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Educação dos filhos: onde foi que eu errei?

Marian Trigueiros - Folha de Londrina
31 dez 1969 às 21:33
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O nascimento daquele bebezinho tão aguardado de bochechas rosadas é tido como presente divino. Porém, o tempo passa, os anos vêm, e o bebezinho cresce. Acabam-se os sorrisos gratuitos e as gracinhas dão lugar a uma teimosia sem fim. ''Não quero; não vou! Isso é meu!'', parece estar na ponta da língua da criança que não se cansa de repetir. Quer ser o centro das atenções e não mede esforços para isso. Se joga no chão, bate, xinga e não respeita regras.

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Diante desse tipo de comportamento, paciência, mesclada ao desespero, é a palavra da vez aos pais. E a pergunta que vem de encontro: ''onde foi que eu errei?'' A preocupação é evidente, contudo, muitos pais não sabem o que fazer para remediar a situação. Mas o que realmente caracteriza crianças com esse comportamento? Excesso de mimos, teimosia, hiperatividade, falta de limites dos pais?

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Segundo a psicóloga e psicopedagoga Dorotéia Murcia Souza, famílias que passam por essa situação podem estar sendo vítimas dos resultados do egocentrismo. ''Até uma certa idade, o egocentrismo é normal e bem saudável, faz parte do desenvolvimento da criança. Mesmo porque, a criança - na faixa dos três ao cinco anos - tem que passar por essa fase. Batam palmas, elogiem, mas isso para ela crescer um adulto saudável. Ela precisa dessa etapa para adquirir autoconfiança, autoestima e amor próprio para o decorrer da vida dela.''


Entretanto, a recíproca é verdadeira. Segundo ela, é exatamente nesse ponto que entra a medida dos pais. ''As crianças precisam chamar a atenção para se sentirem importantes. Numa relação onde acontece o contrário, onde ela não é o holofote da família, vamos ter a criança apática, desmotivada, que não se valoriza. E, futuramente, podemos ter patologias no sentido de autodestruição, de se machucar e dificuldades de relacionamento.''


Depois dessa idade, afirma Dorotéia, é quando a criança deve se abrir para se socializar. ''Ela tem prazer em ficar com os amigos e não mais somente com os familiares.'' Ainda conforme ela, a dinâmica da família pode ou não acentuar esse egocentrismo. ''Isso acontece quando há superproteção, compensação exacerbada, famílias que valorizam o consumismo, quando os pais não dão limites, cedem com facilidade. É o manejo disso que vai tornar ou não essa criança egocêntrica depois daquela etapa natural'', explica.

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A psicopedagoga alerta que, de acordo com o grau desse egocentrismo, ele pode até mesmo virar patólogico. ''O egocentrismo pode chegar num grau de psicopatia, porque a pessoa se torna tão egoísta, tão narcisista, que só enxerga a si mesma. Ela quer levar vantagem em tudo, só pensa nela. Se isso for bem severo, pode chegar ao ponto dela não se importar com a vida do outro.''


Sinais


Os primeiros sinais, segundo ela, podem ser percebidos já nos primeiros anos de idade escolar. ''Se for uma criança egocêntrica, vai apresentar traços de egoísmo. Ela não partilha, não colabora com o outro, é individualista. Num grau mais elevado, ela perde o princípio da reparação; não acha que errou, e que nunca precisa pedir desculpas. Vale dizer que, muitas vezes, já são características dos pais, que são adultos egocêntricos; os filhos têm os pais como referência'', diz.


Outra característica da criança egocêntrica se traduz no prazer imediato. ''Ela quer 'aquilo' e, quando consegue, quer outra coisa. Por isso, não faz vínculos com as coisas da vida. E isso ela vai fazer com as relações. Essa criança pode ainda desenvolver o poder da sedução. Ela quer 'súditos', pela dificuldade de estabelecer vínculos de afetividade e para isso não mede esforços para manipular.''


No entanto, de acordo com ela, essas atitudes não devem ser consideradas rebeldia. ''Rebeldes têm um comportamento opositor a algo. Os egocêntricos são crianças que não têm solidariedade; o outro não é importante, apenas ele. E ele mesmo pode não ser rebelde'', observa.


Limite combinado ao afeto


Para a psicóloga Dorotéia Murcia Souza, os pais têm que saber dosar a troca de afeto, que ela chama de atenção social, com a imposição de limites. ''Não é porque os pais trabalham fora e ficam pouco tempo com os filhos que devem deixar de ter uma relação de cumplicidade. Até porque, por conta de um sistema econômico que que vivemos, ele estabelece as relações sociais que acabam sendo descartáveis. As crianças trocam de amigos assim como trocam de roupa. E isso não é saudável'', comenta.


Outro ponto, segundo Dorotéia, é questão dos pais trabalharem a frustração da criança. ''É importante que as crianças aprendam que nem tudo na vida é como ou quando queremos. Nem todas as reações são 'coisa de criança' e os pais não devem ceder sempre. Eles precisam deixar o filho passar pelas situações de frustração; assim ele vai adquirir habilidades indispensáveis para a vida. A criança superprotegida não terá essa noção.''

Ainda conforme ela, um dos resultados do egocentrismo está na terceirização da educação dos filhos. ''Os pais acreditam que a educação possa ser terceirizada. Para isso, investem em escolas caras, cursos dos mais variados conhecimentos, mas esquecem do afeto genuíno. Quando a criança desenvolve características de uma pessoa egocêntrica, ela vai deixando de lado essa relação e vai à escola sem limites'', observa. ''Temos que pensar na reconstrução da família, trabalhar com regras e principalmente o diálogo'', destaca.


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