Educação

Secretaria de Educação abre investigação sobre suposta apologia ao nazismo em trabalho sobre 2ª Guerra Mundial em Arapongas

11 out 2023 às 18:42

A Seed (Secretaria Estadual de Educação) do Paraná instaurou um procedimento de averiguação urgente na segunda-feira (9) para avaliar uma atividade envolvendo estudos sobre a Segunda Guerra Mundial no Colégio Cívico Militar Marquês de Caravelas, em Arapongas. A atividade, apresentada na Feira de História da escola, na sexta-feira (6), provocou polêmica por possível apologia ao nazismo. 


A denúncia foi feita pela deputada federal Carol Dartora (PT), em seu Instagram, no domingo (8). Entre imagens que reproduzem  alunos com a suástica e um boneco representando Adolf Hitler, com dois estudantes em nível mais abaixo, a explicação dá conta de que representantes das turmas do último ano do Ensino Médio foram entrevistar a filha de um oficial nazista que mora em Rolândia.


Aumenta a polêmica sobre a atividade o fato de que postagens no Instagram sobre a Feira de História terem sido curtidas pelo perfil oficial do NRE (Núcleo Regional de Educação) de Apucarana, ao qual as instituições de ensino de Arapongas são subordinadas, e pelo Grêmio Estudantil Cívico Militar Marquês de Caravelas – que chegou a replicar a atividade em seu perfil na mesma rede, mas acabou apagando a postagem.


Em sua publicação, Carol Dartora diz que “professora bolsonarista realiza trabalho exaltando o nazismo”. Também reproduz a explicação de que cinco alunos foram entrevistar a filha do oficial nazista – que relata, entre outros, que o pai, no Brasil, retornou para a Alemanha para “defender seu país”, que foi preso em 1944 pelos soviéticos e que, mesmo com o fim da guerra, seguiu em um campo de concentração da União Soviética e que, “depois de muito sofrimento, veio a ser trocado por soldados soviéticos com a Alemanha”. 

Na postagem, a deputada ainda reproduz imagens publicadas pela própria professora em manifestações públicas sobre a legenda “nós não aceitamos um ladrão bêbado na presidência”. “Além de expor a figura de HTL3R (sic) na escola com alunos representando o seu exército ela [professora] ainda os levou para entrevistar a filha de um soldado n4z1sta (sic). Nos prints, é possível ver a curtida no Núcleo Regional de Educação de Apucarana. Exigimos uma resposta contundente do Governador Ratinho Jr (sic) e da Secretária de Educação do Paraná”, reclama a deputada.


Apesar da publicação da parlamentar, não é possível concluir com certeza como o conteúdo foi trabalhado em sala de aula. Supostos alunos que comentaram na rede social da deputada, entretanto, afirmam que a professora alertou que a atividade tinha de ser vista como conscientização para que atrocidades como o nazismo nunca mais se repetissem.


No convite à comunidade escolar para a Feira de História, publicada no Instagram, vários temas abordados pelos grupos de alunos do terceiro ano são citados, incluindo o embate entre os países aliados (que combatiam o nazismo) e o Eixo (composto pelas nações apoiadoras da Alemanha), nazismo, Adolf Hitler, propaganda nazista, arte degenerada, experiências médicas nazistas, Kindertransport (operação humanitária que salvou dez mil crianças judias, retirando-as dos domínios nazistas e levando-as para o Reino Unido), queima de livros, Noite dos Cristais (episódio de ataque violento de civis e paramilitares alemães contra judeus), campos de concentração e extermínio, Anne Frank, Pearl Harbous e a participação brasileira no combate, entre outros.

A deputada federal paranaense disse que tomou conhecimento do caso pelas próprias redes sociais, mas que, depois, outras pessoas endossaram a percepção de apologia. Ela ainda ressaltou que a entrevista com a filha do oficial nazista se deu em “uma narrativa de vítima, colocando o pai dela como herói”.


Embora tenha recebido mensagens em sua publicação de supostos alunos dizendo que não houve apologia ao nazismo na atividade desenvolvida na escola, Carol Dartora diz que este papel não caberia aos estudantes, mas, sim, à professora. “Uma profissional que está em sala de aula tem de saber o que diz a lei que criminaliza o nazismo no Brasil, que proíbe a fabricação, comercialização e distribuição de símbolos nazistas. Basta ver [nas imagens] como se deu a aula, a distribuição das suásticas nos ambientes”, exemplifica. “Quem tem de responder é o NRE, a Seed e o governador Ratinho Júnior, que continua apoiando as escolas cívico-militares, que já foram descontinuadas pelo governo federal”, continua.


A parlamentar apresentou um projeto de lei para capacitar o corpo pedagógicos das escolas para tratar de assuntos de violência étnico-racial nas escolas, onde violências contra minorias acontecem com frequência. A expectativa é que este e outros projetos análogos sejam aprovados em novembro, mês em que se celebra a consciência negra.


A reportagem procurou a Seed (Secretaria Estadual de Educação) do Paraná, questionando qual foi o teor do conteúdo trabalhado em sala de aula e como o nazismo e foi tratado, do ponto de vista da filha de um oficial nazista; se o Núcleo Regional de Educação acompanhou o desenvolvimento da atividade; qual a interpretação da 2ª Guerra Mundial esperada como resultado da atividade e qual o resultado final; e se a aparente inclinação política da professora teria influenciado no modo como o tema foi trabalhado. 


A Seed, entretanto, respondeu que instaurou o procedimento para apurar o caso e que “se posiciona veementemente contra qualquer ato que possa fazer apologia ao nazismo dentro das escolas”. A secretaria informou, por fim, que voltará a se manifestar assim que o levantamento for terminado.


A pasta também blindou o NRE, afirmando que o núcleo educacional de Apucarana não se manifestaria. A reportagem procurou a diretoria da escola por telefone na tarde desta segunda-feira, mas ninguém atendeu às ligações.


Para líder judeu de Londrina, não há garantia de que alunos fizeram apologia ao nazismo


Presidente da comunidade judaica de Londrina, o rabino Charton Baggio Scheneider afirma que toda e qualquer apologia ao nazismo deva ser investigada. “No entanto, não podemos afirmar que alunos estivessem com intenção de o fazer”, avalia. 


Scheneider ressalta que, “pelas notícias”, a solicitação aos alunos foi a de que fizessem trabalho escolar para levantar informações sobre vários aspectos da Segunda Guerra e da tragédia que este evento histórico teve em toda a humanidade e, principalmente, para os judeus, povo que teve mais de seis  milhões de pessoas, das quais dois milhões eram crianças. 


“Temos que ter cuidado com como agimos quando se trata destes fatos e de como se divulgam pelas redes sociais apenas o que se quer salientar. Não nos foi possível ver nada sobre os outros grupos que ficaram responsáveis pelo outros temas, entre eles o grupo responsável por tratar do Holocausto. Como judeu, como líder comunitário e como cidadão brasileiro, repudio toda e qualquer manifestação de cunho antissemita, incluindo apologia ao nazismo. Esperamos que as autoridades competentes possam realmente apurarem estes fatos”, conclui o líder semita.

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