As ruas de Londrina são habitadas por cerca de 300 pessoas. Homens e mulheres moradores de praças, terrenos baldios e estruturas abandonadas. Alguns pedem esmolas para comer. Muitos furtam para sustentar os vícios. A dependência química é quase regra entre os andarilhos. A saudade, também. Eles sentem falta da família, de um prato de comida, da cama quente em um dia frio.
Os homens carecem de paixões, de um casamento pré-fabricado, da cerveja compartilhada na roda de amigos. As mulheres sonham com os filhos que nunca vão poder criar, com o afago de alguém desconhecido, com o salto alto de um sapato caro.
A mendicância transborda sentimento, mas quase ninguém sabe disso.
A reportagem do Bonde passou a noite em um dos abrigos da cidade na última semana para ouvir histórias. A unidade masculina do projeto Pão da Vida atende 25 homens adultos. O imóvel está instalado na rua Lucilla Balalai, quase ao lado do Hospital do Câncer de Londrina.
A casa atende os desabrigados com cinco refeições diárias, banho, cama quente para dormir e assistência médica e psicológica.
O servente de pedreiro Leandro dos Santos, de 28 anos, está abrigado na unidade há 20 dias. "Fico aqui para a poeira abaixar", disse, referindo-se às brigas familiares.
O jovem é dependente de crack. Em nome do vício, Leandro morou na rua por três anos e meio. "A droga é a pior doença do mundo. Mata mais que tudo", afirmou.
Criado no distrito de Paiquerê, zona rural de Londrina, o rapaz 'conheceu' o crack aos 16 anos. "Saí de casa com essa idade para ser livre. Estava no auge da bagunça. Comecei bebendo cerveja e fumando cigarro. Aí um amigo me apresentou o crack e eu me perdi", contou, sem revelar detalhes do início da dependência química.
Leandro já passou pela clínica Shangri-lá - "foram 45 dias de muito sofrimento" - e alguns meses no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos e Alcoolistas (Credequia), no patrimônio Três Bocas. "Antes eu tinha preconceito, acho que por ter que ficar preso nestes locais. Hoje percebo que esse pessoal ajuda de verdade".
Ele também viveu alguns meses na casa da irmã, mas foi levado dela por uma recaída. "Ela me disse 'a porta da rua está aberta' e eu fui embora", explicou. Leandro garantiu que não usa crack há três meses. No entanto, o jovem não se diz 'curado'. "O crack te manipula e faz você viver à disposição dele".
Os três anos e seis meses de rua foram marcados por uma série de dificuldades. O frio e a fome eram as principais delas. Leandro precisava furtar para poder se drogar e esquecer do "resto". "O crack fazia a fome ir embora", explicou.
Com a ajuda do abrigo, o jovem conseguiu se firmar. Ele trabalha atualmente de servente de pedreiro. Sai cedinho da unidade e só volta à noite, cansado e, principalmente, sóbrio. "Eu tenho bastante serviço. Hoje em dia ninguém quer fazer mais trabalho braçal", contou. Sobre o futuro, Leandro desconversou: "Tenho que viver um dia de cada vez".
"Barba"
Quarenta dos 59 anos de Paulo Salles Ferreira pertencem ao "trecho". "Fui embora de casa depois de tentar roubar o meu pai e ele começar a me acorrentar. Usava aqueles cadeados grandes... Coitada da minha mãe, como sofria. Não nasci para ficar preso não, moço. Eu sou do mundo", contou o trecheiro, mais conhecido como "Barba" pela população de rua de Londrina.
O apelido é resultado dos inúmeros anos de pelo no rosto. Ele admitiu que não gosta da barba, mas justificou a manutenção dela: "Não adianta fazer hoje. Amanhã cresce tudo de novo. E será que eu vou ter lugar para cortar a barba de novo?", questionou.
Natural de Bela Vista do Paraíso, Ferreira já passou por inúmeras cidades do Paraná e por estados como São Paulo, Mato Grosso e Rondônia. Ele garantiu que sempre viajou a pé. "E às vezes descalço", afirmou, mostrando os pés rachados.
As experiências vividas por "Barba" são únicas. O homem já dormiu na praça da Sé (SP), fugiu de presídios, pegou malária após beber água de enxurrada de chuva - "só sei que Deus curou" -, viveu em manicômio judiciário e até garimpou em Alta Floresta (MT). "Tudo o que ganhei, eu deixei por lá mesmo", afirmou, referindo-se aos prostíbulos instalados no município mato-grossense justamente para 'arrecadar' o ouro dos garimpeiros.
