Educação

Brasil e América Latina precisam de educação tecnológica para crescer, afirma economista

21 jan 2022 às 09:40

Além de ter a menor perspectiva de crescimento entre todas as regiões do mundo em 2022, a América Latina pode continuar a sofrer por vários anos com os efeitos da pandemia enquanto enfrenta uma polarização política que afasta investidores. A avaliação é do Banco Mundial, para quem são necessárias medidas urgentes a fim de contornar os problemas.


Carlos Felipe Jaramillo, vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe, afirma que a deterioração dos indicadores da região causa preocupação sobretudo na educação –impactada pelo fechamento das escolas.


"Isso precisa ser tratado rapidamente ou teremos uma geração com menos escolaridade do que a anterior", disse o colombiano em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo durante visita ao Brasil.


Para ele, o país precisa de um plano rígido para monitorar os alunos com deficiência de aprendizagem, ampliar o acesso à internet nas escolas e para a população em geral e aprovar reformas para estimular o setor privado a investir e a contratar.


Além disso, ele considera ser crucial impulsionar investimentos em ciência e tecnologia e promover uma transformação educacional para que o país consiga se inserir em áreas de vanguarda do crescimento global, como biotecnologia e inteligência artificial –enquanto o Brasil e a região ainda se baseiam muito em commodities.


"Para isso, você precisa de pessoas mais escolarizadas e instruídas em todos os níveis. Caso contrário, será muito difícil avançar", diz.


Pergunta - O Banco Mundial e outras instituições projetam que o crescimento na América Latina será menor em 2022 do que no resto do mundo. O que está acontecendo com a região?


Carlos Felipe Jaramillo - É uma continuação daquilo que vinha ocorrendo antes da pandemia e se torna mais claro agora, na fase final da crise sanitária. A maioria das economias não estava crescendo bem na América Latina. Se examinarmos o período de 2012 a 2019, bem antes da pandemia, a taxa de crescimento per capita média da região foi inferior a 0,5%, a mais baixa dentre todas as regiões.


Minha principal preocupação é que depois da pandemia voltemos a ter um período de baixa evolução. A chave para destravar o crescimento é bem conhecida e tem a ver com as reformas, para a economia atrair mais investimento do setor privado –que é a força motriz do crescimento.


A ideia de o setor privado conduzir a economia fica de alguma forma prejudicada neste momento de recuperação?


CFJ - Os EUA, por exemplo, estão implementando um enorme projeto de infraestrutura com recursos públicos. Acho que não fica prejudicada. EUA, China e Europa têm espaço fiscal para estímulos. Mas a América Latina não tem. Nenhum país da região tem envergadura para estimular sua economia por um longo período de tempo sem incorrer em graves problemas de dívida e sustentabilidade.


O Brasil usou o espaço fiscal para gastar sobretudo com a população [na pandemia], algo admirável. Mas não é um padrão sustentável [continuar usando recursos na mesma proporção] para o país e os demais da América Latina.


O governo vem agindo para driblar a legislação fiscal em vigor, o que tem gerado preocupação no mercado. 


Falta apresentar um plano de equilíbrio entre a proteção aos pobres e uma política fiscal sustentável, algo defendido pelo Banco Mundial?


CFJ - Essa crise não tem precedentes, e, portanto, requer programas sem precedentes para aliviar os impactos sobre os mais pobres e vulneráveis. Desde que os gastos sejam focalizados para atender claramente essas populações, de um modo geral são gastos justificados.


O Brasil tem sido afetado fortemente pela inflação. Além do aumento dos juros, que outras medidas devem ser adotadas para combatê-la?


CFJ - Temos confiança no Banco Central, que tem bastante credibilidade. A única outra medida importante é levar o patamar fiscal para onde estava [antes da pandemia].


A meu ver, é correto gastar durante a crise com despesas anticíclicas, e o Brasil fez bastante desse estímulo para evitar uma crise pior. Mas, uma vez que a economia se recuperar, é necessário tirar esses estímulos e reconstruir espaço fiscal para a próxima crise.


As análises do Banco Mundial se baseiam nas diretrizes do chamado Consenso de Washington, criado na década 1980 para estimular medidas liberais. A pandemia trouxe a necessidade de essa visão ser atualizada?


CFJ - Na minha opinião, o Consenso de Washington foi um exercício incompleto. Incluiu medidas básicas e muito válidas, como a sustentabilidade da dívida e a importância do setor privado, mas deixou de fora conceitos como inovação e produtividade.


