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Da Gênese e dos Fundamentos Psicológicos da Crença nos Espíritos

05 jun 2016 às 14:04
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"É indispensável que em cada indivíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior,
que se dissolva o que existe e se faça uma renovação, sem impô-la ao próximo sob o manto
farisaico do amor cristão ou do senso da responsabilidade social – ou o que quer que seja para
disfarçar as necessidades pessoais e inconscientes de poder." C.G.Jung"

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Carl Gustav Jung nasceu na Suíça em 1875. Formou-se em Medicina pela Universidade de Basiléia e em 1990 já é assistente de Bleuler na Clínica Burghölzi em Zurique, onde mais tarde assume sua direção.

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Tem seu primeiro encontro com Freud em 1907e suas relações são rompidas em 1912. Faz várias expedições para a Argélia, Tunísia aos índios Pueblo do novo México e à África Oriental, com o interesse específico de estudar a mente primitiva.


Em 1934, torna-se presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia. Em 1935, professor da Escola Politécnica de Zurique. Assume a presidência do Congresso Internacional de Psicoterapia em Oxford no ano de 1938. Torna-se membro da Academia Suíça de Ciências em 1943 e, em 1948 inaugura o Instituto C. G. Jung em Zurique. Fez muitos seminários, palestras e foi presidente da Associação Psicanalítica Internacional.

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A princípio, suas ideias foram influenciadas por Kant e Shopenhauer; posteriormente por Freud e Nietzsche, bem como pelos resultados se seus estudos com o físico Wolfgang Pauli, e sempre se reportou a Goethe. Seu trabalho se inicia em laboratório de psicologia patológica experimental, e no fim de sua vida estudava as relações existentes entre suas descobertas e a física nuclear.


Em paralelo, empenhou-se em amplas pesquisas históricas que determinaram sua análise profunda sobre a situação psicológica do homem moderno, que em síntese, tem se desenvolvido unilateralmente ao se apoiar exclusivamente no ego consciente em detrimento dos fundamentos da psique, assim provocando um conflito que, por não ser enfrentado, origina patologias e guerras. A hipertrofia do ego consciente ao ponto da deificação, provoca a revolta instintual, manifestando-se num estado de angústia de toda civilização.
Jung morreu tranquilamente, em 6 de junho de 1961 aos 86 anos.


"Eu pessoalmente, tive a grande vantagem em relação a Freud e Adler, de que a minha formação não veio da psicologia das neuroses e suas unilateralidades. Vim da psiquiatria, bem preparado por Nietzsche, para a psicologia moderna". (JUNG, 1999, p. 108)


Freud baseia a neurose essencialmente no princípio do Erosa. Adler, no entanto, baseia a teoria da neurose essencialmente no princípio do poder.


[...] em Adler a ênfase é posta num sujeito que se firma e procura manter sua superioridade sobre os objetos, sejam eles quais forem. Em Freud, ao contrário a ênfase é posta inteiramente nos objetos, que, conforme suas características especiais, são proveitosos ou prejudiciais ao desejo de prazer do sujeito. (JUNG, 1999, p. 34)


Esta disparidade não pode ser outra coisa senão uma diferença de temperamento, uma oposição entre dois tipos de espírito humano, num dos quais o efeito determinante provém preponderadamente do sujeito e no outro, do objeto. Uma posição diferente, admitiria que a atração humana é condicionada tanto pelo objeto, quanto pelo sujeito. (JUNG, 1999, p. 35)
Para Jung, as duas teorias da neurose não são gerias, mas " remédios de uso tópico" dissolventes e redutivos, embora tal redução seja eficaz em muitos casos.


Não há dúvida de que Eros está presente em toda parte e que o impulso de poder penetra no que há de mais real na psique humana.


Diz Jung: "A psique não é só isso ou aquilo, mas também tudo o que ela já fez e ainda vai fazer com isso" (JUNG, 1999, p. 38). De forma que, ao saber a proveniência de tudo o que lhe aconteceu, a pessoa só foi compreendida pela metade. "Se fosse só isso, pouco importaria se já tivesse morrido há muito tempo" (JUNG, 1999, p. 38).


Os sintomas neuróticos, para Jung, não são apenas efeitos de causas passadas, da sexualidade infantil ou do impulso de poder infantil, mas também são tentativas de elaboração da vida atual. A neurose possui a finalidade de levar a pessoa a conhecer seus potenciais instintuais, ao mesmo tempo em que a impede de se utilizar de tais potenciais de forma destruidora e decisiva contra a vida.


