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Sequência de adiamentos

Reconstituição de suposto confronto que matou jovens não será feita no local do crime

Simoni Saris - Grupo Folha
09 mar 2026 às 17:16

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Está marcada para esta terça-feira (10) a reconstituição da ação envolvendo policiais da Companhia de Choque da PM (Polícia Militar) que resultou na morte de dois jovens e deixou um terceiro ferido, em 2022. Embora a ocorrência tenha sido registrada na PR-445, próximo ao campus da Universidade Estadual de Londrina (zona oeste), a simulação será realizada no Autódromo Internacional Ayrton Senna (zona norte).


A diligência vem sendo adiada reiteradamente desde o ano passado. A primeira foi marcada para abril, no local da ocorrência, mas foi cancelada. O comando da PM alegou que a data coincidia com a realização da ExpoLondrina e a corporação não dispunha de efetivo suficiente para acompanhar e garantir a segurança durante a reconstituição.

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Uma nova data foi escolhida para maio, mas também precisou ser desmarcada, sendo redefinida para outubro, dessa vez, na sede do IML (Instituto Médico-Legal), no Jardim Europa (zona sul). No entanto, no dia agendado, divergências entre os advogados, os familiares das vítimas e as autoridades presentes acabaram culminando em novo cancelamento. A simulação ficou para 10 de março de 2026 e houve nova mudança de local, sendo transferida para o autódromo.


Os dois rapazes foram mortos pela PM no dia 6 de maio de 2022, por volta das 17h30, na marginal da PR-445. Anderbal Campos Bernardo Júnior, 21, Willian Jones Faramilio da Silva, 18, e um outro rapaz, na época, com 23 anos, trafegavam pela rodovia em um veículo conduzido por Bernardo. Eles seguiam para um shopping na zona sul da cidade quando notaram que estavam sendo seguidos por uma viatura da Companhia de Choque. Houve tiroteio e o condutor e Silva morreram no local. O terceiro rapaz, que estava no banco de trás, foi atingido por sete disparos, mas sobreviveu.


A PM alega que a morte ocorreu em confronto, mas familiares das vítimas e o sobrevivente sustentam que nenhum deles estava armado e que os policiais se aproximaram do veículo e imediatamente começaram a atirar, sem pedir para que parassem. “Em nenhum momento acharam que estavam sendo perseguidos pela polícia. Eles não tentaram fugir. As provas que temos mostram que o Anderbal estava andando devagar na hora em que começaram a atirar contra eles. Foi uma execução”, disse a tia de Silva, Haydee Melo. Segundo ela, os policiais efetuaram ao menos 50 disparos contra os três jovens. Após a morte do sobrinho, Melo ingressou no coletivo Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta, formado por familiares de pessoas assassinadas por policiais na região de Londrina.


Sobre a realização da simulação em um local diferente de onde foi registrada a ocorrência, Melo demonstrou desapontamento. “A gente fica bem frustrado em relação à reconstituição não ocorrer no local. Algumas dúvidas vão ficar sem resposta”, afirmou. “Se eles são policiais e não se sentem seguros, imagina nós. Como cidadã londrinense, acho vergonhoso.”


A reconstituição da cena de um crime, oficialmente chamada de reprodução simulada dos fatos, pode ter vários objetivos, entre eles, testar a veracidade das versões relatadas às autoridades, confrontar testemunhas e réus e auxiliar o convencimento da Justiça, a partir do resultado do laudo pericial. Esse procedimento está previsto no artigo 7º do Código de Processo Penal brasileiro, mas não há nenhum trecho da lei que obrigue, de forma literal e absoluta, que a reconstituição ocorra no local exato do crime.


A flexibilidade pode se dar em razão da alteração do cenário da ocorrência, como a demolição de um imóvel, por exemplo, ou por questões de viabilidade técnica, segurança ou ordem pública. Mas nesse caso, a reconstituição deve simular as condições originais em que o crime aconteceu.


A alegação da defesa dos PMs ao solicitar que a reconstituição fosse realizada em local distinto da ocorrência do crime teria sido a falta de segurança mesmo sem a obrigação legal de os policiais participarem da simulação.


O advogado Mauro Martins, que representa as famílias de duas das três vítimas, questiona os motivos que embasaram o pedido do advogado que representa os policiais militares. “Estamos falando de PMs, uma equipe especializada da PM, equipe do Choque. Na viatura, havia quatro policiais, todos armados, um com arma longa. Se não me engano, tinha uma viatura da P2 (divisão de inteligência da PM), com policiais armados. Um fuzil foi usado. Foi feito todo o isolamento do local no dia dos fatos. Houve algum tumulto? Algum impedimento para o perito, para o Instituto de Criminalística, para o delegado, para a imprensa? Houve ameaça de morte no calor da situação? Não. E por que, agora, há tanto tempo, haveria risco?”


Apesar das dúvidas levantadas, Martins disse que “acabou aceitando” a forma de reconstituição que foi definida. “Mas para nós, enquanto defesa, vamos produzir tudo o que for necessário.”


A reportagem tentou ouvir o advogado dos PMs, mas não obteve resposta.

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Entre os dois representados por Martins, está a vítima que sobreviveu. A defesa dos policiais também teria tentado barrar a sua participação na reconstituição. “A participação dele interessa ao Ministério Público, ao magistrado, aos familiares das vítimas que morreram, interessa até mesmo à corregedoria da PM que apura isso e que tem interesse na busca da verdade e interessa à sociedade. A quem não interessa a participação dele?”, indagou o advogado.

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