Se você puxar na memória a imagem clássica do Homem-Aranha balançando entre prédios, provavelmente vai lembrar dele cercado por nuvenzinhas cheias de bolinhas direcionadas à sua cabeça. Esse recurso maravilhoso, que basicamente escancarava a fofoca mental dos mascarados, virou peça de museu. Se você tem menos de 30 anos, as chances de ter visto um desses em um gibi recente da Marvel ou da DC são quase nulas, já que eles foram sumariamente extintos nos anos 1990.
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Projetar os dilemas da mente em superfícies não é exatamente uma novidade da cultura pop. A humanidade tenta fazer isso desde as pinturas rupestres e os hieróglifos egípcios. No século XV, surgiram as chamadas "faixas de fala", que pareciam rolos de pergaminho flutuantes.
Mas o preconceito com o recurso também é antigo: no século XVIII, cartunistas famosos como William Hogarth aboliram a prática por achá-la puramente infantil. Para eles, se a arte e o diálogo principal já eram bons, explicar o óbvio era subestimar o leitor.
O formato de nuvem que aprendemos a amar só se consolidou de verdade na virada do século XX, ganhando o formato definitivo nos anos 1930 com as histórias do Superman. Entre as décadas de 1960 e 1980, os balões de pensamento se tornaram a coluna vertebral da narrativa de super-heróis.
Stan Lee e seus asseclas usavam o recurso de forma genial (e econômica) para fazer o herói explicar conceitos científicos complexos, recapitular a edição anterior enquanto levava um soco do Duende Verde ou, claro, choramingar pelo preço do aluguel.
A revolução cinematográfica e a morte da nuvenzinha
Tudo mudou quando a geração dos anos 1990 assumiu o controle das pranchetas. Com a fundação da Image Comics e o estouro de artistas que priorizavam a anatomia exagerada e páginas duplas cheias de impacto, os quadrinhos quiseram virar cinema.
A regra de ouro passou a ser "mostre, não conte". Os balões de pensamento passaram a ser vistos como um entulho visual que poluía as armaduras cromadas e os músculos hipertrofiados que os desenhistas levavam horas para detalhar.
Em vez de abrir uma nuvem para o Wolverine dizer que estava com raiva, os autores preferiam colocar um close-up fechado em dentes rangendo e garras saindo com um sonoro snikt. A narrativa ficou mais imersiva, rápida e direta, mas os personagens perderam aquela camada de intimidade quase teatral que tinham com o leitor. Se o herói não falasse alto ou não demonstrasse fisicamente, você simplesmente não sabia o que se passava na cabeça dele.
Hoje em dia, a mente dos personagens não virou um completo deserto, mas mudou de endereço. As reflexões internas migraram para caixas retangulares de recordatório, simulando uma voz em off de filme noir.
O balãozinho clássico virou uma ferramenta puramente nostálgica, usada quase exclusivamente no mercado independente ou quando o roteirista quer fazer uma piada puramente visual. No fim das contas, os heróis continuam pensando, mas a era de ouro de suas mentes barulhentas ficou no passado.