Fui escondida à muito comício de campanha eleitoral, escondida num canto do estádio chorei ao ver o Brasil perder para o Uruguai numa final de Copa América, até hoje me arrependo de não ter contado para o Roberto Carlos (o cantor) que eu o detestava quando criança – minha mãe ameaçava fugir com ele cada vez que se incomodava em casa. E sim, me arrependo de não ter levado minha mãe para conhecer o Rei quando o entrevistei.
São pecados cometidos contra mim, para seguir a cartilha do Jornalismo. Tudo em nome da nem sempre sensata imparcialidade, da às vezes contraproducente teoria do distanciamento entre o repórter, a notícia e suas personagens.
Por isso, ao escovar os dentes naquela manhã de Domingo, decidi que ia tietar. Não é sempre que a gente tem a oportunidade de entrevistar um belo como Matt Damon. “Hoje vou tietar, nem que seja um pouquinho”, prometo me permitir.
Ele não faz parte da minha lista de “reservas” (que pretensiosamente inclui Andy Garcia, o goleiro paraguaio Chilavert...). Matt Damon é bonitinho, perfeitinho, não faz meu tipo. Mas não resisti ao seu charme no nosso primeiro “encontro”.
Eu estava num orelhão em frente a uma loja de conveniência perto do estúdio da Sony. Um mendigo esperava que sobrassem alguns cents do meu telefonema. E quem sai da tal lojinha? Damon, ele mesmo: parou para conversar com o mendigo, e lhe deu alguns dólares. Como se isso não fosse engraçadinho o suficiente, Damon falou de um jeito tão doce e delicado - “Have a nice evening, Sir...” - que me ganhou na hora. Detalhe: eu tinha acabado de sair do dentista, estava fazendo tratamento de canal, e naquele momento odiava tudo e todos. Damon me mostrou que a vida pode ser bela.
Fazer o dever de casa para entrevistar um galã de Hollywood é fácil. Pela Internet, descubro que Matt Damon nasceu em 1970 sob o signo de Libra, tem um irmão escultor, por pouco não terminou a faculdade de Literatura Inglesa em Harvard, e se casa ainda este ano com a personal assistant do amigo de infância Ben Affleck.
Damon & Affleck arrombaram as portas de Hollywood e se transformaram em ídolos da multidão de aspirantes cineastas espalhados por Los Angeles com o roteiro criado a quatro mãos, “Gênio Indomável”, indicado a 9 Oscars em 1997 (levando os de Melhor Roteiro e Ator Coadjuvante, para Robin Williams).
Minha missão é entrevistá-lo sobre “A Identidade Bourne”, ou The Bourne Identity, filme do Estúdio Universal baseado no livro de Robert Ludlum. Damon é Jason Bourne, um assassino treinado pela CIA, passando por uma severa crise de amnésia. É um thriller dos bons, filmado na Europa sob a batuta de Doug Liman. O diretor vem de uma carreira em produção independente - segundo Damon, isso foi o que mais o atraiu no projeto.
The Bourne Identity tem sido aplaudido pela crítica e pelo público aqui nos Estados Unidos. E é justamente o que não me convencia em Matt Damon, sua carinha de anjo, que dá tempero ao filme. Jason Bourne tem momentos de Homem-Aranha ao descobrir seus poderes: ele sabe lutar, atirar, fala diversas línguas, mas não se lembra como nem por quê.
A alemã Franka Potente, com experiência em ajudar homens em apuros (passou um filme inteiro suando para salvar a pele do namorado no ótimo “Corra, Lola, Corra!”), é Marie, a parceira acidental de Bourne.
(A propósito, sobre o ator, Franka comentou: “Ele é gentil, super concentrado no trabalho, mas ao mesmo tempo engraçado. Deixa todo mundo à vontade, apesar da grande estrela que é. Nos divertimos bastante nos sets”.)
Chego ao Hotel Four Seasons, em Beverly Hills, às nove e meia da manhã. Na mesa da recepção, morangos enormes (típicos da Califórnia) cobertos com chocolate. Um farto café ajuda a nos distrair, dezenas de jornalistas de todo o mundo, enquanto nos revezamos em entrevistas com elenco e equipe técnica, em suítes transformadas em salas para coletivas e mini estúdios de televisão.
Rascunho algumas perguntas, até me chamarem para ficar “on deck” - sentada em uma das cadeiras acomodadas na porta da suíte onde está Matt Damon. É como se você estivesse em um parque de diversões, na fila de uma montanha-russa. Então, depois de uma boa meia hora de espera, chega a sua vez de sentar no carrinho: “Tanira, you’re next...”, me avisa o publicista, e entro na suíte. “This is Tanira, from Brazil”, me apresentam para Damon.
