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SINUQUINHA

29 set 2014 às 15:14
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A bola branca rolou, trombou a quinze numa pancada seca.

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Caçapa do meio, com precisão de um tiro.

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Ele riu satisfeito. "Acabou!"- empunhou o taco paralelo ao corpo fazendo dele um fuzil. Descansou o cabo no chão.


-Quer outra?
- Claro!

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Arrumou o triangulo com bolas coloridas que contrastaram com o feltro verde da mesa. As bolas e o pano davam o colorido naquele fim de cidade, no fim da rua e no fim do mundo.


-E o Serafim? Disse um coçando a nuca. Tem visto?
-Vi na semana passada.
-E daí?
-Pode estourar você mesmo.
-Não. Quero saber do Serafim. Ele desapareceu.
-Ah! Já falo já. Deixa eu estourar primeiro



Pegou o taco pela ponta e com o cabo deu uma porrada na bola branca.O triangulo desfez-se e as bolas rolaram ao acaso, desnorteadas.


-E daí? Fala do Serafim.
-Não sei não, homem. Ele está diferente.Quando me viu, abraçou-me forte, mas riu muito pouco.
-Difícil acreditar heim? Logo ele que ria de qualquer bobagem.
-Sua vez agora.
-Bola sete no canto direito.- A tacada reta e a bola na caçapa. - Está lá dentro!
-Vai jogando aí. Ô Toninho,traz mais uma geladinha aqui para a mesa. Troca os copos, por favor.
- Por que o Serafim parou de rir?
- Não sei, mas não foi só isso. Ele já não olha para gente do mesmo jeito.
-Que jeito? Agora você já está inventando. Está vendo além da conta.
-Mas é verdade! Não sei explicar muito bem. Já vi acontecer isso muitas vezes...
-Agora é sua vez. Vê se não me deixa no bico.
-Como não? Se eu conseguir não vou aliviar para você. Jogo é jogo.
-Como eu ia falando, já vi muita gente que numa fase da vida muda. Eu tenho certeza que aconteceu com o Serafim. Mudou o rosto, não sei..., embaçou. Já não olha de frente, baixa as pálpebras. Parece que a vida mostrou para ele, assim como quem mostra coisa escondida, um segredo terrível e depois disso ele nunca mais vai ver as coisas do mesmo modo. Olha com medo.


-Hoje você soltou a imaginação heim?.
-Não é imaginação. É fato que acontece. E aconteceu com ele. Na frente dele apareceu uma verdade que ele não conhecia. Tem coisas que é melhor não ver, pois estragam os olhos para sempre.
-Olha a bola cinco quase caindo no canto.
-Pronto. Liquidei o assunto.
-Mais uma?
-Não. Deixe tudo aí. Ao acaso.



Saíram, calados, lado a lado pensando no Serafim, no tempo que ele ria. Com saudade do tempo que ele não tinha medo.

(do livro "Histórias de um Norte Tão Velho")


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