20/04/18
27º/17ºLONDRINA
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16/09/2017 - 08:05
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Estou desenvolvendo uma obra de crítica literária e gostaria de dar aos meus caros leitores o gostinho de um dos capítulos. É apenas um "petit four" para meditarmos no feriado da Independência, sem nos esquecermos de que ser independente é ser um solitário.

É muito comum vermos pessoas lendo livros e mais livros de autoajuda no intuito e se "encontrarem". Pois bem, se a literatura de autoajuda promove o encontro, a literatura obra de arte promove a perdição.
Quando lemos um livro de boa literatura, retiramos os nossos olhos das imagens e nos perdemos em letras, palavras, frases, fases e começamos a imaginar. Olha que interessante: o livro nos afasta das imagens para que nos percamos a imaginar.

A cada folhar de página nos perdemos no tênue vento provocado pela folha, como se a cada folhar houvesse um falhar. Claro. O fim de uma página sempre é um convite à aventura de uma nova página. É um navegar sem bússola: estamos perdidos à sorte do que nos conta o narrador ou os "eus-líricos". Cada nova página nos deixa oscilando à deriva do devir.

"A oscilação de Baudelaire, entre o gesto de recolher a aura do poeta e o de deixá-la jogada na sarjeta, entre postular a teoria da arte pela arte, propor a teoria das correspondências e lutar nas barricadas, era o indício claro de uma crise da arte que rebentava em seu tempo e da qual ele era a maior expressão". (KHOTHE, 1976, p. 70)
A crise provocada ao findar de cada capítulo aturde o leitor que se coloca em xeque ou choque diante da difícil decisão entre parar a leitura e marcar a página, para se encontrar e continuar a leitura em outro momento, ou se atirar totalmente perdido a mais um capítulo e "há" outros. Crise não me parece ser a essência da literatura de autoajuda, mas em relação à literatura obra de arte, a crise é o crime e o castigo.
Como a literatura, linguagem e instituição, é decomposta em imaginários, valores, vozes e sensibilidades pensantes, não há, nela, um compromisso tácito com o conforto do leitor, que mais é um "voyeur". Alguém que sonda além da sonda, ainda que solitário e perdido.

A cada novo livro lido o leitor vai se acostumando a estar só consigo mesmo e a não ter o controle sobre seus caminhos. Por isso, muito mais importante que escrever livros, muitas vezes pífios, é ler muitos livros de qualidade. Como nos diz Marisa Lajolo:
"É à literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades, valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute, simbolicamente, seus impasses, seus desejos, suas utopias. Por isso a literatura é importante no currículo escolar: o cidadão, para exercer, plenamente sua cidadania, precisa apossar-se da linguagem literária, alfabetizar-se nela, tornar-se seu usuário competente, mesmo que nunca
vá escrever um livro: mas porque precisa ler muitos." (LAJOLO, 2008,p.106)

A solidão da leitura se assemelha à solidão da morte. É quando estamos a sós, frente a frente, com o destino. Nossa alma se perde em cada linha, desconhecendo rostos, nomes avulsos, casas sem cheiro, ambientes onde nunca estivemos e histórias que não são as nossas, mas que, se fossem, nada seriam.
O encontro com o "não-eu" das personagens nos leva a refletir, sem espelhos, sobre quem somos. É um caminho tortuoso o da leitura. E só quando nos reconhecemos perdidos buscamos novos caminhos, do contrário nossa vida se resume a uma marcha sem sentido ao encontro da morte. Por isso a necessidade de se formar leitores de literatura obra de arte. Nas palavras de Goulart:
"Podemos pensar sobre o letramento literário no sentido que a literatura nos letra e nos liberta, apresentando-nos diferentes modos de vida social, socializando-nos e politizando-nos de várias maneiras, porque nos textos literários pulsam forças que mostram a grandeza e a fragilidade do ser humano; a história e a singularidade, entre outros contrastes, indicando-nos que podemos ser diferentes, que nossos espaços e relações podem ser outros. O outro nos diz a respeito de nós mesmos – é na relação com o outro que temos oportunidade de saber de nós mesmos de uma forma diversa daquela que nos é apresentada apenas pelo viés do nosso olhar." (GOULART 2007 p.64-65)

Por fim, além de perdição, literatura é abandono. Isso mesmo: abandono. É quando abrimos mão de um "não-eu" ente em detrimento a um "não-eu" latente. Nós nos abandonamos nas mãos de um estranho narrador sem rosto que nos convida a segui-lo, sem pressa e nem promessa de paraíso. Assim, ao ler nos perdemos e nos abandonamos à sorte/morte de um enredo.

Deveríamos ter aprendido isso desde a infância, mas como não tivemos letramento literário... Tivemos apenas motivadores, aliás, como até hoje há em Curitiba. Pessoas bem intencionadas, mas muito mal preparadas para compreender este abandono de perdição.

