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Grande papel feminino

Marion Cotillard é puro desejo no longa 'Um Instante de Amor'

Agência Estado
28 jun 2017 às 10:05
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Em Cannes, no ano passado, a diretora e corroteirista (com Jacques Fieschi) Nicole Garcia contou, na coletiva de Mal de Pierres, o que a atraiu no livro, breve e conciso, de Milena Agus. "Foi a própria natureza de Gabrielle (a personagem), mulher feita desejo que não se reprime e reza a Jesus pedindo que lhe dê 'la chose principale'. A expressão mexeu comigo. Essa coisa é o sexo, mas também é sagrada. Nós, mulheres, não somos estimuladas, na vida social, a externar nosso desejo, e menos ainda dessa maneira franca e direta." E a atriz Marion Cotillard - "Gabrielle é meu papel mais incandescente. Nunca havia interpretado uma mulher como ela, que 'queima' com tanta intensidade."

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Havia, em Cannes, 2017, grandes papéis femininos. Isabelle Huppert em Elle, o thriller de Paul Verhoeven, Sonia Braga em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, Marion, no filme de Nicole Garcia e também no de Xavier Dolan, É Apenas o Fim do Mundo. O júri presidido por George Miller preferiu atribuir seu prêmio à filipina Jaclyn Jose, pela mãe de Ma’ Rose, de Brillante Mendoza. Uma escolha defensável, honesta, mas Isabelle, Sonia, Marion... "Apesar de toda a evolução dos costumes, vivemos num mundo que ainda é masculino", diz a diretora. "Um homem falar sobre o seu desejo, nomear a 'chatte' de uma mulher está na ordem natural das coisas. Gabrielle rezar pelo sexo e nomeá-lo como a coisa principal subverte o mundo matriarcal, mesmo que seja sua mãe no comando."


Gabrielle passa a incomodar. É louca. A mãe lhe apresenta seu ultimato - um casamento de conveniência ou a internação.


The Hollywood Repórter, elogiando o filme de Nicole Garcia, expressou a incompreensão de que ele foi vítima em Cannes. A revista falou no romantismo delirante, no classicismo de bom gosto. Se Mal de Pierres - que está sendo lançado no Brasil, nesta quinta, 29, como Um Instante de Amor - é clássico e romântico isso é só uma aparência.


O relato em flash-backs, o antinaturalismo das interpretações e a crueza de certos diálogos e situações, tudo aponta para o sentido inverso. De resto, Nicole já inicia seu filme em alta voltagem. Gabrielle, sem calcinha, refresca a 'chatte' na água corrente do rio. Louca de amor, ou por sexo? É curioso que os dois homens pelos quais Gabrielle arde, o professor e, depois, o militar, lhe deem livros. E Nicole Garcia disse uma coisa essencial - "Gabrielle quer ser vista e lida por um homem. No fundo, tenho a impressão de que também é o que eu quero, como artista. Ser lida e reconhecida de uma maneira que eu mesma não consigo fazer."

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Ao repórter, em outro momento - outro ano -, Nicole havia feito uma confidência. Em 1980, aos 34 anos - nasceu em 1946 -, filmou Meu Tio da América com Alain Resnais. Teve um breve affair com o diretor. Poderia ter sido sua musa, o que Sabine Azema virou. Mas Nicole já tinha essa necessidade de se expressar. Não lhe bastava ser atriz. Teria sido mais difícil buscar seu caminho à sombra de um grande como Resnais.


Teria conseguido ser vista, ser lida como faz Gabrielle, no leito - O Morro dos Ventos Uivantes, o romance cult de Emily Brontë? Na trama, Gabrielle casa-se, para fugir à internação, com José. É um trabalhador espanhol que foge à ditadura de Franco. O filme passa-se nos anos 1950, quando a França está atolada na Guerra da Indochina. Ao marido, Gabrielle antecipa que ele será infeliz. Não o ama, não vai dormir com ele. José, cuja casa foi queimada na Guerra Civil, é homem de poucas palavras. Fala pouco, e quando o faz diz coisas certeiras. José, ao aceitar o arranjo, sonha com a casa, que constrói. E, para satisfazer seu desejo, vai às prostitutas.


Gabrielle faz sexo com ele - cobrando, como Romy Schneider em O Trabalho, de Luchino Visconti. Nicole, vale lembrar, já fora viscontiana em O Filho Preferido, outro belo longa (de 1994). Um toque de Visconti, mas muito mais de Elia Kazan - La Fièvre dans le Sang, A febre no sangue, título francês de Clamor do Sexo, em que Natalie Wood também arde (‘brûle’) pelo jovem Warren Beatty. Gabrielle engravida, aborta. É diagnosticada com o mal das pedras, pedras nos rins. Vai fazer tratamento numa clínica - e conhece André, o militar, que preenche suas fantasias. "Obrigado, Jesus." Com ele, Louis Garrel, terá a noite sonhada de sexo. Um plano, e um só. Gabrielle, que sonha com a penetração, contorce-se no leito, revira os olhos. Marion fica feia, se isso é possível. "Deforma-me", dizia Emmanuelle Riva a seu japonês em Hiroshima, Meu Amor.

Qualquer que seja o nome do sofrimento de sua heroína - erotômana? -, Nicole Garcia disse o que não gostaria. "Que tudo isso fosse reduzido a um mal físico, a uma doença." No final, vem a revelação que muda tudo. E agora, José? O personagem de Alex Brundemühl... Olha o spoiler. Nicole Garcia cita François Truffaut. Um diretor muitas vezes só descobre sua motivação ao ver o filme pronto. O elemento escondido e autobiográfico. Foi assim com ela - "Em Gabrielle, reencontrei uma coisa muito minha, a importância do imaginário."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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