A Coamo Agroindustrial Cooperativa anunciou, nesta terça-feira (27), a compra de quatro unidades de armazenagem agrícola localizadas em Cambé, Sabáudia, Assaí e Bela Vista do Paraíso, na Região Metropolitana de Londrina. As instalações pertenciam ao Fundo Pátria e estavam arrendadas à Belagrícola, mas agora passam definitivamente ao controle da Coamo. Segundo a empresa, a aquisição faz parte da estratégia de crescimento sustentável e de fortalecimento da atuação junto aos produtores da região.
Em comunicado interno, a cooperativa informou que já iniciou a fase de transição e adequações operacionais e que as unidades estarão em funcionamento para o recebimento da safra 2025/2026 de soja e milho. A diretoria também deve promover, nas próximas semanas, reuniões com produtores dos municípios envolvidos para apresentar a "filosofia" da Coamo, além dos produtos e serviços que passarão a ser ofertados.
Distrato com a Belagrícola
Em entrevista ao Portal Bonde nesta terça, o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, esclareceu que a negociação não envolveu a Belagrícola, que não tinha mais a posse das estruturas. Segundo ele, as unidades pertenciam à Belagrícola até 2019 e foram vendidas ao Fundo Pátria em 2020, que passou a arrendá-las à empresa.
“Houve um distrato entre a Belagrícola e o Pátria, que ficou livre para a venda do ativo. Nós adquirimos os espaços, mas tudo aquilo que era negócio da Belagrícola com os produtores, a Coamo não tem qualquer ligação”, destaca.
De acordo com o presidente, o investimento total foi de R$ 136 milhões, que serão pagos em cinco parcelas, sendo uma entrada e quatro parcelas semestrais. Ele explica que foi o Fundo Pátria quem procurou a Coamo oferecendo os ativos.
“Pelo que consta, eles estavam negociando com outras empresas e cooperativas, mas não disseram quem. A nossa proposta foi mais interessante e eles fecharam conosco”, afirma.
Negociação relâmpago
A negociação, segundo Galinari, foi rápida e durou cerca de 30 dias. Ele revela ainda que houve conversas anteriores com a própria Belagrícola para a aquisição de outras unidades, mas o processo não avançou devido aos imbróglios judiciais que a empresa enfrenta.
“Como eles estão com o pedido de recuperação extrajudicial, por enquanto não podem vender os ativos. Só compramos as quatro unidades porque pertencem ao Grupo Pátria”, explica Galinari.
Nas novas estruturas adquiridas na região de Londrina, a Coamo pretende implantar o que chama de entrepostos, com recebimento da produção dos cooperados e venda de insumos.
“Haverá também agrônomos e veterinários para darem assistência técnica. Normalmente, colocamos lojas de peças, mas é um plano. Temos também o banco da Coamo, o Credicoamo, para fazer todo o serviço financeiro para o cooperado. É um pacote de serviços que implantaremos nessas quatro unidades”, detalha o presidente.
Perguntado sobre as expectativas financeiras que respaldaram o investimento multimilionário em uma negociação relâmpago, Galinari diz que o processo foi estudado tecnicamente, mas ressalta o modelo cooperativista como diferencial.
“Mais importante que as expectativas de vendas de grãos e insumos é levar aos produtores da região as tecnologias da Coamo, a assistência técnica e a infraestrutura”, diz. Ele lembra ainda a política de distribuição de sobras promovida pela empresa. “A Coamo está fechando o balanço com boas sobras para os cooperados. Já devolvemos R$ 200 milhões em dezembro e agora vamos complementar com um valor de R$ 500 milhões."
Parcerias operacionais com a Coamo
A reportagem questionou a Belagrícola sobre a perda dos armazéns no Norte Paraná. Em nota, a empresa confirmou a informação e destacou que as unidades não integravam o seu patrimônio, sendo apenas arrendadas para fins operacionais. Segundo a nota, a venda dos ativos pelo Fundo Pátria não interfere no processo de recuperação extrajudicial.
A Belagrícola
se comprometeu a continuar os negócios, "assegurando o
fornecimento de insumos e a assistência técnica aos produtores rurais". Também anunciou que "parcerias operacionais com a Coamo serão oportunamente anunciadas,
com o objetivo de capturar sinergias e garantir a melhor prestação de serviços
ao produtor rural, ao mesmo tempo em que viabilizam o atendimento dos
compromissos vinculados à comercialização de grãos nesta safra".
Recuperação extrajudicial
Conforme o Portal Bonde noticiou, a Belagrícola protocolou um pedido de recuperação extrajudicial no dia 11 de dezembro, um dia após o fim do prazo de 60 dias de suspensão de pagamentos concedido anteriormente pela Justiça. O processo voltou à análise do juiz Emil Tomas Gonçalves, da 11ª Vara Cível e Empresarial de Londrina, que avalia a concessão de uma nova suspensão por 90 dias para avanço nas negociações com credores.
Fundada em 1985, em Bela Vista do Paraíso, a Belagrícola se tornou uma das maiores distribuidoras de insumos agrícolas e comercializadoras de grãos do país. Em 2017, o controle acionário foi adquirido pelo grupo chinês Pengdu. Atualmente, a empresa conta com 52 pontos de revenda e 58 unidades de recebimento e armazenagem, com capacidade superior a 1 milhão de toneladas.
Em outubro, a empresa obteve liminar para negociar uma dívida estimada em R$ 3,8 bilhões. O pedido de recuperação extrajudicial, porém, foca na renegociação de R$ 2,2 bilhões em dívidas com credores quirografários, incluindo produtores rurais afetados na safra 2024/25. Em comunicado na época, a Belagrícola atribuiu a crise ao que chamou de “maior nível de inadimplência já registrado”, citando quebras de safra, eventos climáticos extremos, juros elevados e retração de crédito.