O delegado do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Alan Flore, indiciou ontem sete pessoas por fraude na contratação emergencial da empresa Providence Auto Center, de Cambé, para fazer a manutenção da frota dos carros oficiais do governo no Norte do Estado. Flore concluiu o inquérito que aponta que o mentor da fraude seria o empresário Luiz Abi Antoun, presente nos bastidores da política paranaense e próximo ao governador Beto Richa (PSDB) – trata-se de um "parente distante", segundo o próprio chefe do Executivo –, que deu nome à operação: Voldemort, em referência ao bruxo das trevas, "aquele cujo nome não deve ser dito", da série Harry Potter.
Abi seria, de fato, o dono da Providence. Ismar Ieger seria apenas o laranja da empresa, mas não deixou de ter participação na fraude: teria conversado com os outros dois empresários que forneceram orçamentos, com preços maiores, para justificar a dispensa de licitação. Os dois empresários, no entanto, afirmaram não ter elaborado as propostas comerciais. O contrato emergencial, por 180 dias, tinha preço total de R$ 1,5 milhão.
Outro indiciado é Ernani Delicato, ex-diretor do Departamento Oficial de Transporte (Deto), órgão da Secretaria de Administração, que teria permitido e contribuído com a fraude. Já o advogado José Carlos Lucca teria prestado assessoria para dar ar de legalidade à fraude, especialmente aos orçamentos simulados.
O quinto indiciado é o empresário Paulo Roberto Midauar, dono de uma distribuidora de combustíveis em Bandeirantes (Norte), que seria a ponte entre Delicato e Ieger. Roberto Tsuneda, também indiciado, é sócio de Abi na KLM Brasil Equipamentos Eletrônicos, uma de suas três empresas, e tinha ligação com a Providence.
Durante as investigações surgiu mais um envolvido: um policial militar que teria colaborado para a fraude. Porém, nem o delegado nem o promotor Cláudio Esteves, coordenador do Gaeco, revelaram o nome do soldado. Com o fim do inquérito, os promotores devem oferecer denúncia contra os suspeitos. Os possíveis crimes são falsidade ideológica, formação de organização criminosa e fraude em licitação. Os advogados dos indiciados têm preferido não comentar o caso.
À exceção de Delicato e do PM, que não teve sua prisão decretada, os outros cinco indiciados foram presos na segunda-feira da semana passada. Mas, ao longo desta semana, Abi, Ieger e Lucca conseguiram habeas corpus no Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná. Ontem, o mesmo juiz substituto de segundo grau, Márcio José Tokars, que libertou os demais, mandou soltar Tsuneda. Os argumentos foram basicamente os mesmos: soltos, os suspeitos não oferecem risco para a instrução criminal. O ex-diretor do Deto ficou foragido, mas também foi beneficiado com uma liminar de Tokars. Midauar é o único que continua preso. Seu pedido de habeas corpus foi impetrado ontem no TJ.