Londrina

Famílias do Flores do Campo serão realocadas em outros espaços de Londrina

09 jan 2026 às 15:17

Famílias que vivem atualmente no assentamento Flores do Campo (Zona Norte) deverão ser realocadas para outros espaços de Londrina. A informação foi confirmada pela Cohab (Companhia de Habitação de Londrina), que afirma que conduzirá o processo de reassentamento das famílias de forma planejada, com encaminhamento para diferentes áreas do município. 


Segundo o diretor-presidente da companhia, Luciano Godoi, ainda não há prazo para a medida, que faz parte de uma reorganização habitacional e envolve o mapeamento das famílias, análise da situação social de cada núcleo e a definição de alternativas dentro da política habitacional do município. Ele afirma que o objetivo é garantir moradia regularizada, com infraestrutura adequada e acesso a serviços públicos.


A realocação das famílias do Flores do Campo não será concentrada em um único local. Os reassentamentos devem ocorrer em diferentes regiões de Londrina, conforme a disponibilidade de imóveis, programas habitacionais em andamento e o perfil de cada família atendida.


O acordo


O futuro deslocamento das famílias faz parte do acordo entre Prefeitura de Londrina, Caixa Econômica Federal e Governo Federal, assinado no dia 30 de dezembro. O documento prevê a doação ao município do terreno onde está o empreendimento e a construção de 1.218 moradias populares pelo programa Minha Casa, Minha Vida com recursos do FAR (Fundo de Arrendamento Residencial), que permitirá a aquisição das casas sem ou a baixo custo.


O acordo envolve um investimento estimado em cerca de R$ 282,8 milhões do Governo Federal, sendo R$ 82,8 milhões referentes à doação do terreno, que já tem edificações construídas, e R$ 200 milhões destinados à construção das unidades habitacionais. A homologação judicial do termo é aguardada para que as próximas etapas sejam iniciadas.


Negociações


Segundo o diretor-presidente da Cohab Londrina, Luciano Godoi, a resolução do caso foi uma determinação direta do prefeito Tiago Amaral (PSD) desde o início da gestão.


“A partir do momento em que assumi como diretor-presidente, houve determinação expressa do prefeito para que fosse solucionada essa grave mazela de Londrina”, diz Godoi.


Ele esclarece que a Cohab não recebeu recursos financeiros diretamente, mas sim a doação do imóvel hoje ocupado pelo Flores do Campo, como contrapartida para viabilizar a construção das casas.


“Essas unidades virão justamente como contraprestação pelo município de Londrina solucionar essa questão habitacional que se arrasta por quase uma década”, explica.


Casas em outras áreas


Apesar do anúncio inicial, as moradias não serão construídas no Flores do Campo. De acordo com a Cohab, o local não comporta empreendimentos do sistema FAR, o que obriga a distribuição das famílias em outros conjuntos. As centenas de famílias alojadas hoje no residencial, entretanto, terão prioridade na fila de espera, que também beneficiará pessoas de outras regiões que esperam por uma casa.


“A Cohab buscará outra modalidade de construção na região [do Flores do Campo], mas, por estratégia, só vamos anunciar após concluir as negociações”, afirma o diretor-presidente, sem explicar diretamente o que a Prefeitura fará com o terreno, que tem cerca de 200 mil m².


As famílias serão realocadas gradualmente para unidades já em construção ou que venham a ser erguidas, respeitando os critérios de elegibilidade do programa federal, como renda e cadastro no CadÚnico. A análise final caberá à Caixa Econômica Federal.


Não há data definida para o início das obras. Segundo Godoi, tudo depende da homologação do acordo pela Justiça. “A partir disso, iniciaremos a alocação das famílias, sempre respeitando os critérios legais. Isso é inegociável”, reforça, garantindo que o processo será resolvido em breve “graças ao número de construtoras parceiras e ao nível técnico e econômico delas”.


Papel do Governo Federal


A deputada federal Lenir de Assis (PT) relembra que o Flores do Campo foi um dos maiores empreendimentos anunciados ainda no governo Dilma Rousseff, em 2013, mas que ficou paralisado após 2016, devido a problemas contratuais entre a Caixa e as construtoras.


“Eu era vereadora na época e já havia feito a solicitação para o Minha Casa, Minha Vida. Porém, em 2016, com a saída de Dilma, essa obra, que estava 50% construída, foi paralisada e os governos subsequentes, de Temer e Bolsonaro, não fizeram nada. A partir de 2023, sob Lula, foram dois anos com essas negociações em andamento entre o Governo Federal, a Caixa e a Cohab", explica.


