A Campanha da Fraternidade de 2026 foi lançada nesta quarta-feira (18) em Londrina, trazendo como tema a "Fraternidade e Moradia" e o versículo do livro de João "Ele veio morar entre nós" como lema. Celebrada todos os anos no período da Quaresma, com início na Quarta-Feira de Cinzas, o objetivo da campanha é refletir sobre temas relevantes e que têm impacto direto na vida da população.
Presente no lançamento da Campanha da Fraternidade, o arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz, explica que todos os anos a igreja faz um estudo aprofundado para entender quais são as necessidades mais urgentes da comunidade e que podem ser abordadas na campanha. A terra, o meio ambiente, os imigrantes e a educação, entre outros temas, já apareceram como destaque em anos anteriores.
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O religioso aponta que o objetivo da igreja é trazer sugestões acerca de temas difíceis e que impactam diretamente a sociedade, mas que podem ser iluminados pela fé. “Com a doutrina social da igreja nos apontando caminhos concretos com relação à fraternidade, à justiça, ao respeito à dignidade humana e aos direitos humanos, ela pode sugerir coisas que ainda hoje precisam muito da iluminação, da ciência, da tecnologia para que, enfim, possam ser resolvidos na sociedade”, detalha.
Um desses problemas, segundo ele, é o acesso à moradia, com extremos muito bem demarcados: de um lado, inúmeras casas vazias, para venda ou locação, e, no outro, pessoas sem um teto, imprescindível para a dignidade humana. “Temos muito mais casas desocupadas do que gente sem moradia”, pontua Steinmetz, complementando que a temática necessita de muito diálogo.
Dom Geremias Steinmetz explica que a função da igreja é anunciar e mobilizar a comunidade em prol da temática, falando sobre ela em todos os cantos para despertar nos fiéis a solidariedade, posta em prática no Domingo de Ramos, no dia 29 de março, momento em que os católicos podem ajudar financeiramente os projetos da igreja voltados, neste ano, para o acesso à moradia. “A igreja está em diálogo com a sociedade, apoiando aquilo que busca mais vida para a nossa gente, com maior qualidade de vida para o nosso povo”, destaca.
Quaresma
A Campanha da Fraternidade acompanha os 40 dias da Quaresma, com início na Quarta-Feira de Cinzas, servindo como uma preparação para a Páscoa. O religioso destaca que as palavras escolhidas que representam o período, de acordo com os escritos do Papa Leão XIV, são: a escuta, a palavra e o jejum. Muito comum entre os fiéis durante a Quaresma, o arcebispo explica que o jejum não é relacionado somente à comida, mas pode representar um gerenciamento melhor do tempo, do dinheiro ou até mesmo do trabalho.
A preparação para a Páscoa se intensifica durante a Semana Santa e segue nos 50 dias após a data, celebrando o Tempo Pascal, com a vivência da alegria da humanidade com a ressurreição de Jesus Cristo. “Nós somos muito frágeis e temos tantos problemas na sociedade, problemas particulares, que tiram a evidência da humanidade e coloca a evidência nas nossas fragilidades, que são muitas”, afirma.
O contraste das cidades
O coordenador da Ação Evangelizadora, padre Dirceu Júnior dos Reis, detalha que a identidade visual da Campanha da Fraternidade de 2026 traz aspectos muito importantes sobre essa realidade. Ele destaca que a imagem traz uma cidade dividida em duas cores, o que representa a dualidade, os paradoxos das cidades, com casas extremamente confortáveis e, ao mesmo tempo, pessoas que vivem em situação de rua ou vivem em condições irregulares.
Mais à frente dos prédios na imagem, aparece uma igreja, que representa a importância que a instituição tem na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Próximo à igreja, figura a obra do artista canadense Timothy Schmalz, batizada de "Homeless Jesus" (Jesus Sem-Teto, em tradução livre), que reproduz uma pessoa deitada em um banco com chagas nos pés descobertos - uma réplica da obra está instalada no Rio de Janeiro.
Reis ressalta que o corpo da pessoa não ocupa todo o banco, o que convida outras pessoas a se aproximarem. “O rosto está praticamente oculto porque as pessoas que estão em situação de rua têm as suas histórias, as suas particularidades e também as causas pelas quais elas estão ali”, esclarece. Ao mesmo tempo em que o corpo está coberto, os pés estão à mostra, sendo possível perceber que aquele é o corpo de Jesus Cristo.
“Isso significa que, na pessoa que está em estado de rua, nós temos a possibilidade cristã de enxergar não somente o rosto, mas a presença desse Cristo encarnado. E o lugar vazio naquele banco é a oportunidade que nós temos, a partir de reflexões como essas da Campanha da Fraternidade, de se aproximar dessa realidade social e ser presença de esperança por meio de formações e polícias públicas”, detalha.
O padre explica que a cartilha da Campanha da Fraternidade será lida nas missas, apresentando a realidade das pessoas em situação de rua e das condições mínimas de segurança e saneamento básico para aqueles que vivem em moradias irregulares. Para os fiéis, o gesto concreto perante a campanha pode ser feito durante o Domingo de Ramos, com doação financeira na Coleta da Solidariedade para projetos voltados às moradias e à dignidade humana.
Mais do que números, vidas
O padre Dirceu Fumagalli, pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, destacou que 57 mil pessoas estão cadastradas na Cohab-LD (Companhia de Habitação de Londrina) aguardando por uma moradia própria. Além disso, 3,6 mil famílias vivem em 55 ocupações irregulares em Londrina, o que representa aproximadamente 11 mil pessoas. O padre aponta que o número de pessoas vivendo em condições indignas em Londrina é maior do que a população de ao menos 230 municípios paranaenses.
Para muito além dos números e estatísticas, Fumagalli afirma que esse cenário representa pessoas, vidas, histórias e vivências. Ele destaca que a Campanha da Fraternidade quer converter essa realidade injusta e desigual por meio de discussões e do incentivo às políticas públicas que tratem dos problemas das moradias.
O religioso afirma ser “uma vergonha” Londrina nunca ter solucionado o problema das ocupações irregulares, visto o poder econômico do município. O pontapé inicial para solucionar o problema, na visão dele, é político, destacando a importância de eleger representantes que desejam trabalhar na causa. “O londrinense escolheu políticos que não estavam nem um pouco a fim de resolver esse problema, tanto a nível nacional quanto local”, opina, citando que não houve melhorias relacionadas às moradias na última década.