Os criminosos brasileiros têm abusado muito do Instagram para disseminar fraudes de todo tipo. Seja com bots (programas automatizados), personificação com ou sem uso de IA e fraudes financeiras, é muito fácil [disseminar]. Navegando por dois minutos nele [Instagram], eu me deparo com uma quantidade impressionante"
A avaliação é do chefe do Centro da Equipe Global de Pesquisa e Análise para as Américas e a Europa da Kaspersky, Fabio Assolini, em entrevista exclusiva ao Portal Bonde, quando questionado sobre a presença de fraudes nas redes sociais.
Essa crítica do especialista encontra respaldo no relatório mais recente da APWG (Anti-Phishing Working Group), publicado em agosto de 2026. Segundo o documento, a ZeroFox identificou um aumento de 571% no volume de ameaças em anúncios da Meta no segundo trimestre de 2026, em comparação com o primeiro. A categoria inclui anúncios maliciosos veiculados em plataformas como Instagram e Facebook.
O aumento expõe como falhas na moderação podem dar aos criminosos um megafone global e legítimo para prejudicar o elo mais fraco do ecossistema digital: o usuário. Sem um cão de guarda eficiente, esses espaços ficam mais vulneráveis à atuação de manipuladores digitais. Para o especialista, as plataformas precisam ser responsabilizadas pelas fraudes que circulam em seus ambientes. Segundo ele, anúncios pagos só costumam ser retirados após um grande volume de denúncias.
Em fevereiro deste ano, a Meta publicou um comunicado no qual afirma que “trabalha agressivamente” para encontrar e desmantelar esses esquemas. Um dos grandes vilões na fiscalização dos anúncios é o cloaking (camuflagem digital). Na prática, essa artimanha faz com que os sistemas de moderação vejam um conteúdo aparentemente legítimo, enquanto a verdadeira face criminosa é revelada apenas ao usuário.
Atualmente, a Meta informa que bloqueia e remove os anúncios ao identificar essa prática de camuflagem. E que também compartilha os anúncios identificados com parceiros para que eles possam tomar medidas em suas próprias plataformas. Segundo a megacorporação, o objetivo é deixar uma mensagem clara: “Aqueles que tentarem explorar outras pessoas em nossas plataformas serão responsabilizados”.
Personificação e golpes: a “Bonnie e Clyde” do cibercrime
Dentre as múltiplas ameaças que assolam as redes sociais, uma dupla se destaca. No segundo trimestre de 2026, a personificação (impersonation, em inglês), prática de fingir ser uma pessoa ou instituição real, e os golpes dominaram fatias significativas do conjunto de ameaças analisado pela APWG (Anti-Phishing Working Group).
Com 32,7% e 22,7%, respectivamente, as duas categorias somaram 55,4% das ameaças identificadas nas redes sociais monitoradas. Em comparação com o relatório anterior, referente ao primeiro trimestre, a participação conjunta dessas categorias caiu de 70,9% para 55,4%. Naquele período, a personificação representava 43,8% das ameaças identificadas e os golpes, 27,1%.
Vou dar um exemplo prático e pessoal. Eu era cliente de uma empresa brasileira do setor financeiro que sofreu um ciberataque há uns cinco anos. Muitos dados pessoais foram vazados. A empresa sempre negou isso publicamente. Desde então, todo mês eu recebo uma fatura falsa usando o nome dela [empresa] e na fatura falsa tem as minhas informações. O criminoso faz isso na intenção da vítima pagar pensando que é uma cobrança real"
A associação entre essas duas práticas não é mera coincidência estatística. Assolini explica que fatores como o vazamento de informações de empresas e o uso massivo e cada vez mais sofisticado da IA (Inteligência Artificial) favorecem a criação de abordagens capazes de levar as vítimas a acreditar que estão conversando com um canal oficial.
Munidos de dados sensíveis, como nome, endereço e CPF, obtidos no mercado ilegal, os criminosos utilizam esse material para alimentar sistemas de inteligência artificial e produzir mensagens convincentes, capazes de enganar até olhos treinados. Na prática, uma modalidade funciona como porta de entrada para a outra. Ou, melhor, como um cavalo de Troia digital, que leva o próprio usuário a abrir as portas para o ataque.
