Eis que o início da nova fase do atual Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (MCU) finalmente está entre nós, e, para alegria dos fãs do Amigão da Vizinhança, a jornada o Peter Parker de Tom Holland chega ao ponto da trajetória nas telonas em que sua versão remonta sua caracterização mais clássica dos quadrinhos com muita fidelidade.
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Homem-Aranha: Um Novo Dia mostra todas as facetas mais complexas do personagem em uma trama mais simples do que parece, e, acertadamente, deixa um pouco de lado o tradicional antagonismo de sua galeria de vilões para concentrar a narrativa no desenvolvimento do herói. Aqui, o Peter Parker de Tom Holland exibe com mais precisão e amplitude todos os elementos que definiram o núcleo do personagem na inoxidável fase do desenhista John Romita — pai de Romita Jr., que também está na história de publicação há décadas.
Quais são essas características mais complexas e definitivas do Homem-Aranha? E como o filme do diretor Destin Daniel Cretton foi bem-sucedido em estabelece-las no cinema de maneira mais completa e fiel aos quadrinhos do que as encarnações anteriores de Tobey Maguire e Andrew Garfield?
Abaixo explico certinho, sem spoiler. Antes de tudo, vamos à sinopse: após o mundo ter esquecido de Peter Parker no ápice dos eventos da trilogia inicial, que culminou com a morte de May Parker (Marisa Tomei) na trama multiversal que obrigou o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) a realizar a magia amnésica, o herói tenta conciliar sua vida pessoal com as responsabilidades do aracnídeo. E, em meio a mutações que aumentam (e descontrolam) a intensidade de seus poderes, ele se vê rodeado de inimigos poderosos, legados antigos e aliados inesperados.
A tragicômica vida solitária de Peter Parker
Uma coisa que muitos fãs do Homem-Aranha que não acompanham as tramas mais populares dos quadrinhos podem não contemplar por completo é que aquela fase inicial mais ensolarada, divertida e cheio de desafios dignos de um dramédia de John Hughes, é que, essa versão popularizada na maioria das animações, foi importante para tornar Peter Parker um personagem tão fácil de se identificar, mas não foi a que definiu características que se tornaram referência desde o final dos anos 1960.
Após a sensacional gênese de um herói que tem vida pessoal de Peter Parker até mais interessante do que nas aventuras de sua contraparte mascarada, Steve Ditko e Stan Lee encerraram a fase colegial com a chegada do artista que remodelou o visual, a ambientação, a personalidade e o mundinho particular do Amigão da Vizinhança entre meados dos anos 1960 ao começo dos anos 1980.
John Romita Sr. é até hoje a fonte da representação gráfica de tudo que rodeia o Homem-Aranha até hoje; e seu filho, John Romita Jr., foi quem também manteve esses elementos clássicos na vida do herói a partir de meados dos anos 1980, com passagens recorrentes nas histórias do aracnídeo desde então.
De 1966 em diante, passamos a ver Peter Parker aceitando sua vida baixa-renda e solitária, com sacrifícios que somente ele passou a suportar, em um mundo que o machucou constantemente, tanto em sua composição física quanto psicológica. Foi então que a grande diferença do Homem-Aranha com os outros mascarados da Marvel foi definida.
O Homem-Aranha passou a ser um herói sozinho, que sempre precisa se isolar para evitar, muitas sem sucesso, a morte daqueles que conhecem sua identidade e o amam. Ele se tornou o protetor incorruptível e resiliente que conhecemos, que carrega um peso que talvez nenhum outro colega da Marvel poderia.
Veja bem, nos quadrinhos ele não consegue atuar em grupo, vive sofrendo derrotas na vida pessoal, e é tão solitário que até já ficou em coma sem que nenhum outro herói tenha visitado no hospital. Para ele, toda vida importa, ainda mais das pessoas que ele ama, e sua maior força é não devolver todas as porradas e ódio que recebe do mundo na mesma moeda. Ele absorve isso e retribui amor e esperança, mesmo em detrimento de sua própria felicidade.
E é exatamente isso que também redefine sua versão nas telonas com Tom Holland. Embora Maguire e Garfield tenham esses elementos, a passagem rápida pelo colegial não foi o suficiente para construir a vida adolescente para mostrar a passagem para sua jornada adulta. Em Um Novo Dia, fica muito mais claro e interessante acompanhar as questões que todo mundo enfrenta nessa transição, principalmente porque o próprio roteiro de Erick Sommers e Chris McKenna incorpora as mudanças comportamentais e as transformações físicas com o descontrole de seus poderes.
Ação e ambientação de encher os olhos
Uma das coisas que mais chamam a atenção na direção de Cretton é a forma como ele entende com maestria o mundo urbano que pode ser tão agitado quando isolado no cotidiano de uma metrópole. E não estamos falando de qualquer lugar: Nova York faz parte do DNA do Homem-Aranha.
