07/03/21
Curiosidade

Estudo da CODE genetics mostra como gêmeos idênticos se distinguem

Reprodução/Pixabay
Reprodução/Pixabay


Um dos estudos mais detalhados já feitos sobre o DNA de gêmeos idênticos conseguiu quantificar as diferenças genéticas que surgem entre eles no começo da gestação, logo depois que eles se transformam em embriões separados.


Em média, calculam os cientistas, tais gêmeos podem ser distinguidos por cerca de cinco mutações (alterações no DNA) ocorridas no início do desenvolvimento embrionário. Trata-se, é claro, de relativamente pouca coisa quando se leva em conta a enorme semelhança genética entre irmãos gerados dessa forma, mas ainda assim o efeito pode ser significativo no que diz respeito a doenças e características presentes em cada gêmeo de maneira diversa, as quais podem ser influenciadas por variações no genoma.

A pesquisa responsável por fazer os chamados gêmeos monozigóticos parecerem menos idênticos do que se imagina acaba de sair na revista especializada Nature Genetics. Coordenado por Hakon Jonsson, da empresa islandesa de CODE genetics (o nome da companhia é escrito em minúsculas mesmo), o estudo analisou o DNA de 381 pares de gêmeos e dois grupos de trigêmeos, vasculhando ainda o material genético dos pais, cônjuges e filhos de cada irmão, já que isso permite rastrear quando e em quem eventuais mutações aconteceram.

Os gêmeos monozigóticos em geral surgem entre quatro e sete dias após a fecundação de um único óvulo pelo espermatozoide, durante as rodadas iniciais de multiplicação de células que formam o embrião. Em determinado momento, por razões que não estão totalmente claras, esse único embrião pode se dividir e formar dois novos embriões separados –em tese, carregando o mesmíssimo DNA.

No entanto, conforme o desenvolvimento progride, o material genético das células dos futuros bebês continua sendo copiado (já que a grande maioria das células humanas precisa carregar seu próprio DNA).

E isso leva a erros de cópia, que podem estar presentes nos mais diferentes tipos de célula. Como se trata de um processo que é (em grande medida) aleatório, não há razão para achar que ocorrerão as mesmas mutações em ambos os gêmeos.

A questão é que a maioria dessas mutações será apenas somática (do termo grego "soma", corpo), ficando restrita ao organismo da pessoa. No entanto, mutações também podem afetar as células germinativas –óvulos e espermatozoides– e, assim, podem ser transmitidas para os descendentes. Se a mesma mutação for somática e germinativa, trata-se de um indício forte de que ela ocorreu quando o organismo da pessoa estava no começo de seu desenvolvimento e se propagou por boa parte dele.

Para entender com que frequência isso acontecia em gêmeos monozigóticos, a equipe obteve amostras de células do sangue e da boca das centenas de voluntários e sequenciou (ou seja, "soletrou") o DNA deles com o que se chama de uma grande cobertura –na maior parte dos casos, mais de 150 vezes. Grosso modo, seria como reler o mesmo livro repetidamente, para não deixar passar nem uma só vírgula ou letra, e depois fazer a mesma quantidade de leituras numa edição muito semelhante desse livro, para ver se houve algum erro na edição.

Como seria de esperar, a primeira análise revelou dezenas de mutações diferentes entre os membros de cada par, e esse número tendia a ser maior com a idade dos voluntários (porque as mutações somáticas costumam se acumular ao longo da vida).

No entanto, uma parte dessas mutações estava presente na maioria das células da mesma pessoa, o que indica que elas provavelmente eram "descendentes" de uma célula mais antiga que tinha sofrido a mutação original no começo do desenvolvimento –ou seja, ainda no útero.

O que confirmou isso foi a análise comparativa envolvendo também o DNA de pais, filhos e cônjuges dos gêmeos, já que a transmissão de uma mutação para os descendentes mostra que ela é germinativa e sua presença em células não reprodutivas confirma que ela também é somática –mais uma vez indicando que ele ocorreu originalmente no início do desenvolvimento embrionário.

É claro que existe variabilidade –alguns gêmeos ficam realmente muito perto de ser geneticamente idênticos, enquanto outros se diferenciam por um número de mutações maior que a média. Além disso, as alterações podem envolver tanto trocas de uma única "letra" química de DNA quanto inserções ou deleções, ou seja, trechos de DNA que foram inseridos ou apagados no genoma dos irmãos.

O QUE É REAL E O QUE É SÓ FOLCLORE
O DNA de gêmeos idênticos é exatamente igual?
Não, não é. Mutações sutis que acontecem depois que o óvulo fecundado que deu origem aos gêmeos se divide em dois acabam dando origem a dois genomas ligeiramente diferentes.

Impressões digitais de gêmeos univitelinos são as mesmas para ambos?
Na verdade, as impressões de ambos, embora parecidas, são diferentes o suficiente para que um gêmeo que cometa um crime (digamos) não consiga jogar a culpa no irmão.

Há uma espécie de elo telepático entre eles?
Por incrível que pareça, essa ideia foi testada em experimentos –mostrando imagens idênticas para gêmeos separadamente, por exemplo. Não funcionou.

Eles tendem a ser mais próximos entre si do que irmãos "normais"?
Fato –na infância, por exemplo, gêmeos idênticos preferem interagir mais entre si do que gêmeos fraternos (não idênticos) ou irmãos que não compartilharam o útero materno.

É melhor colocar cada um numa classe separada na escola?
Besteira. O desempenho acadêmico de cada gêmeo costuma ser pior quando essa separação ocorre.

Vesti-los de modo igual vai produzir personalidades iguais?
Outra cascata –não há aumento da similaridade no comportamento nos gêmeos com as mesmas roupinhas, quando comparados aos que se vestem de maneira diferente.

Gêmeos idênticos são clones um do outro?
Sim, o que indica o nível de similaridade genética entre eles.

Clones são gêmeos idênticos um do outro?
Nada disso, porque faltaria um fator crucial –compartilhamento do ambiente uterino– entre uma pessoa e seu clone gerado décadas mais tarde (caso isso aconteça um dia com humanos, obviamente).

Gêmeos univitelinos criados separadamente parecem irmãos fraternos, e não idênticos?
Na verdade, a semelhança é elevada, e similar à que haveria se tivessem sido criados juntos.

Eles têm as mesmas malformações (se houver) e problemas de saúde?
Não, isso não ocorre, por causa de eventos casuais, como a posição das células que dão origem aos bebês no útero, e a diferenças grandes ou pequenas de comportamento após o nascimento.

Filhos de gêmeos são, geneticamente, irmãos uns dos outros?
Sim. Caso os outros membros dos casais não forem gêmeos, os bebês serão, geneticamente, meios-irmãos; nos casos raros em que gêmeos idênticos se casam com gêmeas idênticas, os bebês são geneticamente irmãos mesmo.

Nas famílias, o nascimento de gêmeos costuma 'pular uma geração'?

É mito. Parece que há fatores genéticos influenciando tanto o nascimento de gêmeos idênticos quanto o de fraternos, mas ainda não está claro como esse funciona, e não tem nada a ver com o revezamento de gerações.
Folhapress
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