Comportamento autoritário
Segundo ela, Crepe sempre teve um comportamento autoritário, em que, por vezes, mandava que ela saísse de casa. E em uma dessas vezes ela realmente saiu. Apesar dos pedidos para que voltasse, ela não voltou. “No dia anterior à tentativa de feminicídio, ele chegou a riscar o meu carro. Mesmo diante dessas atitudes, eu jamais imaginei que a situação pudesse chegar a um ponto tão extremo”, conta.
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Em um crime que ela considera como premeditado, Silva explica que no dia, o ex-companheiro enviou um áudio dizendo que “a deixaria em paz”. Na rua em que dá acesso à casa que ela morava com os filhos, a mulher chegou de carro junto ao mais novo e viu a caminhonete do agressor parada próxima ao endereço.
Ela acelerou na tentativa de fugir do agressor, mas ele acertou a traseira do veículo e só parou quando o carro atingiu um poste. “O poste caiu sobre mim, só não morri porque as mãos de Deus estavam comigo e meu filho. Lembro em câmera lenta de tudo. Achei que fosse morrer ali”, comenta.
No momento que ela abriu uma das portas para que o filho fugisse, Silva conta que Crepe apontou uma arma para os dois e disparou o gatilho. Ela e o filho saíram correndo, momento em que o agressor fugiu com a chegada de testemunhas.
Formatura
Pouco tempo depois da tentativa de feminicídio, no dia 27 de fevereiro, estava marcada a cerimônia de colação de grau, mas a formanda não pôde participar pelo fato de o agressor permanecer foragido.
Apesar de não poder celebrar fisicamente a conquista, a mulher esteve presente através de uma carta. “Essa carta representa a voz que eu não pude levar naquele dia, o abraço que não pude dar nos meus professores e colegas, e a presença que a violência tentou tirar de mim. É também um símbolo da minha resistência, da minha fé e da minha vontade de continuar vivendo e lutando pelos meus sonhos”, afirma.
A carta foi lida pela professora Carine Maria Senger em frente a todos os colegas e amigos. Ela afirma que poderia ter ido acompanhada de uma escolta para realizar o sonho, mas optou por não colocar a vida de todos em risco.
“Mesmo não estando lá fisicamente, meu coração sempre esteve ligado àquele momento. E poder expressar isso por meio de uma carta é uma forma de transformar uma história de dor em uma mensagem de força, esperança e superação”, garante.
Exemplo
Após a história ser divulgada, Silva conta que muitas mulheres a procuraram para relatar suas próprias lutas. “Hoje eu tento seguir a minha vida e quero que outras mulheres também encontrem forças para fazer o mesmo. O silêncio protege o agressor, mas a coragem de falar pode salvar vidas”, afirma.
“Tudo o que vivi foi extremamente doloroso, mas eu escolhi não deixar que esse sofrimento definisse o fim da minha história. Pelo contrário, ele se tornou uma motivação para seguir em frente, reconstruir minha vida e continuar acreditando nos meus sonhos”, pontua.
Mesmo que nada do que aconteceu seja apagado, o que ela deseja é justiça. “O fato de ele ainda estar foragido traz, sim, uma sensação constante de insegurança. De certa forma, quem acaba vivendo com limitações somos nós. Eu e meus filhos seguimos reclusos, tentando nos proteger e reconstruir nossa vida, enquanto ele caminha livremente. Essa é uma realidade muito difícil de aceitar”, lamenta.
Polícia Civil
Em nota, a PCPR (Polícia Civil do Paraná) disse que segue em diligências para localizar o suspeito, de 58 anos, investigado pela tentativa de feminicídio em Apucarana. “Ambos os veículos já foram periciados. A PCPR também analisa um celular encontrado dentro do veículo do suspeito”, complementa.
Qualquer informação que leve à captura do suspeito podem ser encaminhadas de forma anônima para os telefones 197 (Polícia Civil), 181 (Disque-Denúncia) ou pelo 3423-0972, diretamente com a equipe de investigação.
Veja trecho da carta escrita por Sayonara
"Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça. Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha livre. Minha ausência nesta festa não é uma escolha; é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade.
Mas quero que saibam: ele não venceu.
Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não parei. Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver.
Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que o meu lugar vazio hoje - representado pela professora Carine - sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva."