Economia

Varejo vende menos, mas reajusta mais

12 jun 2003 às 20:47

Os varejistas estão vendendo menos do que no ano passado, mas vêm reajustando os preços de seus produtos acima da média do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o índice oficial de inflação.

A pesquisa mensal do comércio, divulgada nesta quinta pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou uma queda de 3,82% no volume de vendas em abril, em relação ao mesmo mês de 2002. Em contrapartida, a receita nominal dos comerciantes cresceu 18,44%, na mesma comparação.


No acumulado dos últimos 12 meses, o volume de vendas recuou 2,07%, ao passo que a receita nominal (sem desconto da inflação) obtida com as negociações comerciais no varejo aumentou 10,64%.


Com base nos dois indicadores, o economista do Unibanco Andrei Spacov calculou um índice deflator - ou seja, uma espécie de ''inflação do comércio'' - que apontou para alta de 23,10% no mesmo intervalo de tempo. Enquanto isso, a variação medida pelo IPCA ficou em 16,77%.


''Os preços do comércio aumentaram mais do que a inflação. Isso aconteceu porque o IPCA considera uma série de indicadores que não são contemplados no varejo e cujos preços podem ter recuado, como saúde e serviços gerais de lavanderia e cabeleireiro, por exemplo'', disse Spacov. Entretanto, o fato de a inflação do comércio ter sido superior à dos consumidores não significa que os varejistas aumentaram a sua margem de ganhos.


''O lucro é o que o comerciante ganha depois de descontar os seus custos. Não dá para dizer que eles estão elevando seus ganhos porque não sabemos a que índice os seus gastos estão atrelados'', explicou o economista.


Andrei lembra que o IPA (Índice de Preços do Atacado, calculado pela Fundação Getúlio Vargas), por exemplo, apresentava variação de 42,7% nos 12 meses encerrados em abril.


O recuo do volume de vendas do comércio registrado em abril representou a quinta queda consecutiva do índice. Em março, o recuo havia sido de 11,35%. O segmento com o maior peso na queda foi o de móveis e eletrodomésticos, que recuou 16,63% e contribuiu com 1,75 ponto percentual para a formação da taxa.


O técnico da área de comércio e serviços do IBGE Nilo Lopes explicou que este segmento é muito influenciado pela taxa de juros -a taxa básica está atualmente em 26,5%.


''Por serem mais caros, esses produtos geralmente são vendidos por meio de financiamentos. Quando os juros estão muito altos, este é o segmento que mais sofre'', justificou.


Até então, a maior contribuição individual para a formação do índice vinha das vendas dos hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo. Em abril, o setor teve um peso de 0,49 ponto percentual sobre a taxa total, com queda de 1,05% no volume das vendas.


Para o técnico, o resultado da pesquisa reflete o desaquecimento econômico e a queda na renda dos consumidores: ''A pesquisa mostra que as pessoas estão comprando menos em função de todo esse quadro de desemprego, salário médio real em queda e taxa de juro elevada que dificulta as compras a prazo'', comentou.

Segundo o IBGE, as vendas caíram em 24 dos 27 estados avaliados. Os maiores impactos para a formação da taxa nacional vieram de São Paulo e Rio de Janeiro, onde as vendas tiveram queda de 3,89% e 5,52%, respectivamente.


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