O ex-homem forte do Iraque é empurrado para forca, com a corda no pescoço: as imagens do enforcamento de Saddam Hussein não têm precedentes no mundo árabe, onde correm o risco de reforçar a ira e o sentimento de humilhação, opinam os analistas.
A sensação é exacerbada pela escolha da data da execução, já que o ex-ditador iraquiano, derrubado em 2003 por uma invasão liderada pelos Estados Unidos, foi enforcado na manhã de sábado, primeiro dia do Aid al-Adha, a festa muçulmana do sacrifício. As informações são da Agência France Presse.
A celebração lembra o gesto de Ibrahim (Abraão) que, segundo o Alcorão, estava a ponto de matar o filho Ismael obedecendo uma ordem de Deus, quando o Todo-Poderoso enviou um cordeiro para sacrificar no lugar do filho. "Saddam foi levado pela força como um cordeiro à espera de ser sacrificado", afirma Emad Gad, analista político do centro de Estudos Estratégicos de Al-Ahram, no Egito. "O principal problema é que a execução aconteceu na manhã do Aid al-Adha. Isto provocará revolta e humilhação entre as pessoas, tenham apoiado Saddam ou não", acrescentou. "Em geral, na região, as pessoas já são antiamericanas. Estas imagens aumentarão este sentimento", destacou.
Para Nabil Jatib, chefe de redação da televisão por satélite Al-Arabiya, com sede em Dubai, Saddam Hussein ficará na memória como "quem enfrentou as ameaças externas em nome dos árabes, quem combateu o Irã (1980-1988) e lançou mísseis contra Israel durante a primeira guerra do Golfo, em 1991". "As imagens recriarão a cólera e a frustração para grande parte das massas árabes. Mais uma vez, os árabes sentiram que houve um ataque contra seus símbolos", disse.
"A difusão do vídeo completo da execução na forca de Saddam Hussein pela internet é uma novidade no gênero, ao menos no mundo árabe", declara Samer Hamzeh, um consultor do grupo Dubai Media Incorporated, que reúne a Dubai TV e outros três canais de televisão. "Saddam foi enforcado quase ao vivo.Embora Saddam se mostre sereno e circunspecto nos momentos que precedem a execução, isto não diminui o sentimento de humilhação", destaca Hamzeh.
"Não é seu comportamento o que se questiona. O espectador vai considerar a imagem humilhante. E a humilhação pode provocar revolta e violência", considerou.
Para Emad Gad, no entanto, as imagens dos últimos momentos do ex-ditador iraquiano poderiam enviar uma "mensagem" aos outros regimes autoritários do Oriente Médio. "Isto pode ser visto por alguns como uma mensagem a outros ditadores, o que os faria refletir antes de cometer crimes contra seu próprio povo", concluiu. (AFP)