“Do Brasil? Então, você vai ficar acordada hoje à noite?”, ele pergunta. Por quê? - eu me pergunto. Ah, sim! Futebol! É a estréia do Brasil na Copa do Mundo.
Aproveito a “deixa” e conto a história da loja de conveniência. Com detalhes (até a minha dor de dente!), e digo que achei aquilo muito fofo. Ele parece curioso, surpreso. “Well... Cool! All right!” - sorri, meio sem jeito.
Mas... de volta ao trabalho!
Então... Você tem um passaporte brasileiro! (uma das tantas identidades do agente Jason Bourne) Você iria até lá?
“Eu adoraria ir ao Brasil. Recentemente estive na Argentina fazendo um filme independente, e numa certa altura quase mudamos a produção para o Brasil. Sei que algum dia ainda vou, tenho que conhecer o seu país!”, ele responde.
“A Identidade Bourne” é um filme com muita ação, e Damon dispensou dublês em muitas cenas. Um sonho realizado para um garoto, um ator? “É! Treinar para o papel foi como realizar um sonho, porque durante cinco meses estudei artes marciais, aprendi a lutar boxe, aprendi a atirar... Tinha uma fantasia de ser capaz de fazer tudo isso. Foi divertido!”
Você, Matt Damon, pode fazer tudo isso agora?
“Talvez não tão bem quanto Jason Bourne.”
Pergunto como ele compara filmar em Hollywood, e na Europa. “Foi diferente porque Doug (o diretor) sabia que as maiores críticas aos filmes americanos feitos na Europa é que eles parecem feitos por turistas. Ele se empenhou em contratar equipes locais, o que influenciou muito no resultado, na fotografia. Ao invés de colocar a Torre Eiffel ou o Museu do Louvre em cada cena, filmamos em ruas e bairros escondidos, que não aparecem muito no cinema. Ficou tudo mais real.”
Você tem elogiado bastante o trabalho de Doug Liman...
“Eu adorei o script já na primeira leitura. Mas acho que se o diretor não fosse Doug, mas outro cineasta mais acostumado a esse tipo de ação, o resultado poderia ter sido um filme cheio de clichês.”
Qual é a diferença?
“Doug vem da produção independente, tem uma sensibilidade única. Acho que ele procura mostrar o que não tenha sido visto antes, acho que essa também foi a intenção de Tony Gilroy (roteirista). Eles queriam fazer um filme que atraísse o público, mas ao mesmo tempo original. Por exemplo: na sequência em que estou sendo perseguido dentro do Consulado, eu jogo a arma no lixo, e escapo usando um rádio e um mapa, ao invés de sair atirando em todo mundo! São coisas inteligentes que não se vê muito, mas que fazem sentido. Quando eu percebi o que sairia dessa combinação entre Gilroy e Liman, decidi que queria fazer parte desse projeto.”
Percebo que só tenho tempo para mais uma pergunta (as entrevistas para tv são cronometradas).
Há alguns anos li numa revista que Damon dizia não ter casa, que dormia em hotéis e usava a roupa do figurino dos filmes.
A vida continua assim?
“Agora tenho uma casa em Nova Iorque, mas não consigo passar muito tempo lá. No começo de abril fui para casa, sentei no sofá por cinco minutos e algumas horas depois estava num avião, voando para Londres para encenar uma peça de teatro. Eu sou incansável por natureza, adoro trabalhar!”
Meu segundo “encontro” com Matt Damon dura uns dez minutos. A estrela ali na minha frente é o mesmo menino que eu vi querendo ajudar um estranho - simpático, sincero, “real”. Me despeço lamentando, porque tinha assunto para um dia inteiro. Quando vou em direção à porta, ouço dele:
“Então... a gente se vê um dia destes, numa loja de conveniência...”.
Eu viro, sorrio, e esqueço de que continuava caminhando - dou de cara na parede!
Saio meio zonza, e querendo mais - exatamente como se tivesse andado de montanha-russa! Sabe como é, você passa tanto tempo na fila, e a aventura dura tão pouco... Quero me pendurar no publicista, implorando por mais uma voltinha!
Depois do pecado da tietagem, o pecado da gula.
Termino minhas entrevistas, e passo na suíte da recepção para pegar minha bolsa. Como dizem que chocolate libera endorfinas e faz um bem danado para dor-de-cotovelo, devoro um daqueles morangos enormes que eu tinha namorado de manhã cedo.
Matt Damon e morango com chocolate... É, a vida pode ser bela!
Tanira Lebedeff
Los Angeles, J