Não se esqueçam, Joãozinhos e Mariazinhas, que papai e mamãe os abandonaram em um bosque e que vocês estão perdidos para sempre. Alguns chamam isso de nascimento...
Que deus nos livro!
Um abraço a todos os amantes de Literatura, os que estão perto e os que estão longe, em algum livro qualquer!


Professor Robson Lima: Robson Lima é curitibano, nascido no bairro da Água Verde. É professor de Língua Portuguesa, Literatura, Leitura de Múltiplas Linguagens e um estudioso da poesia paranaense. Autor de livros didáticos, também é Consultor Educacional e Assessor Pedagógico nas áreas de Linguagens e Comunicação, ministrando palestras em todo o território nacional. Poeta, músico, declamador, ator e transador de palavras, Robson Lima é um amante dos versos, artes e artemanhas. Autor dos livros Wintervalo (poesia) e Leitura em Movimento: da letra ao letramento (livro que versa a respeito do aprofundamento da leitura).

AVERBUCK, Ligia Morrone. A poesia e a escola. In: ZILBERMAN, Regina (org.). Leitura em crise na escola. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.
BORDINI, Maria da Glória; AGUIAR, Vera Teixeira. Necessidade de metodologia. In: Literatura. A formação do leitor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
BORDINI, Maria da Glória; AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do leitor: alternativas metodológicas. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993.
CAMPOS, Maria Inês Batista. Ensinar o prazer de ler. 3ª Edição. São Paulo: Olho d’água, 2003.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In: Textos de intervenção.São Paulo: Duas cidades/Editora 34, 2002.
_____. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades,1995.
CHAUÍ, Marilena. O mal estar na universidade. In: Escritos sobre a universidade. São Paulo: Ed. UNESP, 2001.
COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. 1ª Edição. São Paulo: Contexto, 2007.
GOULART, Cecília, (2007). Alfabetização e Letramento: Os processos e o lugar da Literatura. In. PAIVA, Aparecida; MARTINS, Aracy; PAULINO, Graça; CORRÊA, Hércules; VERSIANI, Zélia (Orgs.). Literatura Saberes em movimento. Belo Horizonte: Ceale, Autentica.
KOTHE, Flávio R. Para ler Benjamin. Rio de Janeiro. Francisco Alves, 1976.
LAJOLO, Marisa (2008). Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6ª ed. 13ª impressão. São Paulo: Editora Ática.
REIS, Roberto. Cânon. In: JOBIM, José Luís (org.). Palavras da crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
SILVEIRA, Maria Inez Matoso. Modelos Teóricos e estratégias de leitura de leitura: suas implicações no ensino. Maceió: EDUFAL, 2005.
SOARES, Magda Becker. Letramento: um tema em três gêneros. 2ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história literária. São Paulo: Ática, 1989.
10/09/2017 - 10:59
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SUPREMACIA?

Supremacia branca? supremacia azul?
supremacia de cor violeta?
a verdadeira supremacia é a da Natureza
que com seus furações, tsunamis e tornados
mostra o seu poder
e revela a inutilidade da arrogância
e a fragilidade do homem.

Isabel Furini


07/09/2017 - 23:41
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Em 09 de setembro (sábado), das 14h30 às 15h30, no charmoso Café do SESC PAÇO, em Curitiba, a poetisa Siomara Reis Teixeira, declamará seus poemas. O evento é uma iniciativa de SESC Paço e ea Academia de Música Villavoz cujo objetivo é projetar novos artistas.
Siomara é organizadora de Saraus poéticos em diferentes locais de Curitiba.
Entrada franca.

01/09/2017 - 18:19
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O jornalista e escritor Lira Neto é o próximo convidado do projeto "Um Escritor na Biblioteca". O encontro acontece no dia 12 de setembro, às 19h30, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná. O jornalista Ricardo Sabbag faz a mediação do bate-papo, em que o convidado fala sobre suas obras e experiências literárias e de leitura. A entrada é gratuita.

Nascido em Fortaleza (CE), em 1963, Lira Neto é formado em Letras e Filosofia, mas fez carreira no jornalismo, atuando como repórter, editor de cultura e chefe de redação na imprensa cearense. No começo dos anos 2000, largou o cotidiano das redações para se dedicar à escrita de livros sobre personalidades brasileiras.

Entre seus principais trabalhos, destacam-se Padre Cícero — poder, fé e guerra no sertão (2009), Castello: a marcha para a ditadura (2004) e Maysa: só numa multidão de amores (2007). Entre 2012 e 2014, o escritor publicou os três volumes que compõem a elogiada biografia de Getúlio Vargas. Neste ano, lançou Uma história do samba, que conta o percurso do gênero musical brasileiro por meio das trajetórias de seus principais compositores e intérpretes.

