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'Tornamos a morte mais difícil quando tentamos intervir', diz especialista em cuidados paliativos

Manoela Smith - Folhapress
27 out 2021 às 10:07
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Parte do motivo pelo qual as pessoas têm tanto medo da morte é responsabilidade da medicina moderna, afirma a médica geriatra e especialista em cuidados paliativos Diane Meier, professora na faculdade de medicina de Mount Sinai, em Nova York.

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"Tornamos tudo complicado e difícil quando tentamos intervir num processo que é natural e colocamos alguém em um ventilador, conectado por tubos e sondas", diz.

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Segundo Meier, os profissionais de saúde são formados para fazer o possível para prolongar a vida, mesmo que isso não traga benefícios concretos à pessoa. Com isso, o alívio do sofrimento do paciente tem sido ignorado nas últimas décadas, ela afirma.


Em entrevista, a médica ressalta que os cuidados paliativos não são um tratamento para pacientes terminais, mas para aqueles querem melhorar a sua qualidade de vida e a de seus entes queridos.


A especialidade se concentra no alívio dos sintomas de dor e do estresse provocado por uma doença grave, para melhorar a qualidade de vida do paciente e dos seus entes queridos.

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É feita por uma equipe multidisciplinar que inclui médicos, enfermeiros, assistentes sociais e profissionais espirituais que podem enfrentar toda a gama de desafios e angústias que podem aparecer.


PERGUNTA - Como os cuidados paliativos lidam com a dor e como se diferem da, digamos, medicina convencional?


DIANE MEIER - Dor é apenas um dos muitos sintomas angustiantes que os pacientes com doenças graves experienciam, como falta de ar, náuseas, depressão, ansiedade, fadiga, perda de apetite.


O alívio do sofrimento, de certa forma, foi abandonado pelo treinamento médico nas últimas décadas. Na medicina paliativa, temos um treinamento em abordagens não farmacológicas, que são bastante eficazes -coisas como meditação, mindfulness, acupuntura e exercícios.


Também temos muita experiência no uso de analgésicos não opioides e no uso seguro de opioides para a dor. Isso é mais uma das coisas que eu acho que nos distingue: a capacidade de usar essas drogas incrivelmente eficazes da maneira mais segura possível.


P. - Sobre o início da sua carreira, a senhora escreveu um artigo em que diz que "a parte difícil foi abordar os objetivos do cuidado em uma cultura que não admitia outros objetivos além da cura". O que isso significa?


DM - Somos treinados para fazer tudo o que for possível para prolongar a vida, mesmo quando as ferramentas que temos não vão fazer isso de forma eficaz. Nos EUA, temos muitos pacientes com demência em estágio terminal que nunca irão recuperar suas capacidades e que são colocados em ventiladores e alimentados por sonda.


Se essa pessoa conseguisse se ver com lucidez, ela ficaria horrorizada. Aplicamos essas terapias de forma indiscriminada, independentemente da probabilidade de benefício -e, por benefício, quero dizer retornar a alguma qualidade de vida aceitável.


Há uma falha em reconhecer que nossas intervenções podem ser maravilhosas em um paciente, mas apenas uma forma de tormento em outro.


P. - Segundo dados mais recentes do Atlas Global de Cuidados Paliativos, pacientes com câncer são maioria, representando 28% de pessoas nesse tratamento. 


DM - As pessoas com câncer desenvolvem uma série de sintomas angustiantes e foi devido a essa ampla percepção que o campo dos cuidados paliativos se originou no tratamento do câncer.

Em muitas partes do mundo, eles são oferecidos apenas para pacientes com câncer, apesar de a doença ser responsável por 22% das mortes.


P. - Há um crescente interesse e suporte ao suicídio assistido. Como você a senhora vê essa situação? 


DM - Quase todos os sintomas podem ser aliviados se você tem acesso a profissionais que sabem o que estão fazendo.


A razão pela qual as pessoas buscam a morte assistida é por causa do sofrimento existencial e da falta de vontade de viver sob o fardo imposto pela doença. Muitas pessoas não conseguem suportar a ideia de precisar de ajuda.


Minha preocupação com a legalização [do suicídio assistido] é que, quando você tem pressões financeiras e um sistema de saúde que restringe o acesso a bons cuidados, criamos uma situação em que a única alternativa racional é buscar uma morte apressada.


P. - Como nossa sociedade lida com a morte? 


DM - A maioria das pessoas não percebe que cerca de 90% das vezes a morte é uma experiência muito pacífica. Você fica cada vez mais sonolento, tem cada vez menos energia e passa mais e mais tempo em uma cama.


Aos poucos, você perde o desejo por comida até que seu corpo começa a desligar e você gradualmente entra em um estado de coma. Isso continua por alguns dias, e você passa a ter longas pausas na respiração que podem durar um minuto. E então, depois de um tempo, durante uma dessas pausas, você morre.


Em 10% das pessoas nas quais isso é mais angustiante, porque há dor ou inquietação, temos medicamentos muito eficazes que podem até ser administrados em casa.


Em 99% dos casos, a morte em si é bastante pacífica e não assustadora. Tornamos tudo complicado e difícil tentando intervir no processo natural de morrer, quando colocamos alguém em um ventilador, por exemplo.


Parte do motivo pelo qual as pessoas têm tanto medo é responsabilidade da medicina moderna. Elas têm medo de ficar com agulhas e tubos presos em seus corpos, porque já viram familiares ou amigos passarem por isso.


Não precisa ser um processo assustador. Pode ser muito tranquilo se você tiver médicos treinados para reconhecer quando alguém está morrendo, e muitos não são treinados para reconhecer que o motivo do declínio do paciente é porque ele está morrendo.

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