O próprio Freud, já na velhice, contrapôs a Eros, o instinto de morte. Esta ideia é de autoria da Drª. S. Spielrein, aluna de Jung que publicou seu trabalho em 1912. Freud, ao adicionar o impulso de destruição, cita e dá o crédito à Dra. Spielrein.


Há pessoas cujo significado da vida jaz no inconsciente, sendo seu consciente cheio de descaminhos. Nesse caso, a neurose pode ter um sentido positivo. Em outras pessoas se dá exatamente o contrário, daí as teorias redutivas são indicadas.
No mais das vezes, o que era energia positiva e produtiva, volta-se contra a pessoa. A neurose é uma energia expressa em manifestações prejudiciais; portanto, Jung nos convida a observar a energia que está cristalizada por detrás da neurose, observando os opostos, as partes de si mesmo que se encontram inconscientes para o ego.


Este desenvolvimento não se faz somente através da solução de ligações infantis, da destruição de ilusões infantis e da transferência das imagens antigas para as novas figuras, mas passa pelo problema dos contrários, do conflito das diferenças, da aproximação aos instintos e dos desejos antagônicos e diversos. Desse modo, fica esclarecido porque a neurose contém justamente os valores que faltam ao indivíduo.


Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento de vida que vai muito além da resignação e/ou saudosismo.
Neste estágio mais avançado do tratamento, onde se trata da manifestação da camada mais profunda do inconsciente, em que as fantasias já foram libertas das reminiscências pessoais, encontramos as fantasias de imagens ou motivos de ordem originárias ou universais, que foram denominadas arquétipos.


A primeira camada do inconsciente é chamada inconsciente pessoal. A segunda camada, da qual a primeira deve ser diferenciada no decorrer do tratamento, é o inconsciente suprapessoal ou coletivo.


De forma que, também encontramos o objeto que a libido agora escolhe quando liberada da forma de transferência pessoal e infantil. Ela segue sua inclinação às profundezas do inconsciente, vivificando o que, até então, estava adormecido. É a descoberta de um tesouro oculto, uma fonte inesgotável onde a humanidade sempre buscou seus deuses e seus demônios e suas mais poderosas ideias, sem as quais o ser humano deixa de ser humano.


Nessa etapa, a energia libidinal exige que os conceitos tradicionais se transformem, não porque houve um aprofundamento das ideias tradicionais, mas porque a nova ordem se impôs à consciência a partir de percepções intuitivas, justamente de fantasias extravagantes e aparentemente desconexas de conteúdos do inconsciente coletivo. Se o paciente não conseguir distinguir a personalidade do outro dessas projeções, a relação
humana fica impossibilitada; se o paciente, ao evitar esse perigo, cair na introjeção dessas imagens passa a um auto endeusamento ou a uma auto dilaceração moral.


Em ambos os casos, o erro consiste em atribuir os conteúdos do inconsciente coletivo a uma determinada pessoa ou a si mesmo, dando origem a Deus ou ao Diabo; dando origem aos excessos, à presunção, à compulsão, à ilusão ou à comoção, tanto no bem quanto no mal. Esta é a razão porque a humanidade sempre precisa de demônios e nuca pode prescindir dos deuses.


Na neurose, a cisão da personalidade jamais perde seu caráter sistemático, mas a dissociação esquizofrênica apresenta uma acidentalidade assistemática que, muitas vezes, apresenta a descontinuidade de sentido contra a continuidade característica da neurose. No tratamento das neuroses, os conteúdos psíquicos apresentados se caracterizam por formas de associação, geralmente ligada ao inconsciente pessoal, ocorrendo ocasionalmente formas de associação arquetípicas.


Na disposição esquizoide, no entanto, os fenômenos afetivos e os conteúdos psíquicos apresentados são assistemáticos e com aparência caótica e acidental e se caracterizam por formas de associação arcaicas, arquetípicas, muito próximas de motivos mitológicos e de suas representações.


Através de medidas terapêuticas, pode-se levar o paciente a uma distância segura de seu inconsciente, por exemplo, representando sua situação psíquica num desenho. Desse modo, o caos que parecia ser impossível de ser compreendido e formulado é assim, visualizado e objetivado, podendo ser observado à distância, analisado e interpretado pela consciência. Aquilo que era temeroso e mágico, é desencantado pela imagem que se fez, tornando-se banal e familiar.


Os sonhos e a imaginação ativa ou criativa, são outras técnicas terapêuticas muito utilizadas na Psicologia Analítica Junguiana, por permitirem essa distância necessária para a objetivação dos conteúdos psíquicos e sua análise.