Os países precisam investir em sistemas e processos para elevar produtividade e salários. Isso, por sua vez, exige capital humano robusto, inclusive com investimentos em universidade, ciência e tecnologia. E também empresas e investidores dispostos a investir em áreas da vanguarda do crescimento, como biotecnologia e inteligência artificial. Ao passo que a América Latina está muito concentrada na agropecuária e na mineração.


Essa mudança só pode ser alcançada por meio de investimentos em educação, certo? E, mais do que dinheiro, demanda uma transformação no sistema educacional...


CFJ - Sim. Investimentos em educação, ciência e tecnologia. A América Latina está defasada na qualidade da educação e no capital humano. Precisamos atrair investimentos para áreas mais sofisticadas. Pode ser na agricultura, mas tem de envolver aplicação de alta tecnologia. Pode ser mineração, mas envolver beneficiamento mineral. Pode ser serviços, mas precisa de um upgrade, um aprimoramento do processo. Para isso, você precisa de pessoas mais escolarizadas e instruídas em todos os níveis.


A pandemia gerou um retrocesso nesse sentido, afetando diretamente o ensino. Quão mal estamos em relação ao resto do mundo?


CFJ - A América Latina foi a mais impactada entre todas as regiões em desenvolvimento, e os indicadores estão muito ruins por causa do fechamento das escolas, que durou muito. O Brasil perdeu o equivalente a 1,5 ano em educação. Isso precisa ser tratado rapidamente ou teremos uma geração com menos escolaridade do que a anterior, o que iria justamente na direção contrária do necessário.


Que políticas corretivas são necessárias?


CFJ - Isso demanda medidas para conectar escolas à internet de modo que elas tenham acesso a tecnologia de excelência e ter sistemas de alerta que monitorem os alunos de modo que aqueles sem avanço recebam uma atenção dedicada para evitar o abandono escolar. Precisamos melhorar a gestão das escolas em todos os níveis –municipal, estadual e federal.


A desigualdade de acesso à internet ficou evidente durante a pandemia, e o Banco Mundial defende a ampliação de seu uso. Como a expansão pode ser acompanhada por um melhor uso da tecnologia?


CFJ - Só metade da população da América Latina tem acesso à internet, o que foi uma tragédia durante a pandemia. Aqueles que tinham acesso podiam trabalhar por meio do computador, prover educação para seus filhos, acessar serviços financeiros e até usar telemedicina. Mas a outra metade não dispunha disso. É fundamental que todos tenham acesso à internet e que desenvolvam competências digitais para ter oportunidades e empregos de melhor qualidade.


O Banco Mundial identificou que as crises costumam afetar o emprego na América Latina por vários anos, e por isso é preciso agir para impulsionar o mercado de trabalho. Como fazer isso neste momento?


CFJ - Estou preocupado com a natureza dos empregos, que tendem a ser mais informais. Precisamos estimular os países a melhorar regras trabalhistas de modo que as pessoas possam entrar na economia formal, o que significa facilitar a contratação. Porque parte do problema é que os países latino-americanos têm um processo caro, com muitas regras. Entendo que houve um bom movimento nesse sentido no Brasil, com simplificação de regras trabalhistas. Precisamos de mais disso.


Algumas pessoas podem afirmar que esse tipo de medida pode tirar direitos.


CFJ - Não. O tipo de reforma que estamos defendendo é para facilitar a contratação, não significa tirar direitos de ninguém. É dar o direito do emprego formal a quem não tem acesso a ele.


A instabilidade política tem dominado países da região, como Haiti e Guatemala. No Brasil, há uma tensão entre o presidente e o Supremo. Como isso afeta a economia na região e no Brasil em particular?


CFJ - Percebo haver uma maior polarização em toda a América Latina. Não sei ao certo quais as causas dessa rivalidade, mas é fato que há maior tensão política. Há preocupações sobretudo entre investidores do setor privado, preocupações essas que geralmente aumentam antes das eleições.


Em 2021, tivemos muita preocupação com Peru, Equador e Chile. Em 2022, teremos eleições no Brasil e na Colômbia. Pode haver muita incerteza. Esses períodos costumam ser dominados por muita tensão e tendem a afetar os níveis de investimentos até que as coisas desanuviem e fiquem mais claras. Faz parte de um padrão normal, mas que está exacerbado pela polarização.


No Brasil, há um nível de preocupação mais alto?


CFJ - Não acompanho muito a política [local], mas em todos os países há uma percepção de que há uma forte polarização.

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