Segundo a Meta, golpistas usam a imagem de pessoas famosas para explorar a admiração de seus seguidores e dar credibilidade às fraudes, muitas vezes com o auxílio de ferramentas de IA. Em comunicado, a empresa exemplificou essa prática ao relatar que processou anunciantes brasileiros que teriam usado imagens e vozes manipuladas de celebridades e médicos para promover produtos de saúde fraudulentos.
Para combater esse tipo de esquema, a Meta afirma manter um programa de proteção de figuras públicas, com mecanismos de análise voltados a pessoas que costumam ter a identidade usada indevidamente em anúncios. Segundo a empresa, mais de 500 mil celebridades e figuras públicas ao redor do mundo já estão incluídas nesse programa.
Celular é onipresente, o conhecimento sobre cibercrimes não
Por mais que o celular e a conexão com a internet sejam constantes na vida contemporânea, parte dos usuários desconhece como evitar esses perigos ou agir diante deles. Embora o ambiente digital, assim como um beco escuro, esconda riscos, há uma diferença: as ameaças nem sempre se escondem nas sombras. Muitas vezes, aparecem disfarçadas de ofertas atraentes, anúncios legítimos e mensagens que conquistam a confiança das vítimas.
Uma pesquisa do Projeto Segurança na Rede, coordenada pelo advogado especialista em crimes cibernéticos Fernando Peres, ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade. O levantamento reuniu 3.732 participantes de 18 estados e do Distrito Federal, dos quais 645 eram de Londrina (17,3% do total). Entre os entrevistados, 89% afirmaram não se considerar integralmente protegidos ao acessar a internet, enquanto 77% disseram não saber como proceder caso se tornassem vítimas de um crime virtual. Além disso, 39% declararam já ter sofrido algum crime na internet.
Uma população que convive em um ambiente perigoso acaba desenvolvendo estratégias para se proteger, como o uso do chamado “celular do ladrão” para evitar o prejuízo de perder o aparelho principal. No ambiente digital, a lógica é a mesma: quanto mais os usuários conhecerem os perigos que afligem o mundo atrás da tela, mais preparados estarão para agir diante desses esquemas. Por meio do projeto, o especialista londrinense busca reduzir essa lacuna de conhecimento, oferecendo orientações sobre prevenção e como agir após os ataques em palestras realizadas em escolas e empresas.
No mesmo levantamento de Peres, golpes e fraudes aparecem como o principal tipo de crime relatado, com 24% das respostas. Na sequência, estão invasão de conta (16%), perfis falsos (14%) e clonagem de WhatsApp (12%).
As plataformas em que os entrevistados disseram ter sofrido os ataques também chamam a atenção. A Meta concentra os três serviços mais citados: WhatsApp (26%), Instagram (24%) e Facebook (18%), que lideram a lista.
De acordo com Peres, embora não seja possível atribuir automaticamente à empresa todos os crimes praticados por terceiros, a presença desse trio coloca, sim, a Meta sob um holofote de responsabilidade. Para o advogado, falhas na prevenção e na resposta a essas atividades fraudulentas impedem a empresa de se eximir do dever de manter um ambiente seguro para seus usuários. Ele também defende mecanismos eficientes de prevenção, denúncia e resposta às vítimas.
Precisamos investir em educação digital, mas também exigir maior responsabilidade das empresas de tecnologia. Não basta disponibilizar ferramentas automatizadas quando as vítimas encontram dificuldades para obter soluções efetivas. O combate aos golpes digitais não pode depender exclusivamente da capacidade das vítimas de identificar fraudes. A segurança deve ser uma responsabilidade compartilhada entre usuários, plataformas e poder público"
Próxima reportagem da série 'Vitrine dos Golpes Digitais'
Para contornar esse cenário, a Meta, de Mark Zuckerberg, anunciou neste ano que vai ampliar o uso de IAs (Inteligência Artificial) na moderação de conteúdos. A próxima reportagem da série “Vitrine dos golpes digitais” vai explorar esse dilema: em meio à corrida pelo desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados, quais são os riscos de delegar às máquinas a tarefa de identificar fraudes? Essas mesmas tecnologias não podem dar aos criminosos ferramentas ainda mais sofisticadas de manipulação?