No contexto histórico, a mente primitiva diante da grandeza inexplicável pela realidade física, tinha na crença dos espíritos sua melhor defesa contra a simples verdade dos sentidos. Para a mente primitiva, o mundo espiritual era tão real quanto o mundo físico, caracterizando seu pensar, sentir e agir de forma ingênua. Em contato com a civilização iluminista e materialista tal ingenuidade se perde, deflagrando um acontecimento desastroso
para o primitivo, porque com a perda dessa ingenuidade, cessa também a dependência às leis espirituais.


É praticamente impossível falar da crença nos espíritos sem considerar a crença na alma. O primitivo não só acredita no espírito dos mortos, como também na existência de demônios e outros seres, como fadas e gnomos.


Vemos que o conceito de Deus é uma função psicológica necessária, de natureza irracional, por isso devemos reconhecer conscientemente a ideia de Deus, ou seja, como a consciência precisa dar ordem ao caos do universo. A humanidade, desde os primórdios, criou a imagem de Deus. Imagem esta que se modifica conforme a necessidade e/ou novos conceitos adquiridos pela humanidade. A existência de Deus é questionável, mas a imagem de Deus é absolutamente real.


A razão está essencialmente ligada ao consciente e este por sua vez, está rodeado por aquilo que não concorda com ele, ou seja, o irracional que está essencialmente ligado ao inconsciente coletivo.


Ao poder de concentração de uma capacidade num ponto só, é atribuído o segredo de certos êxitos, e isso é chamado de cultivar especializações. A paixão, ou seja, a acumulação de energia em uma monomania é o que os antigos chamavam de Deus, e ainda hoje as pessoas dizem: "Ele endeusou isso ou aquilo".


Esses interesses que se apossam de um, quando reconhecidos e aceitos por vários, vão aos poucos se tornando uma "igreja" que vai agrupando seu rebanho de fiéis e a isso chamamos "organização". E à tal "organização" segue-se a reação desorganizadora que pode ser tão cega quanto a organização.


A proposta é se diferenciar do inconsciente, não através da repressão ou negação, mas "colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si". Aprender a distinguir o eu da psique coletiva, redireciona a energia antes inaproveitável e patológica, em prol dos sentidos e da manifestação de sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana. A esse processo Jung chamou de individuação.


Sem a diferenciação do ego em relação ao inconsciente, as pessoas acreditam facilmente no fenômeno do espírito, deuses e demônios, endeusam ou buscam ser endeusadas.
Jung destacou particularmente três fontes que, basicamente, se constituem na crença dos espíritos: a aparição de espíritos, os sonhos e os distúrbios patológicos da vida psíquica.


O sonho é um produto psíquico que surge no estado hípnico. A pessoa conserva uma relativa consciência de seu eu, conhecido como eu onírico, limitado e estranhamente modificado. O eu vê os conteúdos psíquicos a ele associados, como se estivesse diante da vida real. As imagens oníricas entram no campo da consciência do eu onírico como uma outra espécie de realidade e obedecem a suas próprias leis.


Manifestamente, constituem-se complexos psíquicos autônomos.
Na visão ou aparição, ocorre o mesmo, embora aconteça no estado de vigília. Brota do inconsciente, juntamente com as percepções conscientes, ou seja, é uma irrupção momentânea de um conteúdo inconsciente na continuidade da consciência. O ouvido escuta a voz de determinado conteúdo psíquico que não corresponde aos conteúdos imediatos da consciência. Surgem opiniões e convicções que se impõem ao paciente.


Nos sonhos, a consciência primitiva acredita que as pessoas que aparecem são realmente espíritos. Se são vivas, tais pessoas inspiram o bem ou o mal ao sonhador e se são mortos, acredita que suas almas voltaram a se manifestar.


Nas doenças psicógenas, os distúrbios nervosos, principalmente os de natureza histérica, são vistos como doenças causadas por pessoas vivas ou falecidas que de algum modo estão ligadas a seu conflito subjetivo.


As doenças mentais propriamente ditas, desempenham importância fundamental da crença dos espíritos, pois a mente primitiva diante do caráter delirante, alucinatório e catatônico que ocorre no vasto campo da esquizofrenia, considerava em todas as épocas e lugares como possessão por espíritos maus.


Nestes três tipos de fenômenos há algo em comum: conteúdos psíquicos que possuem sua própria autonomia.
A psique não é uma unidade indivisível, mas um todo indivisível e mais ou menos dividido.


