Daniel Furlan ainda estava no estacionamento do Ceca (Centro de Educação, Comunicação e Artes) da UEL (Universidade Estadual de Londrina) quando os primeiros fãs o abordaram para algumas fotos – e quem sabe uma amostra de seu personagem mais conhecido: o Renan, piloto da Towner Azul Bebê.
Daniel veio a Londrina para o primeiro e, provavelmente, último show de sua banda, a Ócio, já que o grupo está em turnê de despedida. O trio se apresentou no sábado (21) no Maximo Villa Faria Lima. A banda é formada por Daniel nas guitarras e vocais, Rodrigo Larica no baixo e Patrick Preato na bateria.
Mas Daniel não para por aí. Também é ator, cartunista, comediante, poeta, roteirista e muitas outras coisas. Hoje, faz sucesso no Youtube com o programa "Choque de Cultura", da TV Quase, no qual é roteirista e ator, além de um dos idealizadores.
A premissa do programa é simples (e talvez um pouco "nonsense"). Quatro motoristas de van – "os maiores nomes do transporte alternativo do país" – comentam sobre cinema e séries. Caito Mainier é Rogerinho do Ingá, Raul Chequer é Maurílio, Leandro Ramos é Julinho da Van e Daniel Furlan é Renan.
Além do "Choque de Cultura" e da banda Ócio, Daniel participa de outros programas da TV Quase, é dublador e roteirista do desenho "Irmão do Jorel", e participa do "Lady Night", talk-show apresentado pela comediante Tatá Werneck no canal Multishow. Daniel também trabalhou na MTV Brasil no último ano da emissora, em 2013.
Depois de celebrar a morte da Ócio em Belo Horizonte, Daniel chegou a Londrina na última sexta (20). Com apenas duas horas dormidas, se dirigiu à UEL para participar de uma entrevista na rádio da universidade e aproveitou para bater um papo comigo - depois de mais um round de fotografias com dezenas de fãs que o esperavam em frente à rádio.
Daniel, você é formado em Publicidade e Propaganda pela Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), como você foi parar na comédia?
Durante a faculdade, eu, o Juliano Enrico (criador do "Irmão do Jorel"), o Raul Chequer e alguns outros amigos começamos a fazer o projeto de uma revista, a "Quase", que não tinha nada a ver com o curso. Era uma revista de humor, eu fazia quadrinhos.
Com o tempo, o pessoal começou a trabalhar com audiovisual. O mercado de impresso estava entrando em decadência e o Youtube começou a ficar mais forte, então pensamos em, em vez da revista, fazer curtas para festivais de cinema e vídeos. Foi quando surgiu a TV Quase. No começo eu achava uma estupidez fazer vídeo, atuar. Maluquice. Eu queria fazer quadrinhos para sempre, mas acabaram me convencendo.
A MTV foi, por muitos anos, uma referência para o público jovem, principalmente quando o assunto é cultura pop. O que, hoje, ocupa esse lugar que era da emissora?
Acho que o Youtube. Não existe mais essa busca na TV por um portal como era a MTV. As pessoas que consumiam esse tipo de conteúdo não veem televisão mais. Salvo raras exceções, a Tatá Werneck é uma delas, quem está na TV está escondido.
Pode acontecer de o "Choque de Cultura" ir para a televisão?
Pode. O "Choque de Cultura" é um programa de TV, uma paródia de um programa de baixo orçamento. Mas eu acho que a prioridade sempre é a internet. O lance, se a gente fosse pra uma TV, como a gente já foi várias vezes com programas da TV Quase, seria tentar exibir o programa também no Youtube. As emissoras têm mais dinheiro, então muitas vezes é interessante fazer uma parceria para conseguir um financiamento. A última temporada do "O Último Programa do Mundo" [programa da TV Quase], por exemplo, foi financiada pela Fox. Passou no FX. Quem viu? Ninguém viu. Mas foi importante pra gente dar a mão pra Fox, eles precisavam de um conteúdo e depois a gente colocou no nosso canal, que é o que realmente importou.
De onde veio a ideia de juntar duas coisas que aparentemente não têm nenhuma ligação – motoristas de van e cinema - em um mesmo programa?
Acho que o cinema alcança quase todas as camadas. Tem muitos canais hoje em dia de cinema com pessoas que não são críticos. É o público falando o que achou do filme. Discutir cinema está por aí, está na rua, no bar, em todo lugar. As pessoas discutem e falam com propriedade, independentemente de estarem falando uma coisa maneira ou estarem falando merda. E os caras do "Choque de Cultura" são meio isso. Não são "preparados" para fazer aquilo, mas estão ali pra dar a opinião deles, cada um com suas certezas. Acho que eles refletem um pouco isso. Todo mundo que vê um filme tem uma opinião sobre uma parada técnica, sobre uma parada do roteiro. Não fica só no "gostei" e "não gostei". É um pouco mais sofisticada, independentemente de a pessoa saber o que ela está dizendo ou não.
Na sua tese de mestrado (em Artes Midiáticas pela Universidade de Greenwich, em Londres), você investigou a dinâmica entre riso e culpa no humor politicamente incorreto. Em março, houve uma polêmica quando Raul Chequer e Leandro Ramos participaram do programa "Pânico", da rádio Jovem Pan. Na ocasião, houve uma discussão a respeito de preconceito e humor, falando principalmente sobre o filme "Uma Mulher Fantástica", que tem como atriz principal uma transexual. A TV Quase evita fazer esse humor "incorreto"?
Antes precisamos definir o que é "correto" e "incorreto". Esse foi um discurso colocado na boca do Raul e do Leandro. Em nenhum momento eles falaram que a TV Quase faz um "humor do bem". Nenhum de nós tem o menor interesse em saber o que é isso. A gente quer fazer algo engraçado e naturalmente não achamos engraçado fazer um humor que propaga preconceito, ser escroto. Perde a graça mesmo, não é maneiro. Não é questão de ser "certinho". Óbvio que às vezes a gente escorrega e depois fala "caraca, realmente, foi meio machista". Acontece. O mais importante é ter consciência, questionar.
O Raul não discordou do Carioca levantando uma bandeira, foi sobre uma questão específica. Sobre poder falar "traveco", se pode, se é engraçado. Não foi falando que a TV Quase não faz um tipo de humor, esse foi o discurso das pessoas que assistiram.
BANDA ÓCIO
Por que a banda vai acabar?
Por vários motivos. Ela já existe há muito anos. O primeiro disco é de 2006, mas ela meio que estagnou em 2016. A gente está com dificuldade em fazer coisas novas, com pouco tempo disponível e falta de interesse dos próprios integrantes e do público. Começou a ter interesse agora que falamos que vai acabar. A gente só se encontrava pra tocar as mesmas músicas e nos mesmos lugares. É muito ruim virar uma banda cover de si mesma.
A banda passou alguns anos em Londres, entre 2007 e 2011. Qual é a diferença entre tocar lá e aqui no Brasil?
A gente era uma banda independente lá também, com dificuldades parecidas com as de muitas bandas daqui. Mas algumas coisas lá são melhores. Ao mesmo tempo em que em Londres existe uma concorrência muito maior, você também tem muitos lugares para tocar, com um som muito bom. A grande diferença para mim é que, em quatro anos tocando direto na Europa, eu me lembro de ver só uma vez uma banda tocar mal, estar mal ensaiada, insegura. Em 99% das vezes todo mundo tinha instrumentos fodas, muito bem ensaiados e o show era muito bom.
Conheça melhor o trabalho de Daniel Furlan com a TV Quase e com a banda Ócio.