Economia

Rizzieri: ‘Privatização do setor elétrico é processo inacabado’

08 nov 2001 às 11:15

‘A crise no setor energético brasileiro abriu caminho para uma sucessão de problemas neste mercado e acabou por frustrar a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Embora se trate de uma empresa sólida que, a princípio deveria ser facilmente negociada, muitos problemas surgiram nestes últimos meses e afugentaram os compradores’. A segunda suspensão da venda da Copel, na terça-feira, foi um dos assuntos abordados pelo diretor-presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Juarez Rizzieri, em entrevista à Folha ontem.

Ele esteve em Londrina ministrando palestra para executivos, empresários e funcionários de alta gerência de empresas da cidade e região que participam do Programa de Desenvolvimento de Executivos, do Instituto Superior de Empresa, promovido em Londrina pela Associação do Desenvolvimento Tecnológico (Adetec). Para o especialista, o momento não recomenda a colocação à venda de uma companhia do setor. Abaixo, trechos da entrevista.


Folha - O senhor considera que era hora de vender a Copel?


Rizzieri - A Copel se insere no conjunto das empresas elétricas cuja determinação é a privatização. É uma empresa bem administrada, rentável, tem valor econômico, o que deveria facilitar a venda com valor até expressivo. O problema é justamente o momento, crítico para o setor elétrico.


Folha - Como o senhor analisa essa segunda tentativa frustrada de privatização?


Rizzieri - Deveria ser fácil vender a Copel, considerando que é uma empresa sólida. Mas as dificuldades foram surgindo nestes últimos meses. A primeira delas decorre da crise energética que projetou dúvidas sobre o sucesso da privatização, que é lida pelo mercado como um processo inacabado e mal feito pelo Estado e que se distancia do sucesso, por exemplo, do setor de telecomunicações. A Copel deveria dar sequência a um processo considerado travado pelos investidores.


Folha - Por que o processo ‘travou’?


Rizzieri - Devido à crise energética brasileira e também pela posição política do governo de Minas Gerais. O governador Itamar Franco virou bandeira política e ‘ajudou’ a reduzir a vontade política de levar esse processo para a frente. O governo federal ficou reticente, não conseguiu levar o processo de privatização da Cemig adiante. Se a Cemig não foi privatizada, por que a Copel seria? Criou-se uma identidade política entre a posição mineira e o resto do País.


Folha - Esses fatores foram suficientes para o desinteresse pela companhia?


Rizzieri - Como o sistema é interligado – a Copel não é uma empresa isolada – se o processo de privatização como um todo tivesse resistência, como ficariam os compradores da Copel? Aumentou o risco de compra da companhia. O sistema tem que funcionar e se tem alguém travando em algum ponto isso, todo o processo fica prejudicado. Esse risco não foi abatido do preço. Segundo ponto que acho importante: eu arriscaria dizer que um pouco da radicalização política do governo do Estado em vender a empresa também pesou. A posição da população, contrária à venda, piorou o cenário. Outro ponto muito importante: os compradores fugiram por razões, a meu ver, de indefinições políticas (sucessão presidencial); segundo, o dinheiro externo ficou mais difícil, devido à crise internacional. E há ainda o risco operacional.


Folha - Que risco operacional, exatamente?


Rizzieri - O risco operacional ocorre porque na hora que se engrena uma empresa boa em um contexto nacional que pode não estar funcionando bem, não se sabe o que pode ocorrer no futuro. Outra fator é que o setor elétrico vai sofrer impacto, não muito grande, mas vai sofrer com a expansão do sistema termelétrico, que é mais caro. Como compor o preço entre uma expansão mais cara e um sistema que opera mais barato? Qual o ônus que vai sobrar para a empresa mais eficiente? São dúvidas para as quais não se tem respostas ainda. O mercado atacadista sofreu reveses pelas indefinições e não cumprimento de contratos pela Cemig. Tudo isso contribuiu para aumentar o risco do mercado de energia de modo geral.


Folha - O cenário, então, não é nada propício à venda...

Rizzieri - Todos esses fatores apareceram como uma nuvem de dúvidas sobre a privatização e a Copel não conseguiu superar, apesar de sua imagem extraordinariamente positiva, todos esses aspectos que não refletisse em seu preço. O comprador acha que o valor está muito acima do que a empresa vale hoje, em decorrência desses riscos. O valor pedido era bom em um contexto. Hoje, nesse novo cenário, não é. E se o governo baixar o preço, cria-se uma resistência total.


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