Embora as partes separadas estejam ligadas, entre si, são relativamente independentes, a tal ponto que certas partes jamais aparecem associadas ao eu, ou se lhe associam apenas raramente. A essas partes da psique chamei de complexos autônomos. (JUNG, 1986, p. 247)
O complexo do eu é apenas um dentre vários complexos. Mais tarde, Jung os chamou também de personalidades parciais.


Os demais complexos quando aparecem associados, ao complexo do eu, tornam-se conscientes. Mas, podem existir por um longo período dissociado do eu.
Quando alguém se converte em algo que jamais acreditaria para si, ocorreu uma transformação fundamental que esteve "incubada" por longo tempo, somente no ato de conversão é que a nova percepção ocorre com violenta emoção.


É nos sonhos, nas visões e nas alucinações patológicas e nas ideias delirantes onde mais claramente se destacam os complexos autônomos da psique. Como o eu não tem consciência deles, lhe são estranhos, por isso aparecem primeiramente como forma projetada. (JUNG,1986, p. 248)


Em nossa vida cotidiana esses fenômenos podem ser observados quando ocorre a projeção das próprias opiniões sobre pessoas e coisas, odiando-as ou amando-as com a mesma facilidade. Sem a análise e a reflexão, ocorrem os julgamentos sem dar conta de que se está projetando algo de si, de modo que são vítimas de uma estúpida ilusão. Não se percebe a perda que a personalidade sofre aos transferirem seus próprios erros ou méritos para outros. "Sob o ponto de vista psicológico, os espíritos são, portanto, complexos inconscientes autônomos que aparecem em forma de projeção, porque em geral, não apresentam nenhuma associação direta com o eu" (JUNG,1986, p. 248).


A Psicologia Analítica Junguiana não se preocupa com as coisas como elas são em "si mesmas", mas, exclusivamente, com a maneira como os indivíduos a imaginam.
Jung considera que no cérebro, já em seu nascimento, existem, pré-formados, os instintos e todas as imagens primordiais que foram a base do pensamento humano. A prova dessa descoberta, raramente pode ser comprovada junto aos indivíduos, mas nos casos de perturbações mentais, especialmente a esquizofrenia, é onde mais nitidamente se destacam esses conteúdos.


Os espíritos são complexos do inconsciente coletivo que tomam o lugar de uma adaptação perdida ou tentam substituir uma atitude inadequada de todo um povo por uma nova atitude. Os espíritos são ou o fruto de fantasias patológicas ou ideias novas ainda desconhecidas. (JUNG, 1986, p. 255)


Para exemplificar tudo até aqui exposto, passo a relatar fragmentos de dois casos clínicos; o primeiro trata de um sonho e o segundo, trata-se de uma alucinação patológica.
Em ambos, os nomes dos pacientes são fictícios:
1º - Catarina tem 46 anos, relata que jamais foi sequer beijada. Sua queixa principal é que após se aposentar, passou a ter atitudes agressivas com a irmã mais velha e com a irmã mais nova que é adotiva, com as quais reside.
CATARINA- Sonho que estou com minha mãe já falecida e com um jovem sobrinho. Ele deseja sair para "paquerar" na praça, minha mãe o critica na tentativa de impedi-lo.
Eu fico com raiva dessa atitude e discordando, digo que o rapaz deve se divertir e namorar. Enfim, ele sai. Minha mãe fica olhando para mim e observo que está com os olhos vermelhos de choro e em seguida se prostra encolhida.
EU- O que você pensa e sente sobre esse sonho?
CATARINA- (chora) Acho que minha mãe está sofrendo porque eu tenho sido muito má. Depois desse sonho fui ao cemitério levar-lhe flores.
EU- Bem, você olha para o sonho com uma atitude bem extrovertida, ou seja, acreditando que a mãe que aparece é a mãe real. Mas se observá-lo de forma mais introvertida, de maneira a ver os personagens do sonho, como coisas que habitam em você, como ficaria seu pensar e sentir?
CATARINA- (pausa)..... Nunca pensei nisso.... (parou de chorar e observo que sua palidez foi substituída por uma tonalidade rósea)Pensaria que há algo em mim que tem algo a ver com minha mãe...Agora me ocorre uma lembrança de infância, quando eu ficava encolhida por medo de suas represálias...(pausa)Algo que mora em mim que tem a ver com ela e que me reprime. O rapaz só pode ser um lado ou algo em mim que quer sair e se divertir.... (pausa) Agora entendo porque consigo até "paquerar", mas se um homem se mostra interessado eu fujo, mesmo querendo ficar...(pausa) Essa mãe que está em mim é a repressão. Eu é que estou chorando e encolhida!
EU- O que você está sentindo agora?
CATARINA- (choro) Meu sofrimento vem desde a infância.
EU- Por quem você chora?
CATARINA- Agora estou chorando por mim, por ter me negado tantas coisas boas.... Eu nunca tinha pensado nisso...
EU- Lhe ajuda pensar desse modo?
CATARINA- Muito.... Agora posso entender (pausa).
EU- Você pode me dizer o que está sentindo?
CATARINA- O sabor da liberdade. Tenho medo, mas também sinto que posso me libertar, porque agora sei que não é minha mãe que me impede. Eu estou me impedindo.


