De ajudante na lavoura familiar quando criança, embarcado em refinaria de petróleo a encanador industrial, José Marcelino vai adicionar mais um título à sua longa lista em 2026: bacharel em Direito pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Aos 68 anos, a conquista impressiona não só pela idade, mas pelo fato de o homem conviver com a cegueira há 12 anos.
Quando foi aprovado no vestibular em 2022 por meio de cotas para pessoas com deficiência, Marcelino foi tema de reportagem da FOLHA e contou as suas expectativas quanto ao curso. Hoje, no quarto ano, disse que a caminhada tem sido difícil, “mas não impossível”.
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Décadas longe da sala de aula
Nascido em Diamantina (MG) em 1957, percorreu diversas cidades do Paraná até se instalar em Cambé com os pais e irmãos. A mudança para a cidade vizinha de Londrina foi motivada por conta da Geada Negra de 1975, quando a família perdeu sua lavoura de café, arroz, feijão e milho. Como segundo irmão mais velho entre oito, trabalhou por toda a infância e adolescência, sendo que a última série escolar que pôde completar foi o 7º ano.
Marcelino perdeu a visão gradativamente, após o uso de um medicamento incorreto receitado para artrose. Começou o tratamento nos olhos em 2005 e foi encaminhado ao Instituto Roberto Miranda, em Londrina, onde estudou Braille (sistema de escrita e leitura tátil) e Soroban (aparelho de contar e de calcular). A cegueira total veio em 2013, aos 56 anos.
Sem emprego, voltou a estudar após mais de 40 anos longe da sala de aula, frequentando o Ceebja (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos) de Londrina. A aprovação no vestibular três anos atrás foi um marco para a UEL, com Marcelino se tornando o primeiro aluno cego a ingressar no curso de Direito.
Busca por acessibilidade
Marcelino contou que enfrentou adversidades quando era calouro em 2022, tanto pela dificuldade com a acessibilidade, quanto na adaptação da aprendizagem a sua deficiência. “Antes não tinha essa inclusão aqui, depois colocaram piso tátil e rampa e melhorou, já fizeram bastante coisa, mas ainda precisa fazer mais. Hoje já conheço o caminho, mas foi difícil acostumar”, relembrou. Marcelino se referiu às obras promovidas pela UEL no ano seguinte, com a construção de uma faixa acessível contínua por todo o calçadão.
Ao longo dos últimos quatro anos, encontrou meios de contornar os empecilhos. Ele grava todas as aulas em áudio com o celular, pede ajuda a colegas para ler os códigos de leis e tem acompanhamento do NAC (Núcleo de Acessibilidade) da UEL. Ainda frequenta o Instituto Roberto Miranda semanalmente e recebe uma atenção especial de Fábio Cruz, seu colega de classe, que faz questão de fazer todos os trabalhos em grupo com José.
Mostrando sua bengala, contou que tem perdido cada vez mais a visão à medida que envelhece, por sofrer com atrofia no nervo óptico. Nos primeiros anos do curso, conseguia fazer certas distinções do que estava pela frente, mas hoje só vê vultos. “Se passar uma pessoa aqui do meu lado e não dizer nada, não vou saber quem é, nem que passou”. Rindo, disse que “sem a bengala, eu saio ‘parpando’ as coisas”.
‘Estudo sempre valeu a pena’
O futuro advogado é estagiário no EAAJ (Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos) da UEL, e já sabe a área na qual deseja atuar a partir da formatura. O Direito Trabalhista chamava sua atenção antes mesmo de perder a capacidade de enxergar, contando que escutava casos de injustiça e se indignava. Hoje, quer aconselhar as vítimas juridicamente e defendê-las.
Mesmo com as dificuldades diárias, o universitário garantiu que “o estudo sempre valeu a pena” e aconselhou: “a pessoa nunca deve desanimar ou deixar de lado, porque é um aprendizado que ninguém consegue tirar dela. Muitas vezes a pessoa não dá valor a certas palavras, certos ensinamentos, mas o prejuízo vai ser de quem despreza isso”.
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