Expoente da nova onda de cinema surgida no Irã em fins dos anos 80, o escritor, roteirista (também dos filmes da filha, Samira) e diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf, autor de ‘Gabeh’, ‘Salam Cinema’ e ‘O Silêncio’, apresentou ‘Kandahar’ (Safar e Ghandebar) na mostra competitiva do 54º Festival de Cannes, em maio último. No dia da primeira exibição para a imprensa não houve outros concorrentes, a fim de que fosse aberto espaço extra para um dos mais esperados acontecimentos da programação paralela, a versão ampliada de ‘Apocalypse Now’. Melhor para Makhmalbaf, que teve atenções em dobro para seu filme. Mesmo assim, a sucessão de dezenas de títulos de qualidade em vitrine como Cannes acaba por embaralhar as opções, e ‘Kandahar’, apesar de sua excelência, passou ao largo das premiações. Mas agora, decorridos seis meses de Cannes e exatos dois meses dos atentados terroristas nos Estados Unidos, ‘Kandahar’ ganha súbita ressonância: esteve hors concours em praticamente todos os festivais recentes – foi visto em São Paulo na recém-encerrada Mostra Internacional – e acaba de ser lançado em Nova York e Paris.
‘Coloquei minha alma nesta viagem em que percorri caminhos inexplorados somente para oferecer-te uma razão para que vivas. Atravessei campos de papoulas, cruzei campos minados. Hoje te trago mil magníficas razões de vida’. Nafas, jornalista afegã refugiada no Canadá, grava esta mensagem de esperança para sua irmã, depois de receber dela uma carta terrível, na qual é comunicada a decisão de suicídio no dia do último eclipse solar de 2000. Não resta muito tempo. Arriscando tudo, em companhia de desconhecidos em quem precisa confiar (um velho afegão, um rapaz e um médico), Nafas cruza a fronteira e corre ao encontro da irmã em uma aventura que a obriga a entrar clandestinamente no Afeganistão, um país flagelado pela violência talibã e pela maldição militar das minas.
Inspirado nesse fato real, Makhmalbaf resolveu atacar de frente o martírio em vida das mulheres afegãs. Para isto decidiu batizar seu personagem principal justamente de Nafas, que significa respiração. Nem documentário nem ficção: o filme habita simultaneamente ambas as margens, mas foge deliberadamente de qualquer rótulo. Em caso obrigatório, melhor enquadrá-lo como docudrama, neologismo que celebra o casamento entre documentário e ficção. Mas como surgiu a idéia para essa jornada de pavor em território afegão?
Na entrevista exclusiva concedida à Folha em Cannes, Makhmalbaf revelou a gênese do projeto: ‘Um dia uma mulher veio me ver em Teerã. Refugiada no Canadá, ela tinha recebido a carta de uma amiga que ia se suicidar por causa das terríveis condições de vida em Kandahar. Ela queria que eu a acompanhasse, e foi este o ponto de partida do roteiro. Mas antes de filmar a história fiz uma ampla pesquisa política, econômica e cultural que transformei num livro manifesto, ‘O Buda não Foi Demolido no Afeganistão, ele Caiu Sozinho e de Vergonha.’
Com estilo sóbrio, sem abdicar da poesia para emoldurar a tragédia de seus personagens – as sequências da ‘maratona’ de amputados em muleta atrás das próteses e as caravanas de mulheres cobertas pelo chador são para figurar com destaque na antologia da dor e da desesperança á–, Makhmalbaf arrasta a platéia para dentro do horror que é a condição feminina num país-pesadelo. E ‘Kandahar’, afinal, é uma bofetada de mestre nos países que manipularam por muitos anos o tabuleiro de xadrez da Guerra Fria, convertendo o Afeganistão nesse monstro que agora todos querem varrer do mapa asiático.