2º - Trata-se de um rapaz de 23 anos, universitário, mora com os pais e irmão mais velho. Chegou à minha clínica com o diagnóstico de esquizofrenia.
Nessa sessão, Lucas olhava como que através de mim. Ficava parado como que olhando para algo. Num dado momento, se levantou e se equilibrou num dos pés e abriu os braços, como um malabarista numa corda bamba. Ao olhar para sua esquerda fez uma expressão de terror e quase caindo para o lado de lá, pegou minha mão. Eu o puxei para o meu lado. Sentou-se novamente e dessa vez olhava para mim. Disse que estava sentindo frio.
EU- perguntei, onde estava?
LUCAS- Obrigado.
EU- De que?
LUCAS- Eu quase caí "para lá".
EU- Ainda sente frio?
LUCAS- Muito medo.
EU- Medo do "lado de lá? "
LUCAS- É o portal... Ficaria lá para sempre...
EU- Teve tempo de ver algo lá dentro?...
LUCAS- Eu "o" vejo em toda parte. "Ele" quer me matar. Posso vê-lo nos olhos de muitas pessoas, até quando ando nas ruas.
EU- Você pode desenhá-lo?
LUCAS- Meu frio aumentou. "Ele" tem uma faca, olhos vermelhos... até que é bonitinho!
EU- (Percebo que não devo forçar, deixo o desenho para a próxima sessão, mas não digo nada)
LUCAS- As pessoas geralmente não possuem tanta paciência. Eu vou lhe trazer o desenho na próxima sessão. Você também vai sentir o medo.
De repente, começa a relatar os fatos que ocorreram na universidade. Fatos que lhe provocaram sentimentos de exclusão.
Na saída me disse: "Não me venha com aquelas interpretações edipianas, quando eu lhe trouxer o desenho. Sobre Édipo já sei o suficiente: já transferi o desejo para garotas lindas e, no momento, minha namorada tem sido ótima. "


A interpretação em direção ao objeto, chamada analítica, vai decompondo os conteúdos apresentados em reminiscências que se referem a situações externas. Na interpretação sintética ou construtiva, a análise se faz em direção ao sujeito, desligando das circunstâncias externas os complexos de reminiscências em que se baseia, de forma a interpretá-los como tendências ou partes do sujeito, incorporando-os novamente ao sujeito. Os conteúdos são concebidos como símbolos de conteúdos subjetivos.


Numa análise pode ocorrer irmos para o objeto e voltarmos para o sujeito. De qualquer maneira tal intepretação requer abundantes paralelos com a psicologia da simbologia primitiva e histórica, porque o inconsciente é mais do que um depósito de recalques. Contém as possibilidades residuais das funções de todas as épocas anteriores da história da evolução. Quando a pessoa é capaz de resistir ao seu fascínio e sedução, pode-se confiar ao inconsciente a condução do indivíduo.


O inconsciente encerra em si possibilidades inacessíveis ao consciente e possibilidades criadoras e criativas, pois além de dispor de todos os conteúdos subliminais, de tudo que foi esquecido e o que passou despercebido, ele contém a sabedoria da experiência de incontáveis milênios, depositadas em suas estruturas arquetípicas.


Sua dinâmica é idêntica à energia dos instintos. A falta de solidariedade para com o inconsciente significa afastamento dos instintos, base para todas as doenças psicógenas. Sem tal solidariedade, a consciência pode facilmente domesticar certos instintos, tornando as pessoas mais autômatos comandáveis do que pessoas humanas com disposição à saudável insatisfação diante das opressões.


e-mail: [email protected]

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JUNG, C,G. A Natureza da Psique -Obras Completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1986. v. 8.
JUNG, C,G. Psicogênese das Doenças Mentais- Obras Completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1990. v. 3/1.
JUNG, C,G. Psicologia do Inconsciente- Obras Completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1999. v.7.


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