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Bolsonaro diz que ainda não há prova científica sobre cloroquina, mas volta a defender remédio

O presidente Jair Bolsonaro disse saber que ainda não há estudos científicos comprovando a eficácia da cloroquina para pacientes com o novo coronavírus, mas defendeu novamente o uso da substância. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento e quer que ele seja aplicado inclusive nos estágios iniciais da doença -o protocolo do Ministério da Saúde prevê a administração somente em casos graves.

Marcello Casal Jr./Agência Brasil
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"Tem médico que usa [a cloroquina], [que] está usando há quase dois meses no Brasil. A gente sabe que não está ainda comprovado cientificamente", disse Bolsonaro nesta quinta-feira (9) a um grupo de apoiadores que o esperava na saída do Palácio da Alvorada.

O presidente usou um episódio da Guerra do Pacífico (1941-1945) para justificar sua defesa da hidroxicloroquina. "O soldado chegava sem sangue, não tinha outro para quem doar. O pessoal lá bolou água de coco na veia. Deu certo, serviu como soro. Imagine se fosse esperar comprovação científica, quantos não morreriam? Aqui é a mesma coisa. Igual o [médico Roberto] Kalil falou: 'eu usei e aplico porque, daqui a um ou dois anos, pode ser que chegue a confirmação científica [da eficácia]. E, se eu não tivesse usado, quantas mortes teriam ocorrido nesse tempo?'"

Mais adiante, Bolsonaro alegou que existe uma "guerra ideológica" e de poder em torno do assunto.

O episódio histórico citado por Bolsonaro foi contado pelo virologista Paolo Zanotto, em artigo publicado na Folha de S.Paulo na terça-feira (7). No texto, ele defende o tratamento precoce com cloroquina para pacientes com a Covid-19, de acordo com protocolos que estão sendo aplicados em alguns hospitais no Brasil e no exterior.

"Vale aqui recordar o exemplo dos médicos japoneses, ingleses e americanos, que durante a Segunda Guerra Mundial, no teatro de operações do Pacífico. Na falta de soro, usaram água de coco como medida de compaixão em transfusões de feridos, conseguindo assim hidratar os pacientes e salvar muitas vidas. Em 1954, portanto quase dez anos após o término do conflito, foi publicado um estudo na revista da Associação Americana de Medicina avaliando e comprovando a técnica".

"O que teria acontecido com os milhares de soldados salvos graças às transfusões de água de coco caso aqueles médicos tivessem optado por aguardar pela publicação de avaliações científicas antes de salvar vidas numa situação de emergência?", escreveu Zanotto.

A possibilidade de a hidroxicloroquina ser administrada em doentes do novo coronavírus é um dos principais pontos de atrito entre Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Em entrevista na quarta (8) à TV Bandeirantes, Bolsonaro defendeu o medicamento.

"Agora tem uma outra coisa, esse tratamento que começou aqui no Brasil tem que ser feito, com quem a gente tem conversado, até o quarto dia útil [sic] dos sintomas. Passando disso, como a evolução é muito rápida e ele ataca basicamente o pulmão, quando entrar no estado grave ou no estado gravíssimo, a possibilidade de você se curar é mínima, é quase zero", afirmou, sem citar pesquisas científicas que comprovem sua afirmação.

No pronunciamento em rede nacional de rádio e tevê na noite de quarta, ele voltou a divulgar o remédio e contou ter conversado com Kalil sobre o tema.

Procurado, o médico afirmou à reportagem que a citação de seu nome em pronunciamento em rede nacional foi uma "surpresa".

O médico não quis detalhar o que achou do pronunciamento ou do uso de seu nome e de casos individuais para falar sobre a indicação de hidroxicloroquina.

"É portaria do Ministério da Saúde. Os médicos estão autorizados a prescrever. Claro que não se sabe o resultado final disso, mas essa doença mata", disse o cardiologista, que não quis comentar o protocolo da pasta quanto ao medicamento. "Eu não sou infectologista. Tem que discutir com os infectologistas", disse o médico após o pronunciamento.

Mandetta tem resistido às pressões de seu chefe, mas nos últimos dias fez gestos a Bolsonaro sobre o assunto.

Também na quarta, o ministro da Saúde disse que o presidente nunca impôs a ele sua vontade sobre a cloroquina.

"O presidente da República em nenhum momento fez qualquer colocação para mim diretamente de imposição. [Sobre cloroquina,] Ele defende, como todos nós, que, se há chance melhor para esse ou aquele paciente, que a gente possa garantir o medicamento. Mas também entende quando a gente coloca situações que podem ser complexas, que nós precisamos que os conselhos [de medicina] analisem", disse Mandetta.

Mandetta afirmou ainda que pediu ao Conselho Federal de Medicina que haja um posicionamento da entidade até o próximo dia 20 sobre o uso desse medicamento para pacientes com o coronavírus -na reunião ministerial de segunda-feira (6), Bolsonaro pediu uma manifestação ao ministro da Saúde sobre a cloroquina até o final deste mês.
Ricardo Della Coletta - Folhapress
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