Por essa extensa produção biográfica, o escritor cearense recebeu quatro vezes o Prêmio Jabuti de Literatura (2007, 2010, 2013 e 2014) e uma vez o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte — APCA (2014). Atualmente, Lira Neto assina coluna quinzenal no caderno "Ilustrada", do jornal Folha de S.Paulo.





O projeto
"Um Escritor na Biblioteca" é um projeto realizado pela Biblioteca Pública do Paraná na década de 1980 e retomado em 2011, com a participação de autores brasileiros de variadas gerações, entre os quais Affonso Romano de Sant'Anna, Elvira Vigna, Milton Hatoum, Luci Collin, Joca Terron e Ana Miranda. Os depoimentos são gravados e, posteriormente, publicados no jornal Cândido e editados em formato de livro pelo Núcleo de Edições da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.

Serviço:
"Um escritor na Biblioteca", com Lira Neto
Dia 12 de setembro, às 19h30, no auditório da BPP (R. Cândido Lopes, 133, Centro — Curitiba/PR)
Entrada franca
Mais informações: (41) 3221-4974

Fonte: BPP
23/08/2017 - 12:32
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O autor inicia seu livro "Segredos Poéticos" com um poema mínimo, mas de máxima beleza: "Se um dia tiver que tomar atalhos na minha vida, que sejam entre flores".

Esse poema revela um pouco da atitude de Mhario Lincoln: o sorriso fácil, a tendência a ajudar e elogiar as pessoas, o sentimento de bem com a vida. Mas, sua poesia não é carente de reflexão. Mhario sabe abordar os grandes questionamentos da vida. Em "A beleza da alma", aborda um assunto que inquieta não só os poetas, mas os artistas, os filósofos e os cientistas – esse assunto é o tempo. Nas palavras de Kant "o tempo e o espaço são a priori de nossa sensibilidade". A vida humana acontece no tempo.

Na segunda estrofe desse poema o autor consegue, empregando poucas palavras, elaborar um mosaico que engloba o passado, o presente e o futuro, ou seja, as três divisões do tempo:
Eu tenho o ontem. O hoje é apressado.
Mas quem sabe não seja o meu passado,
e no o presente, tão rápido e impreciso,
que me leve a um futuro transcendente?


Essa inquietude com o tempo também se revela em "Ode a Pandora", onde inicia com a pergunta: E a curiosidade, como vai? Viaja no tempo. No caso de Pandora, veja o que lhe envolveu sobre a sua caixa, que não lhe caberia abrir.

Em "Morrer Poetando" novamente a alusão ao tempo: "E se um dia eu vier a morrer poetando, que seja breve."
Em "Saudades? Que Nada!", Mhario nos oferece uma bela metáfora:
Vede as árvores como balançam:
é o sopro dela apagando as velinhas
do tempo.


E ficamos nos perguntando se são as velinhas do tempo ido ou se nesse passar das horas, o autor está unindo as velinhas da saudade com as velinhas do passado-presente-futuro, as velinhas de toda uma vida.
No próximo, "Morte por amor", Mhario faz um jogo com o poema anterior usando a palavra "vela". No poema "Saudades? Que Nada!", o autor usa vela no sentido de círio. Em "Morte por Amor", usa a mesma palavra no sentido embarcação:
Velas do passado,
Caravelas ao março
Mergulho fracassado
De nunca aprender a amar.


Se o tempo transcorre e inquieta a alma de Mhario Lincoln, o amor também é um assunto que o comove e o surpreende. Em "Pros Infernos!..." ele pondera que não é possível falar de um ex-amor sem emoção. Mas é surpreendente quando alguém consegue isso. E essa surpresa não é um acontecimento alegre, mas uma reação emparentada com o pasmo, com o espanto. O autor consegue confabular com o leitor, que também permanece com a sensação que o ex-amor desperta, emoções – sejam de saudades, carinho ou ódio. Mas é estranho falar friamente do ex-amor.

O livro está dividido em quatro partes: a primeira parte é Poesia; a segunda Quadras (na sua maioria com alguns quintetos e tercetos); a terceira, tem o título de Caderno de Frases, e na quarta apresentam-se fotos e frases. No conjunto, o livro induz o leitor a vasculhar e compreender a alma do poeta.

Isabel Furini é poetisa, professora e escritora. Tem trabalhos publicados no Brasil, Argentina, Espanha e Chile.

Isabel Furini
 
Isabel Furini, escritora e educadora. Recebeu prêmios em concursos de poesia e de contos. Publicou 15 livros, entre eles: Mensagens das Flores e Ele e outros contos. Também escreve para o público infanto-juvenil. É autora da coleção "Corujinha e os Filósofos" da Editora Bolsa Nacional do Livro de Curitiba.



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