Duas propostas diametralmente opostas representam o cinema brasileiro na competição oficial do Festival de Biarritz: 'Estômago' de Marcos Jorge, longa original, insolente e politicamente incorreto, e 'Os Desafinados' de Walter Lima Jr, convencional e decepcionante.
Primeiro longa-metragem de Marcos Jorge, artista conhecido por suas instalações de vídeo e diretor de vários curtas e um documentário, 'Estômago' narra a história de Raimundo Nonato (João Miguel), imigrante nordestino que chega a uma grande cidade sem dinheiro e sem profissão, mas que possui uma valiosa qualidade: tem instinto de cozinheiro.
Raimundo Nonato encontra emprego em um bar no qual não recebe salário, apenas alimentação e um lugar para dormir. Mais tarde, seu 'dom' para a cozinha o leva a ser contratado por um bom restaurante, no qual se inicia nos segredos da gastronomia italiana e dos bons vinhos.
O diretor, porém, com uma montagem de idas e vindas no tempo, também mostra Raimundo na prisão, conseguindo um espaço graças a seus dons na cozinha no duro mundo carcerário.
Seus conhecimentos culinários avançam assim ao mesmo ritmo de sua compreensão dos mecanismos que comandam a sociedade.
Apresentado como uma "fábula gastronômica", o longa leva o espectador de supresa em surpresa, em um crescendo no qual a trivial história do pobre cozinheiro se transforma em uma feroz parábola do poder: o poder de dar de comer é um verdadeiro poder e no mundo alguns comem e outros são devorados.
Marcos Jorge leva a metáfora às últimas conseqüências, abrindo mão de maneira até insolente de qualquer consideração "politicamente correta".
'Estômago' concorre com outros oito filmes pelo grande prêmio do Festival de Biarritz de Cinemas e Culturas da América Latina, que será concedido no próximo sábado por um júri presidido pela atriz francesa Elsa Zylberstein.