Uma nova tecnologia para o tratamento da doença de Parkinson passou a ser disponibilizada no Brasil: a estimulação cerebral profunda adaptativa (aDBS), que utiliza sinais da atividade cerebral para ajustar automaticamente a estimulação de acordo com as necessidades do paciente.
A tecnologia é uma evolução da estimulação cerebral profunda (DBS), tratamento utilizado em casos de Parkinson nos quais os medicamentos deixam de controlar adequadamente os sintomas ou provocam complicações motoras. A terapia busca modular circuitos cerebrais envolvidos no controle dos movimentos, ajudando a reduzir manifestações como tremores, rigidez e lentidão.
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A doença de Parkinson ocorre pela degeneração de células da substância negra, região do cérebro responsável pela produção de dopamina, neurotransmissor envolvido no controle dos movimentos. A redução dessa substância pode provocar tremor de repouso, lentidão dos movimentos, rigidez muscular, alterações na fala e problemas de equilíbrio. Sintomas não motores, como depressão, distúrbios do sono e alterações no olfato, também podem aparecer antes mesmo do diagnóstico.
Segundo dados da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a doença afeta principalmente pessoas entre 60 e 79 anos no Brasil e é mais frequente entre homens. Entre 10% e 20% dos casos, porém, surgem antes dos 40 anos.
Como funciona
Na estimulação cerebral profunda convencional, o dispositivo implantado envia estímulos elétricos ao cérebro de acordo com parâmetros definidos pela equipe médica. Com a aDBS, o sistema também consegue identificar sinais da atividade cerebral e ajustar a estimulação dentro de limites previamente estabelecidos pelo neurologista.
“A cirurgia de DBS costuma ser indicada quando o paciente começa a sofrer com complicações motoras, como movimentos involuntários que o próprio tratamento provoca, ou quando o remédio perde o efeito no controle dos sintomas ao longo do dia”, explica o neurocirurgião funcional Murilo Marinho, membro titular da SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia).
A nova modalidade utiliza a tecnologia BrainSense, que permite registrar sinais cerebrais e adaptar a estimulação ao longo do dia. O objetivo é oferecer um controle mais individualizado dos sintomas, considerando as variações que podem ocorrer na atividade cerebral e na resposta do paciente ao tratamento.
A tecnologia foi avaliada no estudo clínico ADAPT-PD, publicado na revista científica NPJ Parkinson's Disease. De acordo com a neurologista Rachel Brant, que possui doutorado pela USP (Universidade de São Paulo) com tese sobre DBS, cerca de 70% dos pacientes avaliados relataram sensação de melhor controle dos sintomas e melhora na qualidade de vida.
Pacientes que já utilizam o sistema Percept podem receber a atualização para a estimulação adaptativa por meio de software, sem a necessidade de uma nova cirurgia. A indicação e a programação da terapia, no entanto, dependem de avaliação médica.
Apesar dos avanços, especialistas ressaltam que a DBS exige acompanhamento especializado e contínuo. “A DBS existe tanto no SUS quanto na saúde suplementar, mas não basta que a tecnologia esteja disponível. Na doença de Parkinson, a estimulação cerebral profunda vai muito além do ato cirúrgico”, afirma a neurologista Lorena Broseghini Barcelos, especialista em estimulação cerebral profunda no Einstein Hospital Israelita.
Segundo ela, o tratamento depende de profissionais especializados em distúrbios do movimento, neurocirurgiões experientes e acompanhamento para a programação do dispositivo, além de uma equipe multidisciplinar ao longo do tratamento.