Paraná

No Paraná, formatura vira símbolo de resistência contra o feminicídio

13 mar 2026 às 18:10
Nas vésperas do Dia Internacional da Mulher, a história da administradora Sayonara Doraci da Silva, 38, de Apucarana (Centro-Norte), atravessou o país depois que a carta escrita por ela para ser lida em sua colação de grau emocionou colegas, professores e leitores. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio e impedida de participar da cerimônia por questões de segurança, ela transformou o momento em um manifesto pessoal de resistência e superação.

Apesar da frustração de não comparecer à solenidade, a esperança de que o futuro reserva coisas boas veio como uma forma de presente, dias depois, com a notícia da aprovação no programa de mestrado da UEM (Universidade Estadual de Maringá). “Continuar estudando é, para mim, uma forma de resistência, de superação e de esperança”, diz.

No dia 10 de fevereiro de 2026, Silva foi vítima de uma tentativa de feminicídio. Segundo ela, o agressor é o ex-companheiro, Ademar Augusto Crepe, que segue foragido da polícia. Mãe de dois filhos, de 9 e 15 anos, ela ficou órfã muito cedo e, por isso, os sonhos sempre envolveram a vontade de formar uma família e de retomar os estudos.

A administradora teve um relacionamento com Crepe por cinco anos e, com o tempo, percebeu que a convivência não era saudável, o que se agravou no momento em que ela foi aprovada para cursar administração no campus de Apucarana da Unespar (Universidade Estadual do Paraná). “Meu ex-companheiro passou a reclamar constantemente do fato de eu estar estudando, o que gerava muitas discussões e deixava o ambiente em casa bastante tenso”, relata.

Comportamento autoritário


Segundo ela, Crepe sempre teve um comportamento autoritário, em que, por vezes, mandava que ela saísse de casa. E em uma dessas vezes ela realmente saiu. Apesar dos pedidos para que voltasse, ela não voltou. “No dia anterior à tentativa de feminicídio, ele chegou a riscar o meu carro. Mesmo diante dessas atitudes, eu jamais imaginei que a situação pudesse chegar a um ponto tão extremo”, conta.


Em um crime que ela considera como premeditado, Silva explica que no dia, o ex-companheiro enviou um áudio dizendo que “a deixaria em paz”. Na rua em que dá acesso à casa que ela morava com os filhos, a mulher chegou de carro junto ao mais novo e viu a caminhonete do agressor parada próxima ao endereço.


Ela acelerou na tentativa de fugir do agressor, mas ele acertou a traseira do veículo e só parou quando o carro atingiu um poste. “O poste caiu sobre mim, só não morri porque as mãos de Deus estavam comigo e meu filho. Lembro em câmera lenta de tudo. Achei que fosse morrer ali”, comenta.


No momento que ela abriu uma das portas para que o filho fugisse, Silva conta que Crepe apontou uma arma para os dois e disparou o gatilho. Ela e o filho saíram correndo, momento em que o agressor fugiu com a chegada de testemunhas.


Formatura


Pouco tempo depois da tentativa de feminicídio, no dia 27 de fevereiro, estava marcada a cerimônia de colação de grau, mas a formanda não pôde participar pelo fato de o agressor permanecer foragido.


Apesar de não poder celebrar fisicamente a conquista, a mulher esteve presente através de uma carta. “Essa carta representa a voz que eu não pude levar naquele dia, o abraço que não pude dar nos meus professores e colegas, e a presença que a violência tentou tirar de mim. É também um símbolo da minha resistência, da minha fé e da minha vontade de continuar vivendo e lutando pelos meus sonhos”, afirma.


A carta foi lida pela professora Carine Maria Senger em frente a todos os colegas e amigos. Ela afirma que poderia ter ido acompanhada de uma escolta para realizar o sonho, mas optou por não colocar a vida de todos em risco.


“Mesmo não estando lá fisicamente, meu coração sempre esteve ligado àquele momento. E poder expressar isso por meio de uma carta é uma forma de transformar uma história de dor em uma mensagem de força, esperança e superação”, garante.


Exemplo


Após a história ser divulgada, Silva conta que muitas mulheres a procuraram para relatar suas próprias lutas. “Hoje eu tento seguir a minha vida e quero que outras mulheres também encontrem forças para fazer o mesmo. O silêncio protege o agressor, mas a coragem de falar pode salvar vidas”, afirma.


“Tudo o que vivi foi extremamente doloroso, mas eu escolhi não deixar que esse sofrimento definisse o fim da minha história. Pelo contrário, ele se tornou uma motivação para seguir em frente, reconstruir minha vida e continuar acreditando nos meus sonhos”, pontua.


Mesmo que nada do que aconteceu seja apagado, o que ela deseja é justiça. “O fato de ele ainda estar foragido traz, sim, uma sensação constante de insegurança. De certa forma, quem acaba vivendo com limitações somos nós. Eu e meus filhos seguimos reclusos, tentando nos proteger e reconstruir nossa vida, enquanto ele caminha livremente. Essa é uma realidade muito difícil de aceitar”, lamenta.


Polícia Civil


Em nota, a PCPR (Polícia Civil do Paraná) disse que segue em diligências para localizar o suspeito, de 58 anos, investigado pela tentativa de feminicídio em Apucarana. “Ambos os veículos já foram periciados. A PCPR também analisa um celular encontrado dentro do veículo do suspeito”, complementa.



Qualquer informação que leve à captura do suspeito podem ser encaminhadas de forma anônima para os telefones 197 (Polícia Civil), 181 (Disque-Denúncia) ou pelo 3423-0972, diretamente com a equipe de investigação.


Veja trecho da carta escrita por Sayonara


"Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça. Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha livre. Minha ausência nesta festa não é uma escolha; é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade.


Mas quero que saibam: ele não venceu.


Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não parei. Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver.


Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que o meu lugar vazio hoje - representado pela professora Carine - sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva."

Continue lendo