar sobre a sua situação.

Não é o outro, não se trata de algo externo, mas de algo interno que está faltando. Autoestima, amor próprio, prazer pela sua própria vida. E mesmo que você encontrasse alguém nesse momento da sua vida você não ficaria satisfeita porque o que receberia viria apenas de fora e não seria seu. A gente só aproveita o carinho e amor que vem de fora quando existe dentro também.

O relacionamento que hoje lhe é primordial é o consigo mesma. Se você cuida de si, se você se permite apaixonar por si mesma você vive melhor e isso te prepara para possíveis relacionamentos com outras pessoas. Que tal uma análise para te ajudar a ter uma relação e um olhar para si com mais amor? Quem sabe você não se apaixona por você mesma e muda tudo em sua vida?
06/05/2019 - 07:09
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A dor é algo assustador e que todos nós tememos. Passar por uma doença que causa dores no corpo, sofrer um acidente, se submeter a um tratamento dolorido, tudo isso tira a paz e o sossego de muita gente. A dor física é facilmente reconhecida e tratada, graças à medicina e à farmácia cada vez melhores. Além disso, a dor no corpo é aceita com mais naturalidade, o que facilita o seu entendimento e tratamento. Porém, quanto à dor emocional, mais comumente chamada de angústia, a história é outra.

Por mais avançada que estejam a tecnologia, a ciência médica e a farmacêutica, a dor emocional continua presente e minando a vida de muitas pessoas. Para o que se passa na dimensão subjetiva os remédios podem ter efeitos paliativos, mas não são a solução. Os médicos, frequentemente, encontram em seus consultórios gente que padece de um sofrimento que está além do físico e para as quais eles não têm preparo para enfrentar: a dor mental.

Verdade seja dita, os pacientes exigem muito dos seus médicos, cobram que eles sejam da categoria dos deuses e que para tudo encontrem ou deem a solução definitiva. E quando os médicos se submetem, mesmo sem perceber, a esta exigência acabam ficando impotentes e confusos, porque o que precisa ser tratado é de outra dimensão, tem a ver com a mente e esta é mais do que o corpo.

Depressões, fobias, estados obsessivos, psicossomatizações são todas formas pelas quais a dor emocional se manifesta. Quem sofre dela não sabe dizer dessa dor, não tem palavras, mas reconhece que sente angústia. O que fazer com essa angústia quando hoje em dia demandamos que tudo seja resolvido para ontem? Como suportar uma dor que não tem analgésico que dê conta? Como superá-la?

Seja desde a dor de um distúrbio mental ou a dor de um processo de perda ou luto, ou de um sentimento de humilhação, a única possibilidade é saber lidar com o que se sente. Lidamos com nossas dores de maneira ineficaz e de forma que só traz mais dores.

Ninguém nasce sabendo lidar de maneira eficiente com a dor psíquica, mas é algo que se aprende ao longo da vida e através das experiências. Para lidar com a dor subjetiva é preciso ser humano e ninguém nasce humano, porém torna-se humano.

A cura psicológica existe, contudo, é diferente da cura do senso comum. A palavra cura vem do latim e significa cuidar. Portanto curar é cuidar. Um curador de um museu cuida das obras de arte. Nossa vida é uma bela obra de arte e aprender a cuidar de nós mesmos é imperativo para podermos viver com qualidade.

A cura psicológica só se dá quando alguém passa a cuidar de si, ou seja, a se relacionar consigo e com o mundo de uma maneira diferente e mais favorável.

Uma pessoa que come demais comidas nada nutritivas não tem só um problema orgânico, mas uma dificuldade pessoal de se relacionar melhor com sua fome. Quem não cuida de um órgão que requer atenção, não mostra que está sendo displicente só com seu físico, mas com toda a sua integridade. Se cuidamos tão bem de nossos corpos, porque não damos um passo a mais para cuidar da forma como vivemos de fato? Talvez, porque mudar como vivemos exige que lidemos com a angústia, agora não mais como inimiga que precisa ser eliminada, mas como um alerta de que algo não vai bem.

Usar a angústia a nosso favor ocorre dentro de um processo analítico ou psicoterapêutico. Quando se permite falar da dor emocional que existe ela passa a ganhar outra forma. Esse tipo de dor só se supera entrando nela para poder transforma-la em algo que não nos doa mais.

O consultório de um analista ou psicoterapeuta é o melhor espaço para cada um aprender como lidar com a dor que sente de uma maneira mais humana.
Sylvio do Amaral Schreiner
 
No blog Mundo Vivo o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner convida o leitor a refletir sobre questões que afligem e maravilham as pessoas. Por meio de artigos pertinentes e atuais, podemos discutir sobre tudo e, com isso, enriquecer nossa sabedoria – lembrando que sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Conhecimento é TER, sabedoria é SER. Esperamos que este seja um espaço para a sabedoria vir a morar, se modificar e evoluir.



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