Ferreira é casado. Ele conheceu a esposa em Altônia (PR) e teve dois filhos com ela: "Emerson e Anderson", disse, enfático e todo orgulhoso, mas sem saber informar a idade deles. A relação do homem com a família era boa, mas o "trecho chamou". "Deve ter algum espírito mau no trecho. Não consigo me livrar dele", observou.
"Barba" também já foi rico por alguns dias, quando encontrou uma maleta de cor preta, recheada com R$ 6 mil em dinheiro, embaixo de um dos bancos do calçadão de Londrina. "O pessoal vinha me pedir dinheiro para pinga e eu dava R$ 50, R$ 100", lembrou.
O trecheiro não conseguiu estipular datas para os acontecimentos. Ele luta contra o alcoolismo até hoje. De vez em quando, deixa o abrigo para ir atrás da bebida. O homem ingere o que consegue
comprar, desde a cachaça ao álcool de posto de combustíveis.
Atualmente, ele tenta se aposentar. "O pessoal do abrigo está cuidando disso para mim", explicou. Sobre os tempos de trecho, Ferreira disse sentir saudades e garantiu que só não continua com as andanças por estar debilitado. "O problema está aqui", disse, apontando para as costas.
O sonho de Atalíbio
Atalíbio da Silva de Moraes tem 52 anos. Ele nasceu em Minas Gerais, mas passou grande parte da vida na região de Londrina. O homem viveu em um abrigo quando era criança, já que a mãe não tinha condições financeiras para criá-lo. Moraes voltou a morar com ela só depois dos 25 anos, em um sítio de Santa Cecília do Pavão. Ele ajudava a família no trabalho rural. "Passei pouco tempo com eles. Minha mãe e o meu padrasto morreram um logo após o outro. Meu irmão se casou depois da morte deles e eu fiquei sozinho. Aí deixei o sítio para ir atrás de outros parentes".
As andanças de Moraes completaram doze anos em 2014. Ele já passou por cidades do interior de São Paulo - "meu tio mora por lá" - e se disse explorado em propriedades rurais de Santa Bárbara (MG). "Ganhava R$ 2 mais meia marmita para passar o dia roçando pasto", observou.
Assim como "Barba", Moraes só viaja a pé. "Os caminhoneiros dizem que não podem dar carona por que as transportadoras proíbem", explicou. Em uma das viagens, Moraes ficou muito fraco e perdeu temporariamente a visão. "Ouvi um caminhão vindo atrás e pedi ajuda para Deus. Pulei para um lado e a carreta passou pelo outro. Dormi no mato naquele dia. Acordei no outro, bebi água em um córrego e pedi comida no posto de gasolina. Já passei muita fome nesta vida, moço".
Sem vícios, o problema do andarilho é psiquiátrico. Ele recebe cerca de R$ 800 por mês de auxílio-saúde. Toma remédios controlados, mas só quando passa por abrigos que oferecem os medicamentos.
Moraes volta para Londrina entra ano, sai ano. Fica na unidade do projeto Pão da Vida desde 2007. A atual estadia do homem completou um mês nesta semana. Moraes gosta dos colegas de abrigo, mas se diz cansado de uma vida solitária, que não teve, em nenhum momento, a criação de vínculos afetivos duradouros.
Emocionado, o homem pediu ajuda para encontrar os parentes, apesar de não saber, ao certo, onde eles estão ou até mesmo quem eles são. "Será que isso nunca vai acabar?", questionou.
Marcelo, os filhos e a cocaína
Marcelo Rodrigues dos Santos, o "Gordinho", é homem de mulheres e filhos deixados por um caminho tortuoso. A trajetória do rapaz de 29 anos é marcada pela arte circense e também pela dependência química. Adolescente, Marcelo deixou a família em Ouro Verde do Oeste (PR) para seguir com o circo e, depois de alguns anos, quando já era um jovem adulto, abandonou os palcos por conta da cocaína.
Sobre os vícios adquiridos no decorrer da vida, ele resumiu: "Só não fumo maconha".
O rapaz é filho de pais adotivos. A boa relação com eles durou até que a mãe, teoricamente sem condições de gerar um filho, revelou que estava esperando um bebê. "Começaram a jogar na minha cara que eu era adotado, que não era filho de verdade. Preferi ir embora com o circo", relatou.
Marcelo saiu de casa aos 13 anos. "No início, ajudava na manutenção do picadeiro. Comecei a participar dos espetáculos só depois dos 15, 16 anos", contou. Ele era uma das 'estrelas' da trupe no número de arremesso de facas.
A carreira de "Gordinho" no circo durou cinco anos. O rapaz visitou diversos estados enquanto artista. Ele passou por cidades paranaenses, paulistas, cariocas, mineiras, catarinenses e gaúchas.
