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Itaú levou Banestado de graça

Carmem Murara - Folha do Paraná
06 mai 2001 às 17:11

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Quase sete meses após a venda do Banestado para o Itaú, o saldo da privatização traz cifras que demonstram que o Estado saiu do processo mais endividado e o Itaú com a vantagem de ter levado um banco praticamente de graça. Essa é a avaliação de sindicalistas, políticos e de ex-diretores do banco contrários ao leilão. O dinheiro pago pelo Itaú - R$ 1,65 bilhão - será amortizado aos poucos com os créditos tributários no valor de R$ 1,7 bilhão que o banco herdou do Banestado. Sem contar ainda os R$ 415 milhões em ações da Copel que ficaram caucionadas na instituição financeira, e a carteira de créditos no valor aproximado a R$ 1 bilhão, que já foi vendida para uma empresa privada de cobrança por valor não revelado.

Dias após ter feito o pagamento pela compra do Banestado, a diretoria do Itaú anunciava para os demais acionistas o bom negócio feito. Em entrevista a jornais de São Paulo, o diretor-presidente do banco Roberto Setúbal chegou a declarar que tinha pagado "barato" pelo Banestado. Em Curitiba, os diretores informavam que o preço tinha sido o de mercado. O Banestado foi vendido com um ágio superior a 300%.


O governo comemorou o resultado da privatização, apesar de ter sido obrigado a encaminhar todo o dinheiro diretamente para a Secretaria do Tesouro Nacional, sem ver a cor do dinheiro. "A privatização fez parte de um acordo com o Banco Central. Não havia outra saída para o Estado", justifica o secretário de Governo, José Cid Campêlo Filho. Ele diz que os R$ 1,625 bilhão serviram para amortizar a dívida contraída junto ao Banco Central para sanear o Banestado.


O governo federal injetou R$ 5,8 bilhões para tirar a instituição financeira do redesconto e do sistema interbancário. No auge da crise financeira, o Banestado chegou a precisar de R$ 2 bilhões para fechar as operações diárias. "Teremos de pagar pelos próximos 30 anos essa dívida, mas não havia outra alternativa", afirma o secretário.


Falta ainda para o Estado pagar R$ 4,5 bilhões ao governo federal. O dinheiro é mandado todos os meses. Na ponta do lápis, o Banestado custou para cada um dos 9,55 milhões de paranaenses o equivalente a R$ 606,81. O dinheiro tem saído dos cofres públicos que são capitalizados com impostos pagos pela população. "No prazo de 30 anos, teremos pagado R$ 14 bilhões para o governo federal. É inacreditável o negócio que foi feito, pois trocamos um banco de fomento por uma dívida", diz o senador Osmar Dias (PSDB-PR).


O Itaú ficou com um banco saneado, praticamente pronto para ser lucrativo. Basta administrá-lo. "O Itaú levou o Banestado de graça e agora passa a fazer cortes de funcionários", protesta a presidente da Federação dos Bancários, Mariza Stédile.


O banco chegou a ter como garantia de manutenção de seus negócios as contas públicas do governo do Estado, por cinco anos. As operações relacionadas com o governo representam até 70% dos negócios do Itaú. O banco administra ainda uma carteira de 560 mil contas.


O Estado, ao contrário, ficou com o ônus. Herdou créditos de difícil liquidação no valor de R$ 1,1 bilhão. São dívidas antigas praticamente irrecuperáveis fruto de empréstimos mal concedidos. Segundo o diretor-presidente da Agência de Fomento - órgão do governo encarregada da cobrança - Carlos Araújo, serão recuperados 30% no máximo.

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O ex-presidente do Banestado, Luis Antonio Fayet, diz que hoje o governo paga um preço alto. "Se o Banestado tivesse sido privatizado em 1995, quando era um banco sadio, o governo colocaria entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões nos cofres públicos", afirma. Fayet diz ainda que o mais grave é que muitos escândalos de desvios de dinheiro foram "varridos para debaixo do tapete".


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