02/07/20
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Levantamento mostra que comércio aberto não evita perdas econômicas com coronavírus

Países que adotaram isolamento social mais brando devem sofrer impacto econômico similar a nações vizinhas que foram mais rigorosas na quarentena. No caso de Suécia, Brasil e Chile, as medidas não foram suficientes para frear o avanço do coronavírus, e os três, para além das perdas econômicas, apresentam taxas de mortalidade substancialmente maiores do que países fronteiriços. ​

Valter Campanato/Agência Brasil
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Mesmo a Alemanha, menos rigorosa na quarentena mas exitosa no combate à Covid-19, anunciou recessão no último trimestre e deve ter queda no PIB (Produto Interno Bruto) similar à média da Europa.

Citada pelo presidente Jair Bolsonaro como exemplo na pandemia, a Suécia, que teve regras de isolamento social mais brandas que seus vizinhos escandinavos, terá impacto econômico semelhante ou pior, segundo o previsão do FMI (Fundo Monetário Internacional).

O país manteve estabelecimentos abertos, escolas funcionando e nem mesmo chegou a indicar oficialmente o uso de máscara pela população. Por lá, o isolamento social se parece mais com uma recomendação do governo a seus cidadãos do que com uma política efetiva de Estado.

Dados anônimos de mobilidade de usuários do Google mostram que os suecos reduziram suas atividades, mas foram mais às ruas que dinamarqueses, finlandeses e noruegueses, cujos governos implantaram maiores restrições.

O efeito da pandemia em termos econômicos, contudo, é parecido. A queda do PIB sueco em 2020 deve ficar em 6,8%, diz o FMI. A média dos outros três países é redução de 6,3%.

Também deve ter alta de três pontos percentuais no índice de desemprego -menos que a Noruega, que pode ter salto de nove pontos, porém mais que o dobro do crescimento de Dinamarca e Finlândia.

Dos escandinavos, os suecos têm a maior taxa de óbitos por coronavírus: 36,1 a cada 100 mil habitantes, três vezes a da Dinamarca (9,4). A Suécia também é o único dos quatro países que teve mais mortes do que seria esperado para um mês de abril, de acordo com o projeto EuroMomo, que analisa a mortalidade em mais de 20 nações europeias.

Abril de 2020, por sinal, foi o mês com mais óbitos na Suécia em 20 anos, segundo a agência oficial de estatísticas do país.

Na América do Sul, a situação é semelhante no Brasil e no Chile. Com isolamento menor em comparação a Colômbia e Argentina, os dois países também devem ter quedas mais bruscas no PIB e já acumulam taxas maiores de mortes por coronavírus.

Dos quatro, a Argentina é a única que já tinha previsão de recessão antes mesmo de o mundo descobrir o coronavírus. Em outubro de 2019, o FMI projetava que o PIB caísse 1,3%. Em abril, houve uma revisão diante da pandemia, e a queda passou para 5,7%.

Em comparação, Brasil e Chile, que tinham previsão de crescimento de 2% e 3% em outubro, respectivamente, devem ter queda de 5,3% e 4,5%.

A Argentina adotou lockdown em todo o país, e, nesta segunda (18), tinha 0,8 mortes por 100 mil habitantes. O país já ensaia a saída da quarentena, com flexibilização de algumas regras.

No Brasil, são 7,7 óbitos por 100 mil pessoas e, no Chile, 2,4. Na semana passada, a capital chilena endureceu as regras e decretou confinamento da população para tentar conter o avanço da Covid-19.

O Brasil, por sua vez, tem reabertura em alguns estados, como Santa Catarina, e lockdown em cidades de outros quatro. Nesta segunda, tornou-se o terceiro no mundo com mais casos da doença e já tem mais de 26 mil mores.

Pesquisador de economia aplicada da FGV-IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), Livio Ribeiro afirma que nenhum país é uma ilha e que dificilmente algum escapará dos efeitos econômicos da pandemia. A economia mundial, projeta o FMI, deve retrair 3%.

"Você tem países com políticas de isolamento mais soft, só que isso não quer dizer que eles são capazes de se blindar totalmente de um forte desaceleração global e regional. Não tem saída boa nem faz sentido opor saúde e economia", diz.
Para ele, o fenômeno deve ser especialmente forte na zona do euro, altamente interligada.

A Alemanha, por exemplo, demonstrou que a quarentena mais branda não implica necessariamente alta taxa de mortes. O país teve números de óbitos muito mais tímidos que os vizinhos Bélgica (campeã mundial na taxa por 100 mil habitantes) e Holanda, mas nem por isso escapou da recessão.

Nenhum dos três adotou lockdown, mas os dados de mobilidade do Google mostram que os alemães foram os que menos aderiram ao isolamento social.

Ainda assim, o FMI projeta retração 7% ao fim do ano. Holanda e Bélgica têm prognóstico parecido, com -6,9% e -7,5%, respectivamente. Todos eles já deram início à reabertura há algumas semanas.

Situação semelhante é observada na Austrália e na Nova Zelândia, bem como nos vizinhos Estados Unidos, México e Canadá. São países com diferentes níveis de mortalidade e isolamento social, mas com previsão de queda do PIB de 6,2% a 7,2%.
Flávia Faria e Diana Yukari - Folhapress
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