O Brasil terá um representante na seção Panorama do Festival de Berlim, que ocorre de 5 a 15 de fevereiro. José Padilha, que levou o Urso de Ouro em 2008 com 'Tropa de Elite', nesta edição emplacou 'Garapa', seu novo documentário. O filme faz sua pré-estreia mundial e compete com outros 50. Ontem, a direção do festival divulgou os primeiros 21 que integram a categoria, que neste ano também comemora seus 30 anos de criação.
"É a seção certa para o filme estar, a ‘seção dos documentários’. Estou feliz, claro. Tenho ótimas lembranças de Berlim e voltar à cidade pelo segundo ano consecutivo é um privilégio e tanto", comentou o diretor, que filmou 'Garapa' antes de dirigir 'Tropa de Elite'. "Viajei ao Ceará, onde o filme se passa, antes mesmo de começar o Tropa. Deixei o filme ‘guardado’ e o editei depois de terminar Tropa. Apesar de já fazer algum tempo, a realidade que encontrei não mudou muito", continua Padilha.
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Garapa, segundo documentário longa de Padilha (que também assina Ônibus 174), é uma alusão à mistura de água com açúcar que pessoas carentes tomam para aplacar a fome. No filme, o diretor documenta o cotidiano de três famílias do Ceará que sofrem de fome crônica. "Apesar dos números terem diminuído e a situação ter melhorado, ainda há cerca de 11,5 milhões de brasileiros em situação de ‘insegurança alimentar grave’, e que recebem o auxílio do Fome Zero. A ideia de que não há fome no Brasil é equivocada", comenta o diretor, que decidiu realizar o documentário após conversas com o amigo Francisco Menezes, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
Menezes apresentou Padilha a várias ONGs do Ceará, que o auxiliaram a encontrar as famílias do filme. "É um filme completamente diferente de Tropa de Elite. Não há entrevistas, é em preto-e-branco, não há trilha sonora, é totalmente contemplativo. Quis dar cara, e vida, aos números e estatísticas de que falamos tanto. E o que contemplo nele são estas três famílias cearenses. Uma vive em um lugar completamente longe de tudo, a outra em um lugar no meio termo e a terceira em uma cidade urbana, no caso, a capital Fortaleza. É da fome crônica, de pessoas que mal se alimentam por toda a vida, e não da fome aguda, que fala o filme", adianta o cineasta, que ainda não sabe em qual data o longa será exibido em Berlim.