Cretton fez um incrível trabalho de representação visual da Nova York na perspectiva do herói. Para isso, não economizou em locações, tomadas em arranha-céus, parques, ruas e cenários icônicos, com direito a sequências com ângulos, cargas dramáticas, edição de som e transições muito inventivas e que aderem com perfeição às peripécias do Homem-Aranha e as questões sentimentais de Peter Parker.
Por exemplo, quando o herói está em ação, as cenas privilegiam muitas sequências com grande angular, mostrando com detalhes os prédios, contornos e elementos iconográficos de Nova York, com ação estilizada de luta e deslocamento nas viagens aéreas do Homem-Aranha — com direito a câmeras que ficam rodando e gingando sem confundir o telespectador. Os próprios gestos, atividades e lutas do herói foram remodelados, que dão ao aracnídeo um repertório de movimentos com identidade própria.
Já quando há carga dramática, a câmera restringe o espaço ao redor e se aproxima de Peter, com muitas pausas sonoras e ritmo mais lento. Muitas cenas da vida pessoal destacam o silêncio e mais cenas de ponta-cabeça quando está sem a máscara. Há sempre um sabor agridoce e uma certa melancolia sempre presente — aliás, isso talvez possa incomodar um pouco os fãs que preferem mesmo é o aracnídeo porrando e fazendo piadinha.
Justiceiro e Jean DeWolff estão perfeitos
Dois personagens icônicos dessa fase dos quadrinhos estão presentes nas participações que aparecem como complementos ideais para a trama. Frank Castle (Jon Bernthal) já é a melhor versão do Justiceiro nas telinhas e telonas e traz aquela parceria meio “frienemy”, com o jeitão de antagonista como aquele amigo meio bruto sem tino com as pessoas — aquele que diz “só quem pode bater no meu irmão sou eu”.
Além disso, Castle também reproduz com fidelidade as amizades que começam com rivalidade e se tornam lealdade nos quadrinhos. Engana-se quem pensa que ele está ali superficialmente, pois sua interação com o Homem-Aranha é muito bem-vinda e traz contraste que também aproxima os dois.
Já a capitã DeWolff (Zabryna Guevara) é adicionada como a “visão mais humana” e cotidiana, já que Tia May, MJ (Zendaya) e Ned Leeds (Jacob Batalon) só começam a realmente interagir lá pela metade do filme.
Vale destacar que A Morte da Capitã Jean DeWollf chocou os leitores nem 1990, e até hoje é considerado um dos eventos mais impactantes dos quadrinhos de heróis.
A escalada mutante com Jean Grey, mas… e o Hulk?
A essa altura do campeonato, não chega a ser spoiler confirmar Jean Grey (Sadie Sink) na trama, que deixou de lado “grandes vilões” para trazer uma personagem que define bem o comportamento dos mutantes no Universo Marvel.
A narrativa aborda a personagem como vilã, mas, na verdade, antecipa como os mutantes veem e são tratados pelo mundo. E a história mostra isso de uma forma muito inteligente, pois, em dado momento, fica claro notar que, se o filme fosse sobre os X-Men, ela, na verdade, seria a heroína. Isso é muito importante para transmitir o bordão da equipe, “odiados e temidos pelo mundo que protegem” — lembrando que o reboot da franquia está em desenvolvimento.
Já o Hulk (Mark Ruffalo)… Bem, embora seja legal rever o Gigante Esmeralda trazendo de volta sua dualidade emocional e a versão selvagem e descontrolada, a participação da criatura, tanto na versão humana quanto na monstruosa, é bem franquia, com lutas divertidas, porém sem grande importância para o desenvolvimento do enredo — parecem aquelas exigências de estúdio, só para manter o Golias Esverdeado na continuidade da cronologia do MCU.
Até mesmo o cacareco que ele introduz e tem uma certa importância na história aborda um desenvolvimento de roteiro tão preguiçoso quanto infantil e pouquíssimo inspirado.
Homem-Aranha: Um Novo Dia vale a pena?
Sim, especialmente por conta de uma sentimental abordagem na passagem de Peter Parker para a vida adulta e pela ótima caracterização de Jean Grey, Justiceiro e Jean DeWolff. O núcleo “humano” também sempre nos traz de volta para o chão para sabermos que é que o Homem-Aranha está salvando.
A fotografia, movimentos de câmera, locações e definições da identidade visual são incríveis, assim como as coreografias de luta, que, embora tenham mantido muitas ações dos filmes anteriores, exibem com nitidez o trabalho para criar comportamento e expressões físicas e emocionais.
Ainda que o Hulk tenha passado de maneira tão insossa e mal resolvida, ainda é gratificante ver o personagem de volta no MCU. Sim, não é um filme perfeito, mas é muito fiel aos quadrinhos, e tão divertido quanto.
No final, os espectadores poderão notar o Homem-Aranha “raiz” que inspira todo mundo: não é sobre poderes e responsabilidades, é mais sobre falarmos para as crianças que, se ela for resiliente, incorruptível, apanhado mundo mas devolvendo amor quando rece ódio, basta colocar a máscara que qualquer guri com tanta riqueza de espírito se torna o Amigão da Vizinhança.