Descrença, logística e excesso de informação
Segundo o cientista político Ronaldo Gaspar, do Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL (Universidade Estadual de Londrina), dificuldades de transporte e locomoção, idade, condições de saúde e viagens podem impedir o comparecimento. Esses fatores, porém, não explicam sozinhos o aumento da abstenção.
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Para Gaspar, parte dos eleitores passou a questionar a capacidade da política de resolver problemas que permanecem ao longo dos governos. “Passam os governos e os problemas, em que pese algumas mudanças em políticas públicas, continuam estruturalmente os mesmos”, afirma.
O advogado Dorival Assi, especialista em direito eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), também destaca a percepção de que o voto precisa fazer diferença. Quando o eleitor acredita que sua participação não terá efeito sobre o resultado, a disposição para comparecer pode diminuir.
Mas há uma particularidade brasileira que também facilita a ausência. Embora o voto seja obrigatório, as consequências para quem não comparece são pequenas. “Nós temos um voto obrigatório no papel, mas, na prática, acaba sendo mais próximo de um voto facultativo, tendo em vista que a multa é de R$ 3,51. E, hoje, o eleitor consegue justificar a ausência também através de aplicativo [e-Título]”, aponta.
Assi também aponta a transformação na forma de consumir informação política. Nas redes sociais, candidatos, partidos, influenciadores e usuários disputam a atenção do eleitor, que pode encontrar conteúdos verdadeiros, falsos, distorcidos e contraditórios no mesmo ambiente.
Para o advogado, esse excesso dificulta a identificação do que é confiável e pode transformar o interesse pela política em cansaço ou desconfiança.
A mudança também afeta a renovação política. Segundo Assi, as redes sociais permitem que novos candidatos construam visibilidade e capital eleitoral fora dos caminhos tradicionais dos partidos. Para Gaspar, por outro lado, o enfraquecimento de movimentos sociais e organizações populares reduz a formação de novas lideranças.