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Algoritmos falham ao tentar prever trajetória de vida de indivíduos

Reinaldo José Lopes - Folhapress
28 set 2020 às 08:42

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Pixabay
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Algoritmos de computador ditam cada vez mais as recomendações de filmes, séries e livros que as pessoas recebem na internet, mas ainda estão muito distantes da capacidade de predizer a trajetória de vida de indivíduos, mesmo quando abastecidos com grande quantidade de dados. No maior estudo já feito sobre o tema, modelos de inteligência artificial foram só um pouco melhores do que uma simples média ao tentar "prever o futuro".


"É possível que, com mais dados ou tipos diferentes de dados, as previsões poderiam ser mais precisas. Mas acho que ninguém sabe se isso é verdade neste momento", diz o coordenador do estudo, Matthew Salganik, do Departamento de Sociologia da Universidade de Princeton (EUA).
"Meu palpite é que, quando se tenta fazer predições de longo prazo sobre situações importantes da vida, sempre haverá alguns limites para a previsibilidade."

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Os resultados do trabalho de Salganik e seus colegas, publicados na revista científica PNAS, vêm da análise de uma pesquisa de longo prazo sobre o desenvolvimento infantil em famílias americanas de baixa renda. Esse levantamento acompanhou 4.242 famílias que tiveram filhos por volta do ano 2000, recolhendo informações sobre essas crianças e seu entorno em seis momentos, que vão do nascimento aos 15 anos de idade.


Para cada uma dessas famílias, entrevistas feitas com mães, pais, professores e a própria criança permitiram que se formasse um banco de dados com mais de 12 mil variáveis. A proposta do grupo de Salganik era tentar usar essa massa de informações para prever o que aconteceria com as crianças conforme elas passassem dos nove para os 15 anos de idade (a última fase da pesquisa).


Com esse objetivo, o pesquisador reuniu 160 equipes diferentes de especialistas, que podiam usar diferentes metodologias de inteligência artificial para "prever o futuro". A ideia era avaliar o potencial do chamado aprendizado de máquina, no qual, em vez de testar ideias sobre como um fenômeno acontece, o programa de computador simplesmente recebe o máximo possível de informações disponíveis sobre aquele fenômeno e tenta encontrar, nessa massa de dados, os padrões que explicam seu funcionamento.


Por exemplo, o criador do algoritmo pode rotular uma grande quantidade de textos como sendo escritos em português e espanhol e determinar que o computador identifique padrões que separem os textos escritos numa língua dos escritos em outra. Com base nisso, o algoritmo "treinado" poderia determinar em que língua foi escrito um novo texto que ele receber.


Os diferentes modelos de aprendizado de máquina tinham que tentar "adivinhar" o que aconteceria com um pequeno conjunto de variáveis, no qual estavam incluídos coisas como a média de notas de cada criança na escola, a situação profissional de seus pais ou cuidadores e a queda ou aumento da renda em cada família.


Para atingir esse objetivo, os sistemas receberam mais uma colher de chá: foram "treinados" com metade da amostra de famílias. Ou seja, no começo do estudo, eles já "sabiam" como 50% das crianças estudadas tinha se saído dos nove aos 15 anos. O desafio era usar essas informações, bem como o resto dos dados, para prever como as demais crianças evoluiriam, em nível individual.


Não deu muito certo. Numa escala usada pelos pesquisadores, que vai de 0 (previsões que equivalem à média dos dados usados para "treinar" o sistema) e 1 (previsões totalmente precisas), os algoritmos com maior sucesso tiraram "notas" entre 0,2 e 0,05. Foi um resultado apenas ligeiramente melhor que o obtido por um modelo matemático simples, feito "no braço" e usando apenas quatro variáveis, entre as mais de 12 mil disponíveis na pesquisa original.


"Ainda bem que não deu certo", brinca Fernando Osório, professor do ICMC-USP (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP) e pesquisador da área de inteligência artificial. "A gente vê algoritmos fazendo coisas muito legais, diagnosticando câncer ou Covid-19 dando um show no ser humano, e esquece que são coisas muito pontuais. Talvez máquinas conseguissem fazer previsões a curto e médio prazo em sistemas dinâmicos, porém estáveis. Mas, quando estamos falando de seis anos da vida de uma pessoa, temos sistemas muito instáveis e sujeitos a muitas variáveis externas e eventos imprevistos."


É possível comparar a natureza desse tipo de trajetória individual com a previsão do tempo, por exemplo. Ambas as coisas têm em comum a dificuldade de chegar a determinada "granularidade" dos dados, diz ele. "Ou seja, você consegue dizer 'amanhã vai chover em São Carlos', mas aí a chuva cai num bairro e não cai no outro. Imagine como é prever não só o bairro, mas a casa exata onde a chuva vai cair", compara. Para o pesquisador, é preciso levar em conta ainda as implicações sociais de tentar alcançar esse nível de determinismo em análises do desenvolvimento humano.

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"É algo que deveria fazer com que os responsáveis por políticas públicas pensem com cuidado sobre o uso de previsões, mesmo as baseadas em muitos dado e aprendizado de máquina complicado, para tomar decisões que envolvam pessoas", diz Salganik. "Além disso, como cientistas, um de nossos objetivos pode ser a compreensão das fontes dessa complexidade."


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