Conheceu pessoas, lugares, costumes e também a dependência em cocaína. "Descobri que só precisava ir até a 'biqueira' para esquecer os problemas".
O vício na droga fez Marcelo largar a arte circense e virar trecheiro. "Eu chego em um lugar, trabalho ou peço, junto dinheiro e vou para outro", explicou. "Um dia fui para uma cidade de Minas Gerais só para beber uma pinga de lá, que era bem conhecida", exemplificou, sem revelar o nome do município.
Diferentemente de "Barba" e Atalíbio, o rapaz não usa as solas dos pés para viajar. "Não sou maluco", justificou, entre uma risada e outra.
Questionado sobre as principais dificuldades enfrentadas nas ruas e estradas, Marcelo citou apenas uma: "O preconceito das pessoas". Já sobre as conquistas e alegrias mais significativas, ele foi taxativo: "meus filhos".
O rapaz tem dois filhos, de três e oito anos. Os dois moram com as mães. O mais velho em Campo Largo e o mais novo em Cambé. "Tentei registrar o de três anos, mas a avó dele não deixou".
"Gordinho" sente muita falta dos meninos. Trabalhou durante um período não revelado para pagar pensão ao garoto de mais idade, mas "a mãe dele não aceitava o dinheiro". "A minha relação com ela é muito conturbada", acrescentou.
Cansado de ser frequentemente impedido de ver os filhos, o rapaz começou um tratamento contra a dependência química por conta própria no início deste ano. "Perdi os meus filhos para a cocaína, mas vou recuperá-los", garantiu.
Marcelo garantiu que "não usa nada" há três meses. Atualmente, tenta driblar o vício com a profissão de jardineiro. "Estou com a carteira registrada, recebendo direitinho...", afirmou. Ele trabalha em uma empresa de Londrina, cidade onde mora desde outubro do ano passado. "Quero voltar a procurar o meu moleque (em Cambé), mas ainda estou tomando coragem", revelou.
"Coquinho"
Elias da Silva, de 43 anos, criou-se nas ruas de Londrina. Ele vê o céu como teto desde quando tinha nove anos. Conhecido como "Coquinho" no abrigo do projeto Pão da Vida, precisou fazer um esforço tremendo para relembrar o passado e falar um pouco da vida.
Silva contou à reportagem que vem de uma família de moradores de rua. A irmã vive, atualmente, na Casa do Bom Samaritano de Londrina. O outro irmão, gêmeo, já faleceu. "Tenho muita saudade dele. Morreu de tanta droga. Morava em um barraco no Santa Fé", relatou, com a voz fraca e baixa.
Assim como o irmão, o homem também foi dependente químico. "Cheirava muita cola. Fui internado no Shangri-lá e quebrei as duas pernas tentando fugir de lá", observou.
Negro e franzino, "Coquinho" tem o corpo cheio de marcas da vida. As pernas mal curadas expõem o seu estado debilitado. As cicatrizes antigas estão espalhadas por todo o corpo dele. As mãos calejadas não param de tremer. Os olhos marejados encararam o chão durante toda a conversa, menos na hora da foto abaixo.
Assim como alguns colegas de abrigo, o homem disse estar exausto da vida. "Às vezes é melhor morrer né?".
A rua e os abrigos
Londrina tem cinco abrigos para moradores de rua. As três casas do Projeto Pão da Vida oferecem 59 vagas para homens e mulheres com 18 anos ou mais de idade. A cidade conta, ainda, com a Casa do Bom Samaritano (70 vagas); e uma unidade do Serviço de Obras Sociais (SOS), que oferta mais 18 vagas aos que precisam. Ao todo, são 147 lugares, menos da metade se o número for comparado aos 300 moradores de rua que o município possui atualmente.
A triagem é feita pelo programa Sinal Verde, da Secretaria Municipal de Assistência Social. As equipes do município percorrem diariamente os lugares mais frequentados pelos andarilhos fazendo abordagens e oferecendo vagas em abrigos ou atendimentos médicos e psicológicos.
Na avaliação do educador social do Pão da Vida, Elton Luiz Ferreira, os piores problemas enfrentados pelos moradores de rua estão relacionados diretamente à dependência química. "O crack é uma epidemia e nós não temos como tratar os viciados na droga aqui em Londrina", destacou. "A cidade só tem o Caps A/D (Centro de Atenção Psicossocial".
"Fica muito difícil", completou.
Segundo ele, "o usuário não dá conta, a família se omite e o poder público não tem estrutura". "A luta precisa ser diária".