Londrina

Violência doméstica é tema de palestra em escola na Zona Norte de Londrina

21 ago 2025 às 14:56

A comunidade da Escola Municipal América Sabino Coimbra, no Vista Bela (Zona Norte), participou de uma palestra com a Poder Judiciário e a Polícia Militar sobre a temática da violência doméstica e familiar, sendo o foco principal a violência contra as mulheres, na manhã desta quinta-feira (21).


Os participantes puderam acompanhar uma apresentação do histórico da Lei Maria da Penha (N° 11.340/2006), que completa 19 anos neste mês de agosto. A Lei trata da violência doméstica e familiar, envolvendo casos de agressão entre mães, filhos, sogros, sogras, ou seja, qualquer pessoa que faz parte do convívio familiar, ainda que não vivam sob o mesmo teto.


A juíza titular do 2° Juizado de Violência Doméstico e Familiar, Adriana Carrilho Danna Persiani,  explica que o principal objetivo do encontro é divulgar toda a rede de apoio para que as mulheres vítimas de violência possam 'quebrar o ciclo'. "É uma conscientização para elas saberem que não estão sozinhas", reforça. 


A juíza afirma que é fundamental entender os sinais de violência, já que vão muito além da agressão física. Antes de chegar a uma violência física, o ciclo começa com xingamentos, ofensas e humilhações. "Um beliscão é uma violência, um tapa no rosto é uma violência, um empurrão é uma violência e pode desencadear até mesmo uma lesão", detalha.


Além disso, ela cita também a violência patrimonial e o controle do companheiro em relação à vítima, o que vem através do controle do dinheiro, da roupa e do que ela pode ou não fazer. "Ele quer que ela esteja sempre sob o controle dele", explica, complementando que o homem tenta fazer com que a mulher se sinta mal e permaneça na relação.


Em muitos casos também, Persiani aponta que o uso de drogas e o consumo do álcool são usados como justificativa para as agressões. "No outro dia, ele manda presente, pede desculpas", afirma, ressaltando que esse período é chamado de 'lua de mel' dentro do ciclo de violência. 


Com o passar dos dias, as agressões se repetem e se agravam, podendo chegar ao extremo, que é o feminicídio. Neste ano, entre janeiro e junho, o Paraná já registrou 179 casos de feminicídio, sendo 105 tentados e 74 consumados. Na prática, o número representa quase um caso de feminicídio por dia.


A importância da denúncia


A denúncia é o primeiro passo para romper o ciclo de violência. A juíza explica que muitas conseguem sair do ciclo com apoio familiar, em que saem da casa que dividiam com o agressor e voltam a morar com a família. Por outro lado, por dependência financeira, muitas permanecem no relacionamento por pensarem que não há outra opção. 


Em Londrina, o CAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) e a Casa Abrigo prestam apoio para as mulheres vítimas de violência e acolhem as vítimas e seus filhos.


Ela aponta que o objetivo é que a comunidade escolar presente repasse as informações e também estejam preparadas para entender o relato de crianças que convivem com a violência doméstica.


A vice-diretora da Escola Municipal América Sabino Coimbra, Franciele Oliveira Zabine, afirma que a equipe da unidade já ouviu relatos de crianças durante as rodas de conversas envolvendo casos de violência contra elas ou familiares. Um dos casos mais marcantes era o de uma mãe mantida em cárcere privado.  Segundo a vice-diretora, a escola tem cerca de 1,2 mil estudantes. 


Além disso, situações de abuso ou de falta de alimentos em casa também já foram percebidos pela comunidade, seja por relatos  por meio de desenhos ou produções de texto. Segundo ela, eventos como esse ajudam a equipe a se preparar ainda mais para entender os sinais de violência que, em muitos casos, são sutis. A partir do momento em que eles identificam um possível caso de violência, a escola faz o encaminhamento necessários. “É um tema que precisa ser mais disseminado, tanto nas escolas quanto em grupos de bairro”, afirma. 




A soldado Kelly Vanessa da Mota Castagnaro, da Patrulha Maria da Penha do 5° BPM (Batalhão de Polícia Militar), explica que a equipe vê no dia a dia a resistência das mulheres em denunciar e buscar ajuda, principalmente por dependência emocional e financeira, o que dificulta o rompimento do ciclo de violência. 


Com os diversos casos divulgados na mídia de mulheres que ligaram para a polícia e pediram por pizza ou algum medicamento, na intenção de camuflar a denúncia para o agressor, ela citou um exemplo recente que o 5° BPM recebeu. 


No telefonema, a vítima chamou o policial de "amiga" e perguntou quando ela passaria na casa dela. Nesse momento, o agente entendeu do que se tratava e acionou a viatura. Em outra, a mulher pediu por um frete.

O bate-papo rendeu troca de experiências entre os presentes e um debate sobre os mais variados assuntos relacionados à violência doméstica e contra a mulher. A soldado Kelly relata que a  violência e o feminicídio acontecem com mulheres de qualquer idade, classe social e escolarização e que não é registrado apenas nas periferias. 


Como denunciar


Em casos de violência, as mulheres podem ligar para a Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal, no 153, ou para a Polícia Militar no 190. O contato também pode ser feito na Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres no 3378-0113.


Em Londrina, o CAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) oferece serviço social, psicológico e jurídico para as mulheres acima de 18 anos em situação de violência doméstica e familiar. O CAM fica na Avenida Santos Dumont, n° 408, e funciona das 8h às 18h. O telefone para contato é o 3378-0132.

Em casos mais graves, em que a vida das mulheres está em risco, é feito o encaminhamento para a Casa Abrigo Canto de Dália, que acolhe as vítimas e seus filhos ou dependentes menores de 18 anos.



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