Segundo ela, Londrina ficou impedida de acessar novos financiamentos habitacionais enquanto o impasse do terreno não fosse resolvido.


“Esse acordo só saiu nos últimos dias de 2025 porque foi quando a Prefeitura formalizou a apresentação de informações ao juizado que estava acompanhando aquele terreno. Neste momento, pedimos agilidade da Cohab para lançar os editais e construir essas casas”, cobra.


A deputada salienta que as políticas anunciadas para a habitação no Flores do Campo não são exclusivas para brasileiros. Todos os estrangeiros que estiverem com cadastro regularizado na Cohab terão direito a uma moradia.


"As políticas públicas são destinadas a todos, inclusive imigrantes. Essas famílias que estão no local certamente já têm cadastro na Cohab e terão direito à moradia”, afirma, pontuando que o processo de remoção das pessoas deve ser feito por meio de acordos e conversas com a população.


Comunidade comemora


Entre os moradores, a notícia foi recebida como uma vitória histórica. O líder comunitário e tesoureiro da associação de moradores do Flores do Campo, Cleberson Aparecido de Andrade, 43, diz que a comunidade celebrou a conquista.


“Foi um grande presente de ano novo. Não esperávamos por isso. Fizemos festa na comunidade”, conta.


Morador do local desde o primeiro dia da ocupação, em 30 de setembro de 2016, ele relata que a organização comunitária foi decisiva para o avanço das negociações.


“As coisas começaram a andar depois da associação, que foi registrada em cartório. Assim, ficou mais fácil articular com o poder público. Todas as decisões que tomamos aqui são feitas por meio da associação de moradores.”


A unidade de representação comunitária também administra problemas cotidianos do bairro. “Hoje, por exemplo, estamos fazendo um racionamento de água, porque, se não fizermos isso, a água não chega a uma parte da comunidade”, explica Andrade.


Flores do Campo, local de amparo


A ocupação abriga famílias que se instalaram no local após perder o emprego, não conseguir pagar aluguel ou enfrentar situações extremas. É o caso de Richard da Silva, 40, auxiliar de serviços gerais, que veio de Bauru (SP) em busca de trabalho.


“No começo, faltava tudo. Buscávamos água no Jardim Catuaí [Zona Norte] e trazíamos em galões. Não tinha banheiro. Usamos fossa até hoje. Energia sempre foi ‘gato’ [ligação irregular]”, relata.


Assim como ele, Silvana Mariano, 49, é moradora do Flores do Campo desde o segundo dia de ocupação. Ela conta que viu no local a única oportunidade que tinha no momento para recomeçar a vida.


"Cheguei aqui no segundo dia de ocupação. Estava assistindo TV quando vi a notícia. Eu pagava aluguel lá no Santa Fé [Zona Leste] e disse para as minhas filhas: 'Vamos para lá. É uma oportunidade para a gente'. Cheguei após ficar viúva e com os meus filhos pequenos. O Flores ajudou muito a gente". 


‘Nós conseguimos as melhorias’


Luciane Souza, 39, chegou no terceiro dia, com quatro filhos e o marido sem emprego, após quase ser despejada.


“Abriram as portas para mim. Não existia nada. Fazíamos uma fogueira em cada esquina e ficávamos assim a madrugada inteira. Cada melhoria, nós mesmos fomos conseguindo”, ressalta.


Segundo ela, há muitas pessoas que criticam os moradores do residencial, porém, garante que os locais não querem “nada de graça”, salientando que estão em busca dos próprios direitos.


"Muitos nos criticam por estarmos aqui, mas estamos aqui por necessidade. Queremos uma moradia melhor e não é nada de graça. Queremos pagar água, luz e tudo. Às vezes ficamos até uma semana sem água. É um sofrimento nesse calor.”


Souza relembra que, para ter acesso a água encanada, os moradores cavaram quilômetros para levar água do Jardim Catuaí, bairro vizinho, para o Flores do Campo.


"Para ter água, nós cavamos do Catuaí até aqui para passar os canos. A energia elétrica funciona, mas, em algumas casas, a geladeira não gela e as lâmpadas ficam piscando. Nem ventilador funciona. Quando o transformador estraga, nós juntamos dinheiro e compramos."


Final feliz


Toda essa situação é vista por Souza como uma batalha que foi necessária para vencer a guerra. No Flores do Campo ou em qualquer lugar, a sensação de ter uma casa no próprio nome a faz vislumbrar um final feliz para ela e a família.


"Essa foi a melhor notícia do mundo. Saber que conquistamos o que é nosso. Lutamos e ganhamos. A associação lutou muito para estarmos onde estamos hoje. Independentemente se for aqui ou em outro lugar, estamos ansiosos.”

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